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Após pandemia, cinemas drive-in devem voltar a ser entretenimento esporádico
Falta de espaço e limitação de acesso à população devem dificultar continuidade da atração; mas formato ainda deverá ser visto como experiência isolada
Matheus Mans | 26/08/2020 às 11:36 - Atualizado em: 01/09/2020 às 18:11
Com os cinemas fechados e as pessoas precisando manter distanciamento social, os cinemas drive-in se tornaram a principal opção de lazer nos grandes centros urbanos brasileiros. Carros enfileirados, geralmente vendo filmes de outras épocas, tornaram-se símbolo do cinema na quarentena. Mas esta é uma nova opção de lazer que deve se perder na pós-pandemia.
Afinal, montar e manter um cinema drive-in exige cuidados e preparação. É preciso encontrar um amplo espaço para comportar o maior número possível de carros. Além disso, a tela e o sistema de som precisam estar bem alinhados para evitar uma experiência desconfortável. Isso sem falar que é preciso ter fiscalização e monitoramento de todos os presentes.
“Foi um jeito de sobreviver. As salas estão pagando equipe, pagando contas, e ainda fechadas”, conta Josephine Bourgois, diretora executiva do Projeto Paradiso e responsável pelo cinema drive-in gratuito Paradiso. “Afinal, esta é uma fonte de receita razoável que está ajudando a aliviar, mas não solucionar, a grave crise dos exibidores durante toda a pandemia”.
Experiência positiva
Apesar da falta de perspectivas, o mercado parece que vai manter boas memórias com o cinema drive-in. Em entrevista ao Filmelier em julho, o empresário André Sturm estava animado com os resultados alcançados pelo Belas Artes Drive-in, montado num espaço aberto do Memorial da América Latina. A maioria das sessões fica com os ingressos esgotados.
“Os cinemas foram os primeiros a fechar e ficamos com faturamento zero. Não tem delivery de cinema. Vi uma foto de um drive-in nos Estados Unidos e comecei a preparar a operação”, compartilhou Sturm. “Estamos desde maio com o Belas Artes Drive-in gerando receita, com meus funcionários trabalhando. Ainda, mantivemos a marca do Belas em evidência”.

A maioria dos filmes exibidos são produções de outros tempos, como ‘Interestelar’, ‘Vestida para Matar’ e ‘Cantando na Chuva’. No entanto, filmes inéditos, produções brasileiras e relançamentos especiais, como ‘Apocalypse Now: Final Cut’, também ganharam espaço na programação do drive-in, que cobra R$ 65, com uma limitação de quatro passageiros.
Drive-in gratuito
Uma outra experiência interessante para o período foi a do já citado Projeto Paradiso, instituição beneficente de capacitação de profissionais para o mercado audiovisual. Mudando um pouco a forma como atua no mercado, a empresa decidiu abrir um drive-in próprio. No entanto, ao invés de cobrar a média de R$ 100, o cinema do Paradiso é totalmente gratuito.
Além disso, ao invés de grandes títulos estrangeiros, o drive-in investiu em produções nacionais -- sejam elas clássicas, infantis ou até mesmo inéditas.
“A gente queria um drive-in alinhado com a nossa missão. É uma iniciativa de valorização do audiovisual nacional”, contextualiza Josephine Bourgois, diretora do projeto, ao Filmelier. “Desde o primeiro fim de semana, os ingressos esgotam no primeiro ou segundo dia. A demanda reprimida é muito grande. É importante deixar uma tela para as pessoas assistirem”.

Vale ressaltar que, além desses casos, há quase uma dezena de outros drive-ins em espaços abertos e estacionamentos só em São Paulo. No Allianz Park, estádio do Palmeiras, um drive-in traz os grandes sucessos dos cinemas e até promove alguns shows. O SESC anunciou um drive-in ao lado do Mercado Municipal. Já o Cine Autorama chegou na Mooca.
“Este é um movimento praticamente natural, devido a impossibilidade de se frequentar salas de cinema convencionais durante uma pandemia”, diz Renato Coelho Panacci, coordenador do curso de Cinema da Universidade Anhembi Morumbi. “Ao mesmo tempo, o modelo de exibição drive in possui todo um apelo vintage, enquanto opção de entretenimento”.
Futuro do drive-in
Assim, se há demanda, se as pessoas estão aproveitando e se há até mesmo opções para várias classes sociais, idades e gêneros, o que faz com que o cinema drive-in já tenha tido seu fim determinado? Afinal, todos os entrevistados indicaram que este é um divertimento passageiro, que deve durar só durante o período em que os cinemas tradicionais estão fechados.
“Com a retomada dos eventos presenciais, organizadores vão focar energia em atingir mais pessoas. Os espaços terão uma venda muito maior de ingressos pensando em pessoa física, do que veículos. Portanto, acho que o maior entrave para a continuidade dos drive-ins seja a limitação de pessoas”, contextualiza Tereza Santos, diretora de serviços da Sympla.

Já Malu Andrade, diretora de políticas audiovisuais da Spcine, chama a atenção para outro fator: a falta de acessibilidade. “O principal fator do possível fim do drive-in é a mobilidade. Só pessoas com carro podem frequentar. Você não pode ir com o Uber”, afirma a executiva. “Isso sem falar do preço impeditivo, ainda mais com perda de renda. É um nicho”.
Andrade acha que esse período de experimentações com o drive-in vai trazer mudanças. “Acho que vão sobrar alguns com mais fôlegos. Talvez vire uma experiência diferenciada, mais esporádica”, diz. “No final, isso indica que podemos explorar mais o setor. Mais formatos e ir para mais lugares, sair do centro expandido. Podemos aprender muito com isso”.
Jornalista especializado em cultura, gastronomia e tecnologia, cobrindo essas áreas desde 2015 em veículos como Estadão, UOL, Yahoo e grandes sites. Já participou de júris de festivais e hoje é membro votante da On-line Film Critics Society. Hoje, é editor do Filmelier.
Jornalista especializado em cultura, gastronomia e tecnologia, cobrindo essas áreas desde 2015 em veículos como Estadão, UOL, Yahoo e grandes sites. Já participou de júris de festivais e hoje é membro votante da On-line Film Critics Society. Hoje, é editor do Filmelier.
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