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Pandemia pode levar 40% dos cinemas chineses à falência

Caso a crise se concretize, cerca de 5 mil estabelecimentos teriam que fechar suas portas em definitivo

Matheus Mans   |  
1 de junho de 2020 18:48
- Atualizado em 17 de junho de 2020 12:19

Os efeitos da pandemia do novo coronavírus continuam a ser sentidos na indústria audiovisual, com cinemas fechados e gravações paralisadas. Agora, um estudo da China Film Association deu a real dimensão dessa crise no país: a possibilidade de falência de 40% de toda a rede de cinemas.

Segundo o estudo, as salas de exibição não estariam conseguindo sustentar seus gastos. Afinal, estão fechadas desde 23 de janeiro, quando o governo chinês institui uma série de restrições à indústria audiovisual. Hoje, mesmo com a retomada econômica do País, os cinemas não voltaram a operar.

Em termos práticos, a pandemia do coronavírus poderia acarretar no fechamento de 5 mil cinemas e o encerramento de quase 28 mil telas. Seria um impacto profundo na indústria cultural chinesa, que assume a vice-liderança no número de salas. Hoje, são 12 mil cinemas e 70 mil telas.

Cenário chinês

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O motivo disso, segundo informações coletadas pelo site de notícias Variety, estaria em entraves administrativos das províncias nacionais. Elas temem novos ondas de surtos – incluindo a capital Pequim, que ainda não terminou de sair do estado de quarentena e mantém ordens de restrições.

Hoje, a China já passou o pico da primeira infecção – por isso a discussão sobre a reabertura de espaços públicos. No entanto, a covid-19 deixou um rastro de desolação no País. Foram mais de 4,6 mil mortos e 83 mil infectados, mesmo com um possível caso de subnotificação do governo.

Mas por ter sido o primeiro país a fechar por causa do vírus e por ter uma grande população sem estrutura, o governo acompanha diariamente os focos da epidemia. Caso haja algum descontrole de números, o país estaria pronto para fechar novamente. Há, assim, uma insegurança no ar.

Cinemas ao redor do mundo estão com salas vazias (Crédito: Divulgação/Matilha Cultural)

Impacto econômico

Além disso, a China Film Association alerta para o tempo necessário para a retomada do setor. Segundo o relatório, caso o circuito abra as portas ainda em junho, a renda pode voltar ao patamar anterior ao da pandemia em até seis meses. Mas se reabrir em outubro, as previsões de receita caem 91%.

Assim, no cenário mais pessimista, os cinemas chineses observariam um faturamento anual de apenas US$ 810 milhões. Em abril, quando o governo e empresários do ramo audiovisual acreditavam numa retomada mais ágil, a perspectiva era de um faturamento anual de cerca de US$ 4,2 bilhões.

Vale ressaltar, também, que caso o fechamento de cinemas se concretize, o audiovisual global deve sofrer o impacto. Afinal, Hollywood aprendeu a faturar no mercado chinês e a aproveitar o grande público disponível. Só ‘Vingadores: Ultimato‘ arrecadou cerca de US$ 615 milhões no país asiático.

Cinemas brasileiros

Ainda não há, no Brasil, números exatos sobre o impacto do coronavírus na cadeia de cinemas. No entanto, nas últimas semanas, exibidores demonstraram descontentamento ao falar sobre a quarentena anunciada para o estado de São Paulo — onde se concentra o maior número de salas.

Em entrevista ao Filmelier, o diretor do Petra Belas Artes, André Sturm, arriscou que todo o mercado pode falir caso as coisas não mudem no País.

“No melhor dos casos, reabro em 60 dias. E não vai ser assim. Os cinemas estão sem data, sem perspectiva. É desolador o que o governo propôs”, disse ele, que já foi executivo de cultura a níveis municipais e federais. “Essa quarentena não faz sentido. Vão quebrar todos os cinemas de São Paulo”.

Mas pesquisadores ligados à Universidade de São Paulo têm reafirmado, continuamente, que a reabertura pode ser precipitada — ainda mais de espaços públicos e de aglomeração, como os cinemas. Com 29 mil mortos e 500 mil infectados, o País deveria estar passando por uma quarentena.

“Políticas mais robustas […] aumentariam a confiança da população nas autoridades e contribuiriam para sustentar as medidas de isolamento por mais tempo”, afirma a cientista política Lorena Barberia, coordenadora da Rede de Pesquisa Solidária e uma das responsáveis pelo novo estudo.