Claquete

Com coronavírus, produtoras enfrentam intensificação da crise

Profissionais do audiovisual buscam saídas em crise que se prolonga há dois anos e que se intensificou com a pandemia de covid-19

Matheus Mans   |  
16 de abril de 2020 11:15
- Atualizado em 17 de junho de 2020 12:22

Antes do novo coronavírus, as produtoras brasileiras já enfrentavam uma realidade adversa. Ainda que a pandemia tenha paralisado de vez as atividades do setor, profissionais da indústria do audiovisual já vinham encontrando dificuldades em dialogar com governos e obter financiamento.

Agora, com a quarentena e um cenário imprevisível pela frente, produtores, diretores, atores e técnicos da indústria pedem por definições. Afinal, o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) conta com uma reserva de cerca de R$ 700 milhões, podendo financiar projetos de filmes e séries já aprovados.

Dessa forma, se o dinheiro fosse direcionado para as produtoras, adiantamentos poderiam resolver a situação de profissionais do setor já que a maioria trabalha apenas com projetos e não conta com uma renda fixa. Neste momento, portanto, buscam novas alternativas para faturar.

Regina Duarte é a atual Secretária de Cultura (Crédito: Palácio do Planalto/Flickr)

A Secretaria (e ex-Ministério) de Cultura diz, enquanto isso, que esse dinheiro do FSA não adiantaria agora, já que as filmagens estão paralisadas em todo País.

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“O setor do audiovisual é um dos poucos que não precisa de verba emergencial. Já temos o dinheiro. Só precisam liberar”, explica Leonardo Edde, produtor de cinema e Presidente do Sindicato da Indústria Audiovisual (SICAV). “O Estado está querendo gerir nossas empresas”.

“Já temos o dinheiro.
Só precisam liberar”

A definição, porém, parece estar longe de acontecer. Com a pandemia de coronavírus, as discussões acerca do Fundo Setorial do Audiovisual se tornaram mais distantes. A possibilidade de reunir o comitê, que faz essa destinação de recursos, também não parece ser uma realidade plausível.

“A Cultura está no limbo. Nomearam só secretários que são uns bostas. E, ainda por cima, não sabemos se a Secretaria é do Ministério da Cidadania ou da porra do Ministério do Turismo”, reclama a produtora Mariza Leão. “Precisamos de uma solução. Sentar a bunda na cadeira e trabalhar”.

Nas produtoras

Enquanto a liberação do fundo não é definida, as produtoras trabalham como podem. Geralmente, desenvolvendo ou finalizando projetos. Na TvZERO, responsável por longas como ‘Benzinho‘ e ‘Gabriel e a Montanha‘, os trabalhos estão focados unicamente na pós-produção e desenvolvimento.

“Terminamos as filmagens do novo longa-metragem do Sérgio Goldenberg justamente antes do Carnaval. Agora estamos fazendo a montagem em home office”, conta Leonardo Ribeiro, produtor executivo da TvZERO. “Além disso, finalizamos dois documentários que vão pro É Tudo Verdade“.

De resto, as atividades da produtora estão em suspenso. A filmagem de uma nova série, no segundo semestre, também já foi descartada pela empresa.

“Estamos tentando
não demitir ninguém”

“Estamos tentando não demitir ninguém, honrar nossos pagamentos. Mas se durar até o final do ano, não sei como vai ser”, diz o produtor. “Estamos parados, só desenvolvendo roteiros e finalizando produções anteriores. Como vai ser isso daqui pra frente? Essa indefinição completa que é ruim”.

Na Maria Farinha Filmes, também houve a necessidade de parar produções — no caso, da segunda temporada da série ‘Aruanas’ e do documentário ‘Longevidades’, ainda com título provisório. No entanto, a produtora diz estar mais estável, pois estão com as principais produções do ano em curso.

Produção da série ‘Aruanas’ foi paralisada (Crédito: Divulgação/Maria Farinha)

“Estamos reorganizando os lançamentos do ano”, diz a CEO Mariana Oliva. “Nosso trabalho terá outro ritmo. Estamos em um momento de lidar com hierarquização de desafios e que precisamos priorizar a defesa da vida, que inclui a integridade física, mental e financeira das nossas equipes”.

Busca de soluções

No final da cadeia de produções audiovisuais, porém, está aquele profissional que não consegue acessar fundos e tampouco conta com boas opções neste momento. Afinal, câmeras, técnicos, atores e produtores trabalham em projetos, sem vínculos. Nesta paralisação, não há saídas.

Por enquanto, a única ajuda efetiva veio de uma entidade privada. A Netflix criou um fundo de amparo global, de US$ 100 milhões, para auxiliar os trabalhadores liberais do audiovisual. No caso do Brasil, a ajuda será de R$ 5 milhões. Um salário mínimo para cerca de 5 mil profissionais.

Enquanto novas linhas emergenciais não chegam, os profissionais se viram como podem. O cineasta Thales Corrêa, por exemplo, fez uma aposta ousada com seu novo filme, ‘Nos Becos de São Francisco’. Foi lançado direto no digital. Primeiramente, de forma gratuita. Agora, em video on demand.

‘Nos Becos de São Francisco’ foi direto para o digital (Crédito: Divulgação/Thales Corrêa)

Segundo ele, o cinema deve ganhar ainda mais força no digital. “O mercado de entretenimento já estava bem consolidado nesse sentido”, diz o cineasta. “Cinema digital é sinônimo de pluralidade, de democracia do acesso e de criação. Esse é o papel da tecnologia e temos sempre que nos adaptar”.

Porém, nem todo mundo vê a situação assim. ‘Solteira Quase Surtando’ saiu de cartaz no início da pandemia. Ficou apenas alguns dias nos cinemas. Gui Agustini, ator do longa, conta que “ficou frustrado”. “Foi muito triste ver o nosso filme, depois de quatro anos, coincidir com esta pandemia”, disse.

Por fim, Carolla Parmejano, também atriz do longa-metragem, ressalta o lado positivo dessa situação. E acha que, no final das contas, o audiovisual pode sair mais forte. “Essa quarentena está levando todo mundo a ver TV, show, série, cinema, tudo de casa. Como artista, o show tem que continuar”.