Apresentando Nate

‘Apresentando Nate’, o primeiro protagonista adolescente gay do Disney+

Após um mês polêmico para a Disney, envolvendo uma nova legislação na Flórida, a plataforma de streaming do grupo estreia um filme que traz uma bela mensagem de amor e aceitação

1 de abril de 2022 19:49
- Atualizado em 5 de abril de 2022 16:11

É provável que, nas últimas semanas, você tenha visto na imprensa brasileira alguma notícia sobre a chamada “‘Don’t Say Gay’ Bill” (Lei “Não Diga Gay”, em tradução literal), sancionada no estado da Flórida na última semana. Uma polêmica que acabou envolvendo The Walt Disney Company, principalmente na figura de seu CEO, Bob Chapek, e movimentou acalorados posicionamentos de empregados das mais diversas divisões do grupo. Em meio à isso tudo, o Disney+ lança nesta sexta (1º) o filme exclusivo ‘Apresentando Nate‘.

Qual a relação entre esses dois assuntos? É que o protagonista do longa, Nate Parker (interpretado por Rueby Wood), é gay. E ele tem 13 anos, está na 7ª série.

Apresentando Nate traz uma história açucarada sobre amor, aceitação e vocação (crédito: divulgação / Disney)
‘Apresentando Nate’ traz uma história açucarada sobre amor, aceitação e vocação (crédito: divulgação / Disney)

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Vale, antes, um contexto sobre a lei: a legislação, já em vigor e chamada oficialmente de “Parental Rights in Education” (Direitos Parentais na Educação), proíbe escolas públicas (adotadas lá pela maioria da população) de encorajar a discussão sobre orientação sexual ou identidade de gênero na sala de aula, entre o jardim de infância à terceira série do que seria o nosso Ensino Fundamental. Além disso, permite que pais e professores processem qualquer escola onde essa determinação não for seguida.

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A lei dividiu a população no estado. Entre os defensores, alega-se que a determinação preservaria uma faixa etária onde assuntos do tipo não deveriam ser discutidos, e que não estigmatizaria a comunidade LGBTQIA+ – mas que combateria a pedofilia.

Os opositores alegam que a lei não só vai contra a Primeira Emenda da Constituição (que garante a liberdade de expressão), como favorece um sistema de discriminação no qual já ocorre muito bullying contra os membros dessa comunidade. Na visão deles, a identidade de uma pessoa não deveria ser um assunto politizado, ainda mais com crianças pequenas e vulneráveis.

Porém, o principal ponto sobre a lei é que o seu texto é vago, o que poderia se concretizar em uma verdadeira “caça às bruxas” nas salas de aula, com impactos ainda a serem mensurados.

Em meio à isso, a Disney transformou o assunto em um pesadelo de relações públicas: a empresa, que é a maior empregadora da Flórida e financia campanhas de políticos apoiadores e detratores da lei, foi pressionada a se posicionar.

Para Nate e para todos os jovens, a casa e a escola são os principais núcleos de convivência – e mudar essa dinâmica pode causar um grande impacto (crédito: divulgação / Disney)

Enquanto o ex-CEO do grupo, Bob Iger, promovia um posição política ativa em assuntos assim (como, por exemplo, em um outro caso há alguns sobre direitos individuais na Geórgia), o atual CEO, Bob Chapek, assinou um memorando interno no começo de março marcando uma posição de neutralidade – ainda que defendendo a comunidade LGBTQIA+: “Eu acredito que a melhor forma da nossa companhia trazer mudanças duradouras é por meio do conteúdo inoperacional que produzimos, da cultura acolhedora e das diversas organizações comunitárias que apoiamos”, disse Chapek.

A declaração caiu como uma bomba internamente: na visão de grande parte dos trabalhadores da Disney era dever da empresa, sim, fazer lobby contra a legislação de forma mais contundente. E que, apesar do belo discurso de Chapek, personagens LGBTQIA+ estariam sendo cortados das produções por decisões que não são criativas. Foi só 25 dias depois, depois de muita pressão interna, que a Disney finalmente divulgou uma nota oficial contra a lei.

O assunto, claro, vai longe – e há, ainda, muito a se discutir sobre a evolução da educação e de como lidar na comunidade com temas tão controversos. Porém, voltando a ‘Apresentando Nate’, é a própria Disney (por meio de seus funcionários) que apresenta uma visão doce, talvez inocente, de como lidar com a questão.

O personagem-título é um garoto de 13 anos de Pittsburgh que tem como o grande sonho de vida ser uma estrela dos musicais. De ‘Wicked’ a ‘Amor, Sublime Amor’, Nate Parker domina cada nota, cada cena. A vida, no entanto, não é exatamente um comercial de margarina: há bullying na escola, ele não consegue os papeis que quer e sente que o irmão não o respeita pelo que é. Há, ainda assim, muito amor nessa família – e o garoto sabe lidar com essas questões até que com uma certa maturidade e perseverança.

O protagonista de ‘Apresentando Nate’ não tem medo de quem ele é e do que quer ser, mas busca a compreensão daqueles que ama (crédito: divulgação / Disney)

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Com a ajuda da amiga Libby (Aria Brooks), Nate então foge para Nova York para fazer o teste para a adaptação de ‘Lilo & Stitch’ na Broadway. Lá, entre viralizar no TikTok e dar de cara com uma tia esquecida que queria ser atriz (vivida por Lisa Kudrow, de ‘Friends’), o garoto se mete em uma aventura para fazer a audição que poderá mudar a sua vida.

Nisso, o roteiro vai, aos poucos, introduzindo a sexualidade de Nate. Ele tem 13 anos, e a história respeita isso de forma ímpar. Não se trata de uma descoberta da sexual no sentido estrito do termo, mas sim de quem somos, com o que nos identificamos. Não é sobre beijar o primeiro menino, mas sim de revelar para a melhor amiga (que tem um crush, como dizem, por ele) que a ama como irmã. É, também, sobre o irmão mais velho aceitar Nate do jeito que ele é.

Ok, ‘Apresentando Nate’ traz a aventura de um garoto um pouco mais velho daqueles que serão afetados pela “‘Don’t Say Gay’ Bill”, é verdade. Porém, revela também que acolhimento, carinho e aceitação possuem um impacto maior nas crianças do que um regime fechado, de regras impostas e de medo de ser processado. Não se trata de doutrinação, mas sim de dar espaço para que as pessoas sejam quem elas são, ou quem elas quiserem ser – e isso desde que se entenderem como gente.

A história lembra, aliás, a de ‘Uma Criança Como Jake‘ – com a diferença que o protagonista desse outro filme, o Jake, é mais novo e certamente seria afetado pela nova legislação. Vale assistir ao longa em conjunto antes de ter concepções estabelecidas sobre o debate.

Lisa Kudrow, de ‘Friends’, como a tia que todo mundo gostaria de ter em ‘Apresentando Nate’ (crédito: divulgação / Disney)

No final das contas, tudo é político. A lei da Flórida, na prática, é apenas um trampolim para um político que quer crescer no cenário nacional dos EUA para, quem sabe, ser candidato a presidente. O posicionamento da Disney, na realidade, foi sempre para acalmar seus funcionários enquanto mantém uma base política para aprovar as leis que realmente importam ao Mickey – como aquelas envolvendo seus parques na região de Orlando.

Nenhum dos lados está preocupado verdadeiramente com a saúde mental (e física) das crianças.

Porém, por mais que o memorando de Chapek tenha sido panos quentes e não seja sempre a realidade, é muito bom ver filmes como ‘Apresentando Nate’ finalmente ganhando forma – como uma história envolvente e fraterna para toda a família.

Quem sabe o Disney+ e a Walt Disney Pictures, ainda que sem tanto suporte de seus superiores, consigam fomentar o debate nos lares e a criação de um mundo um pouquinho melhor e mais inclusivo, não é mesmo?

Afinal, precisamos de menos medo e mais amor. E isso ‘Apresentando Nate’ tem de sobra.

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