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‘Sailor Moon’, ‘Demon Slayer’ e a onda de animes que vivem no passado

Os animes ainda reforçam uma estética que o mundo deveria deixar para trás, algo que fica ainda mais claro com o lançamento dos filmes da Sailor Moon na Netflix

9 de junho de 2021 11:11
- Atualizado em 14 de junho de 2022 12:58

Os animes – forma abreviada da palavra animação em japonês – nunca deixaram de ser populares, principalmente aqui no Brasil. Desde o começo dos anos 1990, as adaptações de mangás dominavam os canais abertos da TV brasileira – com ‘Dragon Ball’, ‘Yu Yu Hakusho’, ‘Cavaleiros do Zodíaco’, ‘Sailor Moon’, ‘Sakura Card Captors’ e muitos outros.

Na era do streaming, eles continuam fazendo sucesso. O Crunchyroll e a Funimation são as plataformas mais conhecidas, mas não são as únicas. Nos últimos anos, a Netflix tem investido nos desenhos japoneses e uma das sagas de maior sucesso é ‘Demon Slayer‘, que teve seu primeiro filme lançado em 2020 e está em cartaz nos cinemas brasileiros.

‘Pretty Guardian Sailor Moon Eternal: O Filme’ está disponível na Netflix (Foto: Divulgação/Netflix )

Seguindo a mesma onda, o serviço de VOD por assinatura fez questão de garantir os direitos de distribuição de ‘Pretty Guardian Sailor Moon Eternal: O Filme’, uma série de dois longas do mangá criado por Naoko Takeuchi em 1991. A novidade chegou à Netflix na semana passada.

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Vale lembrar que essa animação japonesa encontrou alguns problemas ao ser exibida no Brasil, por conta das dublagens e porque as temporadas nunca conseguiram ser exibidas na íntegra. A produção passou pela Manchete, canal aberto que faliu antes da segunda temporada chegar ao Brasil, depois pelo Cartoon Network, e depois voltou à TV aberta, via Record. 

O anime foi todo segmentado, desde sua estreia, e ficou no ar no canal pago a partir da segunda temporada, indo até 2002. A solução para que os fãs brasileiros pudessem desfrutar de todos os episódios veio só em 2014, quando a série ganhou um remake, ‘Sailor Moon Crystal’. 

Todos os capítulos chegaram ao Brasil, com legendas, pela plataforma de streaming Crunchyroll. A estética da nova versão se aproxima mais do mangá, diferente do que o público do anime estava acostumado. 

O design do remake de Sailor Moon não agradou os fãs (Foto: Reprodução/Toei)

Nos novos filmes, lançados este ano pela Netflix, os traços se aproximam ao do original, trazendo toda a nostalgia da história. No entanto, algumas coisas podem ter ficado datadas para quem não acompanha animes, especialmente quando paramos para analisar a representação das mulheres.

Sailor Moon vem de um conceito que tenta flertar com o feminismo. São guerreiras cósmicas que protegem a Terra das forças do mal. Cada uma delas representa um planeta (ou satélite natural) do sistema solar. A série ainda fala abertamente de sexualidade e tem duas personagens lésbicas. Entretanto, será que isso é o suficiente quando pensamos ainda na forma como elas são retratadas na história?

Sexismo ainda presente nos animes

As personagens femininas – vilãs e heroínas – continuam sexualizadas, em um nível que chega a incomodar. A produção traz algumas falas problemáticas sobre crianças querendo um corpo idealizado de uma mulher adulta. Claro que se formos apenas analisar entretenimento por entretenimento, é possível se desvencilhar desses problemas.

Mas será que já não está na hora dos desenhos animados – aqueles indicado para um público infanto-juvenil – dançarem conforme a música? Em outros animes, como no caso de ‘Demon Slayer’, esse lado sexista não é explorado da mesma maneira como em ‘Sailor Moon’. Ainda assim, ele existe.

Trailer português de Pretty Guardian Sailor Moon Eternal: O Filme | OtakuPT
As vilãs de ‘Pretty Guardian Sailor Moon Eternal: O Filme’ (Foto: Reprodução/Netflix)

Essa sexualização é vista também nos mangás e está presente em quase todos os animes. Tanto que tem um nicho para isso, que são os hentais. Porém, se tratando de desenhos para um público que não está interessado em pornografia, talvez já tenha passado da hora de parerem de sexualizar as mulheres e meninas representadas nesses conteúdos.

Claro que é bom pontuar que, quando somos crianças, não enxergamos as coisas de uma forma misógina. Só que esse tipo de imagem acaba moldando nossa cabeça, especialmente quando falamos de garotas que crescem com heroínas com um padrão de corpo quase inatingível.

Independente de ser um traço – cultural ou não – que é a forma como os fãs de animes defendem esse tipo de estética em fóruns na internet, não deixa de ser um descuido. Estamos vivendo a era do #MeToo – em uma Hollywood que está tentando mudar a forma como as mulheres são representadas e sua inclusão na mídia – e com esse outro lado tão contraditório ainda reproduzido.

Isso tudo falando apenas do lado misógino. Afinal, se formos analisar de uma forma ainda mais ampla, dá para explorar muitos outros problemas. Vale ressaltar que não se trata de taxar os animes como um conteúdo ruim. Apenas que eles ficariam ainda melhores se deixassem esses problemas de lado.

Criador do mangá ‘One Piece’ usa do ridículo para compor seus personagens

Um anime que deu o que falar por conta de representação do corpo feminino é ‘One Piece’. O criador Eiichiro Oda revelou em uma sessão de perguntas no mangá que seu estilo excêntrico de desenhos é justamente para vender a história.

Tudo começou quando um leitor perguntou porque o autor resumiu o protagonista a um poder tão bobo. No caso, a trama fala de piratas e o personagem principal tem a habilidade de se transformar em borracha. Oda respondeu que ele se propõe ao ridículo para que sua série continue sendo popular.

One Piece Manga |OT| ZEHAHAHAHA! The Name of this Age is Blackbeard! | NeoGAF
Evolução da protagonista Nami ao longo dos anos (Foto: Reprodução/Fórum NEOGaf)

“A resposta é simples. Eu escolhi a habilidade mais ridícula. Se o protagonista fosse o típico cara forte, duvido que pudesse continuar com isso por muito tempo. Não importa o quão séria a história fique, Luffy está lá para esticar e inflar. Ele sempre me dá uma chance de brincar. Esse é o tipo de mangá que eu queria escrever”.

Eiichiro Oda pode não ter falado especificamente sobre as personagens femininas, mas sua resposta acaba abrindo uma reflexão sobre seu estilo. É possível relacionar ao fato que certos padrões problemáticos seguem vigentes devido a popularidade dos animes.

Inclusive, ainda no caso de ‘One Piece’, as mulheres da série foram mudando com o passar dos anos. Antes, tinham o corpo mais infantil e, depois, ganharam curvas femininas bem exageradas.

Falta de representatividade

Não é novidade que os animes falham quando o tema é representatividade. Recentemente, a Netflix trouxe a série ‘Yasuke’, primeiro anime com um samurai negro. A história, baseada em fatos, foi criada pelo norte-americano LeSean Thomas.

Yasuke, o Samurai Africano | Crítica - O Megascópio
‘Yasuki’ é primeiro anime com um protagonista negro (Foto: Reprodução/Netflix)

Nos animes, ficamos só com os traços do MAPPA Co., Ltd., um estúdio de animação do Japão e direção de Takeshi Koike, com produção vinda dos Estados Unidos. Lakeith Stanfield (‘Judas e o Messias Negro’) dá a voz ao protagonista, enquanto Thomas entra como produtor, além de criador.

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