Martin-Scorsese

Em artigo, Martin Scorsese critica Hollywood atual: “sabem nada”

Na visão do cineasta, algoritmos precisam dar lugar à curadoria humana – e o cinema não deve ser reduzido a apenas conteúdo

17 de fevereiro de 2021 11:38
- Atualizado em 19 de fevereiro de 2021 10:50

Nos últimos anos, Martin Scorsese se tornou uma das vozes mais ativas contra o atual momento da indústria do cinema mundial – fazendo viralizar, inclusive, suas alfinetadas na Marvel Studios. Agora, o cineasta faz novas e duras críticas a essa mesma indústria em um longo artigo, publicado na edição de março da Harper’s Magazine, revista liberal especializada em cultura.

No texto, que é uma homenagem ao também diretor Federico Fellini, Scorsese compara a forma como o italiano via a arte com a Hollywood de hoje.

“[…] nos dias atuais, a arte do cinema está sendo sistematicamente desvalorizada, marginalizada, rebaixada e reduzida ao seu menor denominador comum, ‘conteúdo'”, critica duramente o americano, que é um dos expoentes do ressurgimento de Hollywood após o fim de sua Era de Ouro, a partir dos anos 1970.

Na época, o movimento (chamado de “New Hollywood”) se tornou a base para o reerguimento da indústria do cinema, com os estúdios voltando a gerar grandes bilheterias com a criação dos blockbusters, que são os grandes filmes de meio de ano.

Na visão do cineasta, o atual modo de trabalho das grandes corporações, que veem nos filmes como “conteúdo” para as suas iniciativas (principalmente no video on demand), é prejudicial para a arte. Isso, vale lembrar, após o próprio Scorsese lançar ‘O Irlandês‘ pela Netflix e de firmar um acordo com a Apple para fazer filmes e séries.

'O Irlandês', filme mais recente de Martin Scorsese, foi lançado pela Netflix, uma plataforma de streaming (Foto: divulgação / Netflix)
‘O Irlandês’, filme mais recente de Scorsese, foi lançado pela Netflix, uma plataforma de streaming (Foto: divulgação / Netflix)

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“A até recentemente, uns quinze anos, o termo ‘conteúdo’ era ouvido apenas quando as pessoas discutiam o cinema em um nível sério, e era contrastado e medido contra a ‘forma’. Depois, gradualmente, foi sendo usado cada vez mais pelas pessoas que assumiram o controle de empresas de mídia, a maioria das quais nada sabia sobre a história da forma da arte, ou mesmo se importou o suficiente para pensar que deveria [saber].”

As duras palavras continuam: “‘Conteúdo’ tornou-se um termo comercial para todas as imagens em movimento: um filme de David Lean, um vídeo de gato, um comercial do Super Bowl, uma sequência estrelada por super-herói, um episódio de série. Estava ligado, é claro, não à experiência cinematográfica, mas à exibição em casa, nas plataformas de streaming que vieram para superar a experiência do cinema, assim como a Amazon superou as lojas físicas.”

Algoritmo vs. arte

No entanto, Martin Scorsese assopra logo em seguida, reconhecendo que o momento também tem seu lado positivo, mas logo volta às críticas.

“Por um lado, isso tem sido bom para os cineastas, inclusive para mim. Por outro lado, criou uma situação em que tudo é apresentado ao espectador em igualdade de condições, o que parece democrático, mas não é. Se a visualização posterior é ‘sugerida’ por algoritmos baseados no que você já viu, e as sugestões são baseadas apenas no assunto ou gênero, então o que isso faz com a arte do cinema?”

No caso, o cineasta americano se refere ao fato das plataforma de VOD (e, em última instância, os grandes grupos de mídia) não estarem preocupados com a forma, se é um produto comercial ou uma experiência artística, mas sim em ter conteúdo e que esse conteúdo seja assistidos pelos seus assinantes.

Cena de 'A Doce Vida', de Federico Fellini: artigo de Scorsese começa como uma homenagem ao italiano (Foto: divulgação / Zeta Filmes)
Cena de ‘A Doce Vida’, de Federico Fellini: artigo de Scorsese começa como uma homenagem ao italiano (Foto: divulgação / Zeta Filmes)

Na percepção de Scorsese, o que importa para essas empresas são os algoritmos – utilizado de forma mais proeminente pela Netflix, mas também presente em outras plataformas -, que sugerem o que ver depois baseado em assuntos ou outras informações, mas não levaria em conta características estéticas e artísticas.

Não por menos, há um crescimento forte das séries nos últimos anos. Um dos pontos de virada nesse jogo com o cinema foi a Netflix, que, em 2013 com ‘House of Cards’, começou a lançar produções no formato por uma escolha mercadológica: séries e filmes possuem um custo muito próximo, mas o formato da primeira “prende” o espectador por mais tempo na plataforma.

Outro exemplo dessa movimentação é o crescimento da importância dos eventos para acionistas, que, em tempos recentes, se tornaram a vitrine para o anúncio de novos conteúdos em plataformas de video on demand. Foi assim, por exemplo, no Investor’s Day da Disney, e acontecerá o mesmo na próxima semana, em evento da ViacomCBS.

Claramente há um privilégio aos números e na necessidade desses grupos convencerem os investidores a bancarem verbas bilionárias para continuarem crescendo.

A saída, de acordo com Martin Scorsese

Esses são fatos que, para Scorsese, reduzem expressões artísticas, deixando de lado a importância do formato e da estética. Para solucionar o problema, o diretor defende a curadoria humana – seja em distribuidores, plataformas e na interação com o espectador.

Cena de 'O Irlandês', de Scorsese: o diretor exigiu que a Netflix lançasse o longa também nos cinemas (Foto: divulgação / Netflix)
Cena de ‘O Irlandês’, de Martin Scorsese: o diretor exigiu que a Netflix lançasse o longa também nos cinemas (Foto: divulgação / Netflix)

“A curadoria não é antidemocrática ou ‘elitista’, um termo que agora é usado com tanta frequência que se tornou sem sentido,” explica. “É um ato de generosidade – você está compartilhando o que ama e o que o inspirou. (As melhores plataformas de streaming, como Criterion Channel e MUBI, e canais tradicionais, como TCM, são baseadas na curadoria – eles são realmente curados.) Algoritmos, por definição, são baseados em cálculos que tratam o visualizador como um consumidor e nada outro.”

A curadoria, vale dizer, é um dos modelos que adotamos aqui no Filmelier para ajudar você a encontrar um filme que se adapte ao seu gosto e/ou ao que procura assistir naquele momento.

“O cinema sempre foi muito mais do que conteúdo, e sempre será, e os anos em que esses filmes saíram do mundo todo, conversando e redefinindo a forma de arte semanalmente, são a prova disso.”, encerra Martin Scorsese no artigo.

Clique aqui para ler a íntegra do artigo, em inglês.

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