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‘Ela Disse’ mostra bastidores do caso Weinstein e deixa gosto amargo na boca

Apesar de todos os acertos em esmiuçar a história de Harvey Weinstein, falta de amplificação e Brad Pitt nos créditos enfraquecem ‘Ela Disse’

Matheus Mans   |  
7 de dezembro de 2022 19:21
- Atualizado em 8 de dezembro de 2022 14:31

Megan Twohey e Jodi Kantor. Você pode não conhecer esses dois nomes, mas com certeza sabe detalhes de uma investigação que elas começaram nos bastidores do The New York Times e terminaram revelando detalhes sobre os abusos cometidos pelo produtor Harvey Weinstein, ex-chefão da Miramax. Agora, essa história eclipsada pelos próprios absurdos de Weinstein ganha os holofotes com o filme ‘Ela Disse‘, estreia dos cinemas desta quinta-feira, 8.

Dirigido por Maria Schrader (‘O Homem Ideal’, ‘Nada Ortodoxa’), o longa-metragem mergulha na vida de Twohey (Carey Mulligan) e Kantor (Zoe Kazan) exatamente no período em que elas estão investigando as primeiras denúncias que surgem à luz do dia sobre o mandachuva de Hollywood. É a essência do que já foi visto em ‘Todos os Homens do Presidente‘ e ‘Spotlight‘, onde uma investigação de alguns jornalistas surge como potencial de balançar o mundo.

Roteiro de ‘Ela Disse’ recai na mesmice, ainda que tenha força

Em termos narrativos, Schrader encontra pouco espaço para inovar. Presa ao livro que originou toda a história, escrito pela própria dupla de jornalistas, ela fica naquela estrutura tradicional das histórias sobre jornalistas investigando: encontram fontes, tentam convencer essas pessoas em falar com a reportagem, encontram barreiras. É claro que não havia meios de fugir muito disso — afinal, é a história real, como é de fato. Mas fica a sensação de mesmice, repetição.

Cena do filme Ela Disse
Mulligan e Kazan são as protagonistas do filme (Crédito: Universal Pictures)

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Por exemplo: durante os seus dois primeiros atos, ‘Ela Disse’ basicamente apenas fica andando em círculos, com as duas personagens encontrando meios de colocar a reportagem em pé. Falam com uma fonte, a porta bate na cara delas ao tentar falar com outra pessoa, depois se frustram e o ciclo começa todo de novo. É como se o filme estivesse o tempo todo perseguindo o próprio rabo. Algo que não se vê em ‘Spotlight’, por exemplo, por ter mais personagens.

Schrader, porém, consegue escapar dessa estrutura um tanto quanto óbvia ao trazer relances da vida pessoas dessas duas personagens. Enquanto elas estão na redação de jornal lutando para achar o fio da meada da história, suas casas vivem. Twohey enfrenta os dramas da primeira gravidez e da depressão pós-parto. Kantor, enquanto isso, já tem duas filhas, mas acaba tão absorvida pelas atividades no jornal e do caso Weinstein que se esquece de viver o seu dia a dia.

Esses lampejos de humanidade das personagens quebram um pouco do padrão e acabam enriquecendo uma trama que, apesar de tratar de um caso de cinco anos atrás, parece envelhecida de tanto que já foi usada nos cinemas por aí.

Força do caso Weinstein é a alma do filme (apesar dos créditos)

Apesar dessa estrutura repetitiva e banal, ‘Ela Disse’ encontra sua força central na própria história que está contando, nos detalhes do caso Harvey Weinstein. É poderoso, e muito forte, saber como os detalhes dessa história que abalaram o mundo do cinema aconteceram. Chega a arrepiar ver os momentos em que a história do ex-chefão vai sendo contada e o baralho de cartas do produtor, sempre sob os cuidados violentos de Weinstein, começa a desmoronar.

Isso alavanca o filme como um todo. Independente da estrutura banal, ‘Ela Disse’ é essencialmente verdadeiro e potente enquanto retrato de uma estrutura de poder que se perpetua. Não é tão impactante quando ‘A Assistente’, por exemplo, quando vemos esse poder se abatendo em cima do lado mais fraco da corrente. Mas, ainda assim, é duro deixar a raiva e o rancor de lado conforme a história vai se revelando, ainda mais por se estender por décadas.

E apesar de ser o ponto principal do filme, e que leva a produção para outro nível, ‘Ela Disse’ ainda apresenta dois problemas. O primeiro é a ausência de outros nomes fortes de Hollywood que davam sustentação para os crimes cometidos por Weinstein. O filme acertadamente se concentra em apenas um dos criminosos, mas poderia (e deveria) ter mostrado que esse tipo de crime não pode ser cometido sozinho. Outras pessoas estavam envolvidas.

O pior, porém, é quando os créditos sobem na tela. Depois de tudo que o filme mostra, com mulheres lutando para transformar não só Hollywood como a sociedade como um todo, ‘Ela Disse’ exibe a assinatura de Brad Pitt como um dos produtores. O problema? Recentemente, ele foi acusado de agredir a ex-esposa Angelina Jolie. Logo vem na cabeça: Weinstein foi preso, mas a roda e os abusos continuam. E vem a sensação amarga de que nada vai parar isso.

Onde assistir a ‘Ela Disse’?

O novo filme sobre o caso Harvey Weinstein pode ser assistido nos cinemas, ainda sem data de estreia no streaming.

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