o divino baggio - destaque

Baggio e Trautmann: Dois heróis improváveis do esporte ganham o streaming

‘O Divino Baggio’ e ‘O Defensor’, filmes que acabam de chegar ao video on demand, nos mostram que o esporte pode render envolventes (e surpreendentes) viradas na vida

31 de maio de 2021 15:45
- Atualizado em 1 de junho de 2021 10:42

O que não falta, no esporte em geral, são histórias de superação. O futebol, mais especificamente, gosta também de nos apresentar contos ainda mais surpreendentes. Afinal, no esporte bretão há a figura do herói improvável – aquele personagem que, por ironia do destino, é colocado no lugar certo e na hora certa. Ou, talvez, no lugar errado e na hora errada, dependendo da perspectiva.

Nas últimas duas semanas, curiosamente, dois filmes sobre a vida desses heróis improváveis foram lançados no streaming: ‘O Defensor: A História de Bert Trautmann‘ e ‘O Divino Baggio‘ – ambos, respectivamente, cinebiografias sobre os ex-jogadores Bert Trautmann e Roberto Baggio.

O nome do italiano, aliás, é o mais vivo na mente dos brasileiros: ele é o nosso herói improvável. Foi Baggio que, na disputa de pênaltis da final da Copa do Mundo de 1994, nos EUA, chutou a bola para longe e concretizou o tetracampeonato canarinho. Uma imagem registrada para sempre na memória nacional, junto com a cara de frustração do italiano, a vibração de Galvão Bueno e Pelé e, claro, a comemoração dos jogadores brasileiros.

Os percalços da vida do italiano são o destaque de O Divino Baggio (Foto: divulgação / Netflix)
Os percalços da vida do italiano são o destaque de ‘O Divino Baggio’ (Foto: divulgação / Netflix)

Além do divino em Baggio

Publicidade

O que ‘O Divino Baggio’, que está disponível na Netflix, faz é trazer mais camadas para a pessoa Roberto – ou Roby, como é chamado pelos mais próximos. Com apreço quase documental pelos fatos, o longa reconstrói pontos importantes da carreira dele, vencedor da Bola de Ouro da FIFA em 1993 – sim, naquele dia da final em Pasadena, Califórnia, Roberto Baggio era o melhor jogador do mundo.

Para os fãs de futebol é delicioso ver as preleções antes dos jogos, os desentendimentos com os técnicos, a reconstrução de época quase que perfeita no material esportivo e nos jogadores – ainda que tenham pecado nos atletas da nossa Seleção. Mas o filme entrega mais do que isso.

Curiosamente, o drama italiano não mostra tanto os momentos de alegria dentro de campo. Não vemos conquistas de Baggio como os dois títulos italianos ou a Copa da UEFA. A Bola de Ouro é retratada rapidamente. Bom, tudo isso você descobre no artigo sobre o ex-atacante na Wikipédia, não é mesmo?

Mais do que “divino”, como foi apelidado por seus compatriotas, a história traz o humano de Roberto Baggio. Temos o começo de carreira na terceira divisão e o desejo de ser campeão mundial pela Azzura, a seleção italiana.

Há, principalmente, espaço para a relação conturbada com o pai, a busca no budismo para superar as contusões e as dificuldades do fim de careira. A carga emotiva é tão grande que, ao ver Roby finalmente batendo o pênalti da final de 94, a cena é resinificada. Antes de alegria, vira a tristeza para o espectador – mesmo que ele seja brasileiro.

Tudo isso é amplificado pela atuação do protagonista, o novato ator Andrea Arcangeli. Com a caracterização e a atuação que se aproxima da figura real, é como se tivéssemos o próprio Roberto Baggio ali em cena – isso sem cair na vala comum da imitação de uma figura real.

Somando tudo isso temos um dos jogadores mais amados da história do futebol italiano – mesmo sem ter conquistado uma Champions League ou uma Copa do Mundo. Um jogador eternizado em uma imagem que será, para sempre, repetida no Brasil. Um herói improvável de dois mundos, ainda que por motivos diferentes.

A história, por outro lado, poderia ser mais longa na tela. Com cerca de 1h30, o filme se apressa em certos momentos, o que pode distanciar alguns espectadores ou tirar o contexto de parte da história. Poderia ter 2h de duração, facilmente.

Trautmann, o nazista que virou herói inglês

Já ‘O Defensor: A História de Bert Trautmann’, lançado recentemente nas plataformas de streaming para aluguel e compra como NOW e Google Play, vai por outro caminho. A cinebiografia produzida na Inglaterra reconta a história do ex-goleiro do Manchester City, que defendeu o time do final dos anos 1940 até meados da década de 1960.

Figura pouco comentada até mesmo no cenário esportivo brasileiro, Trautmann é reconhecido como um dos maiores goleiros da história. Há, no entanto, um detalhe muito importante sobre o alemão: ele foi soldado nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Preso pelos ingleses no conflito, acabou ficando de vez no Reino Unido.

David Kross, de Cavalo de Guerra, interpreta Trautmann no filme sobre o ex-goleiro alemão (Foto: divulgação / Synapse Distribution)
David Kross, de ‘Cavalo de Guerra’, interpreta Trautmann no filme sobre o ex-goleiro alemão (Foto: divulgação / Synapse Distribution)

O filme conta a trajetória daquele alemão arrependido pelos crimes de guerra e que, por meio do futebol, buscou se encaixar naqueles novos tempos. É aí que a situação do herói improvável surge novamente.

Trautmann se transferiu para o Manchester City em 1949, momento no qual ainda havia muito ressentimento em relação aos alemães, situação agravada ainda mais pelo passado do goleiro. Não se poderia suportar, naquele momento, um ex-nazista vestindo o azul claro e o branco do time de Manchester.

Porém, a capacidade técnica de Trautmann se mostrou maior do que qualquer ressentimento e desconfiança. Como o filme retrata, ele, em uma partida heroica, ajudou o seu clube a vencer a FA Cup (a segunda mais importante competição inglesa) em 1955.

Isso em uma época na qual o Manchester City amargava um jejum de 18 anos sem títulos de expressão, com uma passagem pela segunda divisão nesse período.

De certa forma, por meio do futebol, aquela união entre ingleses e um alemão ajudou a romper as barreiras criadas pela guerra, reaproximando Reino Unido e Alemanha.

Tudo isso, em ‘O Defensor’, é relatado com um apuro histórico, seja nos uniformes, estádios ou até mesmo na forma como as coisas eram feitas. No entanto, o longa acaba sendo mais truncado que ‘O Divino Baggio’ – além de ser mais difícil de se relacionar com uma história que, hoje, soa tão distante para nós.

Há, também, uma necessidade de se seguir as já batidas fórmulas de dramas do tipo, inclusive investindo em uma subtrama de romance – o que, ao menos, ajuda a ampliar o o público da história.

De qualquer forma, a joia é, por meio desses filmes, saber que podemos superar qualquer receio e dor – nos unindo em um objetivo em comum. Nem que esse objetivo seja levantar a taça.

Que outros Baggios e Trautmanns continuem nos inspirando, seja nos campos pelo mundo, seja nos filmes.

Siga o Filmelier no FacebookTwitterInstagram e TikTok.