Hollywood

Atenção: Hollywood pode entrar em greve na próxima semana

Entenda tudo o que está acontecendo, em um movimento que pode parar a produção de filmes e séries nos EUA a partir da próxima segunda, 18

13 de outubro de 2021 17:10
- Atualizado em 15 de outubro de 2021 09:55

Depois dos fechamentos causados pelas metidas de combate à covid-19, Hollywood pode ter um grande baque nos próximos dias. É que o sindicato que representa os técnicos e artesões que trabalham em cinema avisou que, se não houver um acordo com os estúdios nos próximos dias, seus membros entrarão em greve, efetivamente paralisando produções em todos os Estados Unidos.

Com cerca de 150 mil membros a organização – que atende pelo nome oficial de Aliança Internacional de Funcionários de Palco Teatral, Técnicos de Cinema, Artistas e Artesões Aliados dos Estados Unidos, seus Territórios e Canadá, da sigla IATSE em inglês – pode ter um impacto grande na indústria cultural norte-americana com uma paralização, já que todas as filmagens para filmes e séries dependem desses profissionais.

A última vez que Hollywood enfrentou uma greve de grandes proporções foi entre 2007 e 2008, com os cerca de três meses de paralização dos membros do Sindicato dos Roteiristas. Na época, diversas produções foram afetadas.

Manifestação dos roteiristas durante a greve de 2007 (Crédito: Flickr / Amber Baldet / John Edward)
Manifestação dos roteiristas durante a greve de 2007 (Crédito: Flickr / Amber Baldet / John Edward)

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O que está acontecendo?

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O IATSE é um um dos sindicatos mais antigos na América do Norte, tendo sido criado em 1893 para representar os contrarregras do teatro. Desde então, expandiu a sua atuação, abraçando profissionais das indústria de cinema e televisão, de shows musicais, feiras e muito mais.

Além de profissionais mais técnicos, como eletricistas, engenheiros de áudio e operadores de iluminação e câmera, a organização representa gerentes de palco, editores e até coordenadores de roteiro e diretores de arte. São trabalhadores nos mais diversos pontos da produção de um produto audiovisual.

O coordenador de roteiro, por exemplo, é o responsável por cuidar de cada versão do roteiro, revisando erros, fazendo anotações, cuidando da continuidade e até se está tudo ok com o departamento jurídico. Além disso, faz a ponte entre a sala dos roteiristas e quem está no set, efetivamente gravando.

Esses profissionais, principalmente os de filmes e séries, nunca tiveram vida fácil. Em 1997, o operador de câmera Brent Lon Hershman, que trabalhou em filmes como ‘Proposta Indecente’ e ‘Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida’, voltava para casa após 19 horas de trabalho no set de ‘Pleasantville: A Vida em Preto e Branco’ quando sofreu um acidente de carro e morreu. Ele tinha apenas 35 anos, em uma história contada no documentário ‘Who Needs Sleep?‘.

 Brent Lon Hershman, ao lado da esposa e das filhas: ele morreu em um acidente de carro após trabalhar 19 horas por dia (Crédito: reprodução / IMDb)
Brent Lon Hershman, ao lado da esposa e das filhas: ele morreu em um acidente de carro após trabalhar 19 horas por dia (Crédito: reprodução / IMDb)

Nos últimos anos, os membros da IATSE se viram ainda mais pressionados com a chegada do streaming. O volume de produções cresceu, porém o tempo de produção diminuiu, junto com o advento das temporadas menores.

Isso criou um ambiente onde o ritmo de filmagens é frenético, com muitas horas de trabalho, enquanto os membros do IATSE se vêm obrigados a trocar de emprego em espaços de tempo cada vez menores. Se antes ficavam nove, fez meses gravando uma série para TV aberta, hoje ficam três em uma produção da Netflix, por exemplo.

Por isso, o sindicato começou a pleitear mudanças nessa relação com os produtores. Entre as demandas, estão um maior salário mínimo, um período mínimo de pausa entre um dia de trabalho e o outro, o fim da classificação de streaming como “nova mídia” (o que permite salários menores), e que os estúdios parem de pular pausas ou refeições.

Tentativa de acordo

Com essas demandas, a IATSE foi em busca de um acordo com a Aliança dos Produtores de Cinema e Televisão (AMPTP, da sigla em inglês), que representa estúdios como Paramount, Sony, Warner Bros., Walt Disney, Universal, a Netflix e canais abertos como ABC e CBS.

Não conseguiram um acordo para os 60 mil profissionais de cinema e TV que representam.

A partir daí, a aliança dos trabalhadores botou em pauta a votação para que os membros autorizassem uma greve, necessitando de mais de 75% de “sim” para aprovação – o que ocorreu. Dessa forma, o sindicato foi mais uma vez em busca de acordo com o AMPTP, usando a aprovação da greve como barganha.

O famoso Bronson Gate da Paramount Pictures em Hollywood: o estúdio será um dos afetados pela greve (Foto: Renan Martins Frade)
O famoso Bronson Gate da Paramount Pictures em Hollywood: o estúdio será um dos afetados pela greve (Foto: Renan Martins Frade)

O ritmo, no entanto, frustrou os integrantes da IATSE. “Os empregadores repetidamente se recusam a fazer o necessário para se chegar a um acordo justo. Ou eles não reconhecem o que mudou na nossa indústria e entre os nossos membros, ou eles não se importam. Ou ambos”, disse Cathy Repola, uma das diretores executivas da organização, ao Deadline.

O últimato para a greve

É aí que chegamos na notícia desta quarta, 13. A Aliança dos Técnicos e Artesões informou que, até o momento, não houve qualquer acerto – e deu o ultimato final.

“Se um acordo não for feito, os membros da IATSE começarão uma greve nacional à 0h01 de 18 de outubro, horário do Pacífico”, diz a organização em um comunicado. “[Matthew] Loeb [presidente da IATSE] disse que continuará barganhando com os produtores nesta semana e espera chegar a um acordo nos temas principais, como períodos de descanso razoáveis, pausas para alimentação, e um salário que dê condições de vida aos que estão na base da escala salarial”.

“Porém, o ritmo da barganha não reflete nenhum senso de urgência”, diz Loeb no comunicado. “Sem uma data limite, poderia durar para sempre. Nossos membros merecem que suas necessidades básicas sejam discutidas agora.”

Junto, a associação traz também uma contagem regressiva para o início da greve – o que acontece, no momento do fechamento deste texto, daqui quatro dias e meio.

Após o ultimato, a Aliança dos Produtores se pronunciou, informando que “há cinco dias completos para se chegar a um acordo, e os estúdios vão continuar negociando de boa-fé em um esforço de se chegar a um acordo de um novo contrato que mantenha a indústria trabalhando.”

Desdobramentos para a indústria

Como relatado pelo próprio sindicado patronal, há até o final do domingo para as partes encontrarem um acordo. Por isso, a greve ainda não é certa.

Sem a equipe técnica, não há como fazer filmes e séries (Crédito: Flickr / Alex Lang)
Sem a equipe técnica, não há como fazer filmes e séries, por exemplo (Crédito: Flickr / Alex Lang)

Se ocorrer, a paralização terá um grande efeito no que está sendo produzido nos Estados Unidos. Sets de cinema e parte dos de televisão vão parar. No entanto, a greve não afetará produções no exterior, transmissões esportivas, nem gravações locais para o que é chamado de “TV paga” (incluindo produções de Cinemax, HBO, Showtime e Starz) por haver um acordo separado com essas organizações. Gravações de videoclipes e as peças teatrais também não entram.

De qualquer forma, seria um baque grande para a indústria como um todo – que vem não só de cinemas fechados por meses, mas também por filmagens interrompidas em ao menos dois momentos durante a pandemia. Se 2021 foi um ano difícil para essas empresas, uma greve teria repercussão grande em 2022.

Outras greves em Hollywood

A greve mais conhecida é dos roteiristas, que ocorreu entre 5 de novembro de 2007 e 12 de fevereiro de 2008. Na época, o sindicato da categoria demandava uma parte maior das receitas dos grandes estúdios, principalmente – veja novamente o nome aparecer – nas chamadas “novas mídias”, incluindo streaming.

As repercussões incluíram séries que tiveram temporadas menores ou reutilizaram roteiros antigos, talk shows que foram ao ar sem monólogos de abertura, e filmes que foram ou atrasados ou foram rodados sem ter um roteiro efetivamente pronto.

Comício do Sindicato dos Roteiristas durante a greve de 2007 (Crédito: Flickr / Amber Baldet / John Edward)
Comício do Sindicato dos Roteiristas durante a greve de 2007 (Crédito: Flickr / Amber Baldet / John Edward)

Depois de um pouco mais de três meses, os dois lados entraram em acordo sobre as receitas dos programas e filmes, encerrando a paralização.

Outras greves de roteiristas ocorreram em 1988 (por 22 semanas), em 1985 (por duas semanas) e em 1981 (outros três meses). Em 1987, os diretores pararam por apenas três horas.

Já a última possibilidade de greve, que não se concretizou, foi em 2017 – quando mais uma vez os roteiristas exigiram maiores receitas das produções para o streaming. Na época, um novo acordo foi feito.

Mais uma vez, a mudança na forma como consumimos conteúdo impacta na indústria do entretenimento – e, por fim, na relação de empregados e empregadores. Como vemos, até aquela inocente comédia que você assiste na Netflix tem desdobramentos no mundo…

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