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‘Cry Macho’ é o testamento de Clint Eastwood

Filme é a reflexão de toda uma carreira e se afirma como o trabalho mais íntimo do diretor

17 de setembro de 2021 18:48
- Atualizado em 22 de setembro de 2021 11:15

O mais recente trabalho de Clint Eastwood, ‘Cry Macho: O Caminho para Redenção’, chegou aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 16. No filme, no qual também é o diretor, Eastwood interpreta um caubói de um passado de sucesso em rodeios, mas que hoje amarga o fracasso. Por isso, o personagem aceita o emprego para escoltar um jovem (Eduardo Minett) para casa, saindo do México e indo para o Estudos Unidos. Durante a jornada, o improvável acontece e o adolescente cria uma amizade com o caubói.

Aos 91 anos, o diretor e ator em atividade desde meados da década de 1950 afirma que não pretende se aposentar, pois em suas próprias palavras “não teria nada para fazer”. Porém, mesmo que esse não seja o fim, ‘Cry Macho’ funciona muito bem como uma carta-testamento deste grande nome do cinema.

Cry Macho é estrelado, dirigido e produzido por Clint Eastwood (Crédito: Divulgação/Warner Bros. Pictures)
‘Cry Macho’ é estrelado, dirigido e produzido por Clint Eastwood (Crédito: Divulgação/Warner Bros. Pictures)

O ator ganhou muito destaque ao protagonizar a Trilogia dos Dólares, clássicos de faroeste com direção de Sergio Leone. No começo de 1970, Eastwood os primeiros passados como diretor, estreando com um suspense psicológico, ‘Perversa Paixão’(1971). Com o passar dos anos, se distanciou um pouco da carreira de ator, dirigindo cada vez mais filmes e focando em personagens mais específicos, muitas vezes em seus próprios longas.

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Consolidando uma vasta filmografia, Clint Eastwood se provou um cineasta extremamente prolífico e entre os maiores da atualidade, coletando oito indicações ao Oscar, além de duas vitórias por Melhor Filme e Melhor Diretor, com ‘Os Imperdoáveis’ (1992) e ‘Menina de Ouro’ (2004).

A desilusão do sonho americano

Não é segredo que Clint Eastwood é ligado ao Partido Republicano dos EUA. Como ator, sempre escolheu seus trabalhos alinhados com sua ideologia política e recusou inclusive grandes trabalhos em função disso, como por exemplo o Capitão Willard de ‘Apocalypse Now’ (1979), que acabou sendo interpretado por Martin Sheen. 

Existe, porém, uma progressão, por mais que sutil, muito significativa em sua filmografia. De personagens idealizados e heróicos em uma ótica patriota e narrativas movidas pela dicotomia entre certo e errado. Pouco a pouco as histórias do cineasta passaram a ter mais nuances em seu desenvolvimento, temas mais complexos e questionadores. 

O primeiro grande exemplo é o já citado ‘Os Imperdoáveis’, de 1992. Depois de anos atuando e dirigindo faroestes bang-bang, seu mais recente filme conta uma narrativa introspectiva e crua, que despe a figura do cowboy heróico e traz consigo arrependimento e amarguras de uma vida implacável e inconsequente. É muito emblemático que o próprio Clint Eastwood seja o protagonista, um dos rostos mais famosos do gênero em um papel tão subversivo.

Clint Eastwood e Hilary Swank em 'Menina de Ouro', ambos ganharam Oscar pelo filme, ele como diretor e ela como atriz (Crédito: Divulgação/Europa Filmes)
Clint Eastwood e Hilary Swank em ‘Menina de Ouro’, ambos ganharam Oscar pelo filme, ele como diretor e ela como atriz (Crédito: Divulgação/Europa Filmes)

Temáticas sócio-políticas passam a ter um peso importante na carreira dele e por muitas vezes com uma tendência que soa mais democrática do que se esperaria. Ainda que seguindo uma linha conservadora, Eastwood passa a questionar pilares que fundamentam a imagem do sonho americano.

Em ‘A Pontes de Madison’ (1995) temos uma dona de casa que encontra o amor verdadeiro fora do casamento, que percebe que outra mulher vista com maus olhos pela cidade por ser infiel é a pessoa mais aberta e acolhedora da região. Elas se tornam amigas sem julgamentos.

Já ‘Entre Meninos e Lobos’ (2003) coloca em cheque o desejo punitivista de justiça pelas próprias mãos. ‘Menina de Ouro’ trata com muito cuidado e sensibilidade sobre eutanásia, oferecendo uma discussão ponderada e honesta sobre o direito de vida e morte. ‘Gran Torino’ (2008) é sobre um veterano de guerra conservador e preconceituoso percebendo que seus ideais não pertencem mais ao mundo que ele se encontra.

‘Sully: O Herói do Rio Hudson’ (2016) e ‘O Caso Richard Jewell’ (2019) tocam na discussão de como a mídia cria heróis e não poupa esforços para desacreditá-los. ’Cartas de Iwo Jima’ (2006) e ‘A Conquista da Honra’ (2006) criam uma reflexão aprofundada para a brutalidade da guerra, sem oferecer uma visão parcial e enviesada. A lista continua e o diretor sempre encontra lugar para contestar, direta ou indiretamente, os valores da sociedade norte-americana.

O caminho para a redenção e a busca por si mesmo

Chegamos então ao seu mais novo filme, ‘Cry Macho’, e o Clint Eastwood que encontramos aqui é o reflexo de toda sua carreira. Como citamos acima, o longa é sobre um caubói outrora de muito sucesso e agora, esquecido pelo tempo que recebe um pedido para resgatar Rafa, um garoto que está no México, e trazê-lo de volta ao seu pai. 

Alguns elementos remetem a momentos anteriores de sua carreira, como a jornada de carro pelo México, presente em ‘A Mula‘ (2018), ou a dinâmica entre o velho e um garoto problemático de ‘Gran Torino’ (2008) – ainda que aqui a figura mais velha seja bem menos amargurada e preconceituosa. Nos três casos o roteiro é assinado por Nick Schenk, o que justifica as semelhanças.

Clint Eastwood e Eduardo Minett em Cry Macho (Crédito: Divulgação/Warner Bros. Pictures)
Clint Eastwood e Eduardo Minett em ‘Cry Macho’ (Crédito: Divulgação/Warner Bros. Pictures)

Em ‘Cry Macho’ porém, o desenrolar da história se dá de uma forma um pouco diferente. Clint Eastwood, um diretor que sempre trabalhou com os moldes da narrativa clássica de Hollywood, de certa maneira abdica o formalismo narrativo e abandona o naturalismo no roteiro. Inicialmente as coisas acontecem simplesmente porque precisam, sem muita necessidade de justificativa, causando um estranhamento inicial. 

Com o desenrolar é que entendemos onde o filme quer chegar. A trama não busca ser uma aventura focando no resgate, isto é apenas pano de fundo – que dispensa tantas explicações e motivos. Aqui o cineasta está interessado em explorar seu personagem em um universo particular, que brilha com as pequenas interações, com o mundano e corriqueiro. O filme é muito mais um melodrama focado nas relações. 

O protagonista tem sua carreira marcada por um grave acidente e uma grande perda, deixado-o ao ostracismo. Em sua jornada encontra no cotidiano um novo propósito e um lugar para si. Ao lado de seu coadjuvante, ele enxerga o futuro, mas preza que o garoto siga seu caminho sozinho e faça suas próprias escolhas.

É um filme sobre autoreflexão e aceitação, é uma despedida do que passou e um aceno ao que está por vir. Dito isso, é extremamente emblemática a escolha que o personagem faz no fim de sua trajetória.

Mesmo que Clint Eastwood ainda venha a realizar mais trabalhos, uma coisa é certa: independente do que faça daqui para frente, ‘Cry Macho: O Caminho para Redenção’ funciona como uma reflexão direta sobre sua carreira e a encerra formalmente com ponderação, e humildade.

Daqui para frente, o que tivermos de trabalhos dele pode ser entendido como um epílogo.

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