mitos

‘Quebrando Mitos’ explora a masculinidade catastrófica de Jair Bolsonaro

Filme de Fernando Grostein Andrade explora figura do presidente em contraponto com a história de vida do cineasta

Matheus Mans   |  
16 de setembro de 2022 18:14
- Atualizado em 20 de setembro de 2022 15:35

Fernando Grostein Andrade é um cineasta que se interessa pela reflexão, pelo pensamento, pelo debate. Depois de ‘Quebrando o Tabu’, documentário que discutiu o cenário das drogas no Brasil, Andrade volta a colocar o seu olhar na sociedade brasileira. Desta vez, porém, de maneira ainda mais enfática: ‘Quebrando Mitos’, filme que estreou de graça on-line nesta sexta-feira, 16, destrincha a masculinidade frágil e catastrófica de Jair Bolsonaro. Isso, porém, através de um olhar biográfico de Andrade, homem homossexual assumido e que já sentiu o preconceito na pele.

“Eu vi um deputado irrelevante, que servia como um bobo da corte em programas de auditório para dar audiência, se tornar presidente. Levei aqui a sério, vi que não era brincadeira. Me desceu uma raiva, comecei a falar como aquilo era sério”, explica Andrade. “E como privilégio vem acompanhando de responsabilidade, vi que era minha responsabilidade usar alguns privilégios que eu tenho para fazer um filme e mostrar o que acontece no Brasil”.

Ódio, preconceito e LGBTQfobia

Publicidade

Desde que lançou o documentário ‘Quebrando o Tabu‘ (2011), no qual defende que o tema das drogas deveria ser tratado como questão de saúde e não com punição criminal, o cineasta anos vem sofrendo ataques de ódio. As ameaças aumentaram em 2017, quando assumiu publicamente a sua orientação sexual no vídeo ‘Cê Já Se Sentiu um ET?‘, veiculado em sua página de YouTube. No curta de 15 minutos, ele expõe de forma bem-humorada o seu processo de autoaceitação com o intuito de ajudar outras pessoas reprimidas em situação semelhante à que viveu.

Cena de Quebrando Mitos
‘Quebrando Mitos’ explora a masculinidade do presidente e da sociedade contemporânea (Crédito: Divulgação/Quebrando Mitos)

🎞  Quer saber as estreias do streaming e dos cinemas? Clique aqui e confira os novos filmes para assistir!

Em 2018, a hostilidade chegou ao limite. Por conta de críticas ao então candidato Jair Bolsonaro, recebeu uma mensagem que o advertia a parar de falar de política, caso contrário “o seu velório seria com o caixão lacrado”. A ameaça à sua segurança, somada a um longo histórico de intolerância, assédio e acusações, foi o estopim para a sua decisão de ir morar na Califórnia, nos Estados Unidos. “Na época, falei com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que me colocou em contato com um advogado. Esse advogado me falou que setores da polícia estavam comprometidos pelo ódio”, diz “Tinha que parar de falar. Mas não conseguia. Corri atrás do sonho de vir morar aqui”.

Cerca de dez meses depois de se mudar para Los Angeles, em 2019, sentiu-se na obrigação de fazer um filme contra as posições do governante, já que, segundo ele, “o privilégio vem acompanhado de responsabilidade”. No documentário, que divide a direção com o marido Fernando Siqueira, Andrade se coloca na trama. Enquanto fala de Jair Bolsonaro, ele também revela suas fragilidades em primeira pessoa, com o propósito de estimular e ampliar a discussão entre LGBTQs — afinal, enquanto um agride e ofende, o outro mostra os efeitos disso em sua vida.

‘Quebrando Mitos’ e a reflexão de nossos dias

O filme, no começo, era focado no Bolsonaro, apenas com sua história, falas e ataques de ódio. No entanto, Fernando Andrade e Fernando Siqueira contam que o longa-metragem se tornou difícil de assistir e digerir. Foi aí que veio a ideia, depois de consultoria e conversas com pessoas do setor, de traçar um interessante paralelo entre a vida de Andrade e a de Bolsonaro, alternando material de arquivo com novas imagens e entrevistas com políticos, jornalistas, pensadores, líderes sociais e ativistas, além de amigos de infância e pessoas próximas ao presidente em exercício.

“Fiquei muito tempo vendo depoimentos de chacinas, pessoas falando sobre violência, devastação da Amazônia, extermínio. Cheguei a ter um esgotamento mental”, diz Andrade. Com isso, logo depois, começaram a buscar uma recuperação emocional e mental por meio da música — o que, inclusive, transformou-se em um álbum, atualmente em pós-produção, de 13 faixas. Por fim, recuperado, passou a encontrar novos ângulos, histórias e recuperar a autoestima. Em seguida, começou a dividir a montagem com o marido, que passou a oficialmente assinar a direção do projeto.

“A maneira que encontramos de jogar luz no filme era mostrar a resistência. Mostrar o movimento de pessoas que resistem às forças escuras”, diz Siqueira. Andrade continua. “Com isso, abrimos minha vida para mostrar para o espectador de onde está partindo o ponto de vista”, diz o cineasta. “Foi um processo muito difícil. Muito mesmo. É ruim falara da sua vida na tela e cortar para a vida do Bolsonaro. É um processo de decisão que eu tentava evitar, mas que estava chamando. Foi dando liga. São dois tipos de pulsão: a do presidente pela morte e a minha pela vida, pelas cores. São masculinidades diferentes. Sou homem gay, não sou contra o masculino. Ataco o masculino catastrófico”.

‘Quebrando Mitos’ está disponível online, de graça. Se você quiser saber mais sobre o filme ou encontrar o link para assistir, clique aqui.

Siga o Filmelier no FacebookTwitterInstagram e TikTok.