Estúdio e microfone

Em meio à pandemia, estúdios de dublagem buscam formas para continuar trabalhando

Sem uma decisão final do sindicato da categoria, dubladores se alternam entre gravações remotas e estúdios que investem em protocolos de higene

Matheus Mans   |  
21 de maio de 2020 10:02
- Atualizado em 17 de junho de 2020 12:20

No início da pandemia, um aviso na Netflix chamava a atenção. A comédia besteirol ‘Coffee & Kareem’ chegou ao catálogo sem opção de áudio dublado em português. Um aviso, fixado na tela de exibição do filme, indicava que a dublagem não pode ser feita por conta da “segurança dos dubladores”. Agora, dois meses depois, os profissionais do setor buscam alternativas.

Afinal, ainda que os cinemas estejam de portas fechadas, serviços de streaming, séries e até mesmo jogos para videogames continuam com lançamentos programados e com exigência de dublagem. Inclusive, não é só a Netflix que está lançado conteúdos sem a opção de áudio dublado em português: a medida também atingiu distribuidores que trabalham em serviços como NOW, Apple TV e Google Play.

Assim, tentando evitar a perda de trabalho e buscando manter a segurança, dubladores profissionais começam a operar direto de estúdios em suas casas.

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É o caso de Wendel Bezerra, responsável por vozes de atores como Edward Norton, Robert Pattinson, Brendan Fraser e Leonardo DiCaprio – além de personagens como Bob Esponja e Goku. Desde o início da pandemia, o dublador começou a se adaptar da melhor maneira possível. Em estúdio montado em sua casa, ele já dá sequências em trabalhos urgentes e faz tudo remotamente, com cada um no seu canto.

Bezerra está gravando direto de sua casa (Crédito: Divulgação / UniDub)

“Com o isolamento social, a princípio, todos estúdios e dubladores pararam. Mas à medida que os distribuidores começaram a cobrar [pelas dublagens], o mercado nacional começou a achar soluções remotas de gravação”, conta Wendel em entrevista ao Filmelier. “O técnico fica em um lugar, o diretor em outro, o dublador em outro. Cada um na sua casa. Tem dado certo”.

Como exemplo, Bezerra conta que dublou o protagonista da comédia ‘Um Crime para Dois’, da Netflix, na UniDub — o estúdio no qual Bezerra é CEO. E funcionou. “Eu fiquei presencialmente na UniDub, mas todo o resto do elenco ficou em suas casas, gravando remotamente”, conta o ator. “Tem problemas de internet, som ambiente, diferenças técnicas. Mas deu certo”.

Impasse no mercado

Assim, com essa solução de última hora, Bezerra chama a atenção para alguns percalços no caminho. Principalmente, o dublador acredita que o mercado brasileiro demorou demais para encontrar uma solução. Afinal, grupos de atores pediam, através do sindicato da categoria, que não fosse permitida a dublagem remota. Para esses profissionais, apenas em estúdio.

“A meu ver, essa é uma visão desalinhada com o mundo, com as soluções digitais”, opina Bezerra. “E é uma visão que não pensa nos outros profissionais do mercado de dublagem que vivem, se alimentam, criam seus filhos com a dublagem, nem com o público que esperava por seus produtos dublados. Além do prejuízo enorme com essa paralisação”.

Com esse impasse, Wendel ainda conta que perdeu trabalhos que já estavam certos com a UniDub, já até mesmo traduzidos pelo estúdio.

‘Um Crime para Dois’ foi dublado remotamente (Crédito: Divulgação / Netflix)

Mas a decisão de Bezerra gravar remotamente não se estende por todas empresas. Principalmente no Rio de Janeiro, estúdios continuaram funcionando. A Delart, por exemplo, reabriu em 27 de abril. Apesar das insistentes tentativas do Filmelier, a empresa não respondeu aos pedidos de entrevista. Mas ao site Notícias da TV, o estúdio confirmou que as coisas mudaram no setor e custos aumentaram com a preocupação com higiene.

“A lista de itens comprados inclui álcool gel 70%, máscaras, toucas, luvas, sabonetes bactericidas, sprays de álcool 70% para microfones e equipamentos, protetores de sapatos, capas descartáveis, protetores de fone, purificadores”, lista Fabio Nunes, gerente de produção da empresa, ao site. “O tempo para a finalização da dublagem aumentou em cerca de 50%”.

Ao ser questionado sobre a dublagem remota, o executivo da Delart diz que não há preparo. “A maioria dos dubladores não possui equipamentos e estrutura mínima para dublar de casa. Praticamente 80% dos dubladores não teriam essa capacidade. Os próprios clientes sabem disso e rejeitam, em sua grande maioria, a dublagem caseira”, afirma Fabio Nunes ao site.

Estúdio “home office”: a estratégia dividiu o mercado (Crédito: Flickr / Celsim Junior)

Futuro dos dubladores

Apesar da resistência de alguns estúdios, como a Delart, a jornada para um trabalho individual e à distância de dublagem parece ser certeira. Afinal, mesmo que o contágio desacelere, atores e dubladores terão que ter novas regras de contato. Os estúdios, por sua vez, terão que estabelecer protocolos de trabalho como algumas produtoras já estão fazendo ao redor do mundo.

Os próprios estúdios e distribuidoras demonstram preocupação com a categoria. A Netflix, em nota, explicou ao Filmelier o atraso na dublagem de ‘Coffee & Kareem’ e de outros títulos. Muitos estúdios de dublagem estão fechados devido à covid-19, o que resulta em um atraso para algumas dublagens em alguns de nossos novos títulos. Nossa prioridade é a saúde e a segurança de todos os envolvidos”, afirmou o serviços de streaming.

Wendel Bezerra chama a atenção para a necessidade um entendimento. “O presencial é imprescindível. Mas às vezes teremos que trabalhar remotamente em função de necessidades especiais, mantendo o público cativo com nossos trabalhos”, afirma o ator. E alerta: “os que encaram a dublagem como profissão, precisam investir em equipamentos de home studio. Precisamos estar preparados pra gravar sempre que possível”.

Crédito da imagem de destaque: Flickr / Audio Mix House.