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‘365 dni’ é “pseudo romantização” e “objetifica a mulher”, afirma especialista

Fimmelier conversou com uma especialista em sexualidade e duas vítimas de namoros tóxicos para entender o impacto do novo sucesso da Netflix

19 de junho de 2020 12:52

‘365 dni’ é um dos filmes mais assistidos da Netflix nos últimos dias no Brasil. A produção tem causado polêmica na redes sociais por romantizar síndrome de Estocolmo (estado psicológico em que a pessoa submetida a intimidação, medo, tensão e até mesmo agressões, passa a ter empatia por seu agressor), relações abusivas e estupro, segundo espectadores.

Ainda assim, por exemplo, muitos relataram no Twitter terem se apaixonado pelo protagonista, um mafioso que sequestra uma moça para que ela se apaixone por ele.

Na história, Laura Biel, uma jovem que viaja para a Sicília de férias com o namorado, acaba sendo sequestrada por Massimo, um membro da máfia local, que tentará fazer de tudo para que Laura se apaixone por ele enquanto a mantém em cativeiro por 365 dias. Laura acaba caindo nos “encantos” de Massimo e começa a sentir necessidade de estar o tempo inteiro ao lado dele.

Laura é agredida em ‘365 dni’ por não fazer o que seu abusador “manda” (Crédito: reprodução / Netflix)

O protagonista da produção é um ator charmoso, bonito, rico, com uma pinta de conquistador e extremamente agressivo. Ainda assim, essas características tentam convencer o público de que a moça deveria se apaixonar por ele e se entregar ao “romance”. Esse quadro acaba naturalizando comportamentos agressivos da parte masculina e que as mulheres deveriam aceitar isso, “afinal, se tem amor envolvido, deveria ser o bastante”.

Os problemas

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O filme é problemático por si só e fica ainda pior aos olhos de quem já passou por um relacionamento abusivo, afirmam especialistas. Devido ao sucesso de ‘365 dni’, o Filmelier conversou com Alessandra Diehl, psiquiatra, educadora sexual e especialista em sexualidade humana, e duas mulheres que sofreram com esse tipo de relação e mesmo depois de terem terminado ainda lidam com as consequências.

De acordo com a médica e educadora, a produção é bem alarmante e prejudica a luta pela igualdade de gênero, que vem avançando nos últimos anos.

“Fico bastante preocupada pelo risco de aculturação e normatização de padrões comportamentais que podem ser extremamente nefastos para a saúde mental, para a autoestima e para o processo de individuação das pessoas. Além disto, não contribui para uma equidade de gênero, pois reforçam a perpetuação de narrativas históricas (ou seja, já bem conhecidas) das relações de poder nos laços individuais e afetivos de homens e mulheres em nossa sociedade”, opina Alessandra Diehl.

Cena de ‘365 dni’ em que Laura é amarrada para viajar com seu abusador, Massimo. (Crédito: Reprodução / Netflix)

Não só isso, segundo ela, ‘365 dni’ reforça o machismo presente na sociedade: “O filme é apelativo para uma pseudo romantização da submissão e dos relacionamentos abusivos entre homens para com mulheres. Somando a objetificação da mulher, enquanto ‘coisa’, que se compra, domina, domestifica e doutrina”.

Gatilho

Do ponto de vista de quem já passou por relacionamentos abusivos, a produção consegue ser ainda mais prejudicial, pois gera um desconforto. Não só pela romantização, mas também pelo sentimento que desperta em quem foi vítima disso.

“Namorei uma espécie de macho alfa aos 15 anos de idade. Dizia a todo mundo que estava loucamente apaixonada por ele. Nossa relação era pautada por muito ciúmes e possessividade”, conta a publicitária Mariana Jacques, de 27 anos. Ela ainda pondera sobre a dominação que o homem exerce na história e que isso é um dos principais problemas nesse tipo de relação.

“Passei a viver um ciclo vicioso onde eu não conseguia me desvincular dele. Entre uma das idas e vindas do namoro fui agredida fisicamente por ele aos 19 anos, em plena balada lotada. Mesmo depois de denunciá-lo na delegacia das mulheres, me sentia culpada pelas agressões do meu agressor narcisista e perverso”.

Giovanna Cancian, bióloga, de 27 anos, acredita que essa romantização também acaba sendo um problema para uma vítima de abusos conseguir denunciar seu agressor.

“Esse tipo de
filme inviabiliza
a denúncia”

“Esse tipo de abordagem em um filme que romantiza o abuso além de normalizar o abuso e o machismo, inviabiliza a questão da mulher denunciar. Inclusive, filmes com essa vertente de fetiche por violência quando há a resistência da mulher e o homem força, posteriormente ela cede. Isso incentiva a cultura do estupro na sociedade que já tem embasamento machista, inclusive entre as mulheres que passam por esse tipo de relação. Porque ela acaba sendo convencida de que esse tipo de atitude representa um tipo de demonstração de afeto, cuidado, completamente distorcida”.

Abusador “partidão”

Vale ressaltar que ‘365 dni’ não é o único filme a romantizar abusos. Na trilogia ‘50 Tons de Cinza’ o mesmo foi visto e o protagonista segue o padrão de um homem lindo, inteligente, com um emprego importante e com “gostos peculiares”.

Christian Grey, interpretado pelo ator Jamie Dornan, em ’50 Tons de Cinza’. (Crédito: reprodução / Universal Pictures)

“No livro (‘Grey: Cinquenta Tons de Cinza pelos Olhos de Christian’) do [Christian] Grey, sobre a perspectiva dele, a história diminui a importância da vítima e o coloca como um cara bem sucedido, bem resolvido, que não via muitos problemas no relacionamento que tinha e no final aborda o fato dele ter sido abusado na infância, romantizando inclusive esse tipo de atitude ser replicada, com a justificativa de que uma pessoa que sofreu abuso tem o aval de cometer abuso com outras pessoas, tornando-a vítima também do abuso que comete”, diz Giovanna Cancian.

Marina Jacques tem a mesma opinião: “Em ‘365 dni’ o agressor é dono de um corpo escultural, milionário e mora numa ilha paradisíaca. Retratar o mundo desse agressor como ideal é incrível e banalizar os crimes cometidos por ele roteiristas e diretores de cinema estão contribuindo para a cultura do estupro”.

“Estão contribuindo
para a cultura
do estupro”

A especialista em sexualidade humana, Alessandra Diehl, analisa também que esse tipo de história é prejudicial para mulheres mais novas:

“Em geral jovens podem pensar que aquele tipo de ‘roteiro sexual’ é o que ele deveria seguir na sua ‘vida real’, acabam por criar expectativas irreais e gerar mais frustração, estão mais preocupados com a performance sexual sua do que no seu próprio desejo e satisfação bem como de sua parceria sexual”.

O papel da Netflix

Alessandra acredita que esse tipo de filme deveria vir com um aviso da plataforma que distribui, mas muito além disso, a indústria que o produz deveria repensar esse tema. “Não acho que seja responsabilidade apenas das plataformas, mas também dos roteiristas”, completa a especialista.