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‘Retorno da Lenda’: diretor Potsy Ponciroli fala sobre o filme e sua admiração por faroestes

Conversamos com o realizador sobre seu próprio western, lançado em Veneza, ‘Retorno da Lenda’ (‘Old Henry’), estrelado por Tim Blake Nelson.

Lalo Ortega   |  
1 de novembro de 2022 17:02

Quando pensamos em um western (ou faroeste, no termo mais clássico em português), a primeira coisa que vem à mente são as grandes imagens do oeste americano. John Wayne em uma jornada épica de busca, resgate e vingança, ou sete homens armados em uma missão para proteger uma cidade. Raramente são filmes pequenos e íntimos como este Retorno da Lenda‘ (Old Henry), que chegou às plataformas de streaming brasileiras no último final de semana.

Essa não é a única de suas peculiaridades. Este filme, que contou com estreia mundial no Festival de Cinema de Veneza de 2021, é um western de “micro-orçamento”, como gosta de dizer o realizador Potsy Ponciroli, que até agora não tinha realizado um único filme do gênero. Sua formação é na comédia, com séries como Still the King ou o longa-metragem Super Zeroes.

Para sua primeira produção do gênero, Ponciroli escreveu um roteiro sobre Henry (Tim Blake Nelson), um velho agricultor viúvo que vive com seu filho adolescente (Gavin Lewis) em uma fazenda remota no Oklahoma na virada do século 20.

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Mal-humorado e silencioso, Henry procura levar uma vida pacífica, mas quando um fora-da-lei ferido (Scott Haze) aparece em seu território, é forçado a enfrentar o perigo para proteger seu filho – mas ele pode pagar o preço de revelar seu passado misterioso. Um passado para o qual, aliás, o diretor busca inspiração em um personagem lendário do Velho Oeste.

Conversamos com o diretor Potsy Ponciroli sobre os bastidores da produção de ‘Retorno da Lenda’

Filmelier: Este filme parece surgir um pouco do nada para você, já que costumava fazer principalmente comédias. De onde vem esse faroeste?


Potsy Ponciroli: Sim, minha formação foi, geralmente, na comédia. Era mais uma questão de dizer aos estúdios que queríamos fazer um western. Eu sabia que poderia fazer isso, mas foi um daqueles casos em que sou visto apenas como diretor de comédia e é difícil conseguir outra coisa.

Então eu sabia que tinha que fazer muito bem para mostrar que eu poderia fazer isso. Quando você está contratando atores e tal, eles querem ver o drama e a ação, e é difícil mostrar isso a eles com um currículo de comédia. Mas foi daí que tudo veio, querendo provar que você pode contar uma história independentemente de ser uma comédia, um thriller ou um faroeste.

No final do filme descobrimos a verdadeira identidade do protagonista. Enquanto escrevia o roteiro, quanta pesquisa você fez sobre quem ele era e como isso deu base para o personagem da forma como você o criou?

Totalmente. Tim Blake Nelson juntou-se ao projeto no papel do velho Henry, e você tem que saber que ele tem a mesma altura e aspecto físico daquela figura da história. Esse personagem era realmente temido e implacável, e me parecia incrível que alguém assim, dessa estatura, pudesse impor tamanha intimidação e destruição.

Li livros e assisti a documentários sobre ele, mergulhando em tantas histórias sobre ele quanto pude. Parte do diálogo, a forma como o personagem de Tim fala, é baseado nos registros sobre ele e como as pessoas falavam naquela época. Queríamos extrair o máximo possível dessas referências para torná-lo autêntico.

Tim Blake Nelson, de Watchmen, interpreta um personagem inspirado em uma figura histórica (Crédito: Synapse)

No entanto, há uma enorme lacuna entre o que aconteceu com ele, historicamente falando, e a idade que ele tem no início de ‘Retorno da Lenda’. Como preencheram essas lacunas?

Isso foi difícil, porque ele era jovem no final do século 19. Tê-lo velho significava entrar em 1906, que não era mais a época do Velho Oeste. Já havia cidades e os carros começavam a circular pelas ruas, então tivemos que encontrar alguma região do país que tivesse permanecido rural naquela época. Isso nos trouxe para Oklahoma, que na época nem era um estado, era disputado por índios.

Então, escalar essa figura histórica nos reduziu a uma época e idade muito específicas para ele, e isso se reflete no roteiro. O personagem de Curry (Scott Haze) fala sobre uma mina de prata durante o jantar, que é baseado em uma história verdadeira sobre uma mina de prata falsa. Extraímos muitos desses detalhes da história, o que torna a narrativa mais real.

Falando de Tim Blake Nelson, ele parece estar se tornando um dos atores mais procurados para personagens mais brutos, ou para westerns. Você tinha isso em mente enquanto escrevia, ou como ficou no papel?

Primeiro terminei o roteiro e então começamos a procurar quem poderia fazer o papel de Henry. Tim estava definitivamente no topo da nossa lista, então quando finalmente lhe enviamos o roteiro e ele o leu, ele disse que queria conversar conosco.

Nos falamos no Zoom, ele basicamente queria saber qual era nossa visão para o filme. Nos demos muito bem e, no final, ele perguntou se poderia participar com a condição de que ele mesmo trabalhasse na voz de seu personagem.

Tive o prazer de conversar com ele por duas ou três horas todos os dias, afinando como seria esse personagem, com o passado que ele teve e que agora vive escondido. Como sua voz soaria, como ele falaria. No processo, nos livramos de metade do diálogo que eu havia escrito. Nós o tornamos mais estóico, quieto e reservado. Essa foi uma das minhas partes favoritas do processo. Tim é incrível e tivemos muita sorte de tê-lo.

‘Retorno da Lenda’ se passa em apenas um punhado de locações. Foi assim que você concebeu o filme ou foi mais uma decisão forçada pelas circunstâncias?

Quando nos juntamos ao estúdio (Shout! Studios) a ideia sempre foi fazer um western com um micro-orçamento. Para conseguir isso, sabíamos que tínhamos que torná-lo muito limitado no que diz respeitos aos espaços físicos.

A inspiração para a história veio a mim quando descobri esta pequena propriedade de 200 acres onde todo o filme acontece, no Tennessee. Todos os outros locais estavam a 300 metros da casa principal. Então acampamos naquela área durante toda a filmagem, o que facilitou um pouco.

Os tiroteios em ‘Retorno da Lenda’ são viscerais e realistas (Crédito: Synapse)

Ainda assim, foi muito complicado, porque o inverno chegou e há menos horas de sol. Filmamos tudo em 21 dias. Ainda é pouco tempo para tudo o que há para fazer, mas ajuda estarmos na mesma locação sempre.

Os tiroteios em particular são muito viscerais. Considerando que você não tinha experiência em filmar sequências como essa, qual foi o maior desafio?


O maior desafio é o tempo, honestamente. Desde o início eu queria representar que, naquela época, essas armas poderosas e barulhentas eram muitas vezes a única defesa que você tinha, e que uma única bala poderia significar a diferença entre a vida e a morte.

Todos os dias, em todas as cenas, prestávamos atenção em quantas balas estavam em cada arma, ou como eles tinham que agir quando estavam recarregando, porque você não pode ficar parado, você tem que se cobrir.
Há um western com Kevin Costner que é um dos meus favoritos, ‘Pacto de Justiça‘, que nos mostrou o padrão do que um tiroteio pode ser em um filme. E tinha que ser mostrado que essas armas não eram tão precisas. Você pode ficar a três metros de uma pessoa e ainda errar.

Falando em westerns, quais são seus favoritos, ou quais inspiraram você a fazer seu novo filme?

O filme com o qual fui introduzido aos westerns é ‘Os Jovens Pistoleiros‘. Eu sei que não é um dos clássicos, mas eu vi na hora e na idade certa para ser emocionante, e parte disso foi por causa do personagem principal.

‘Pacto de Justiça’ também me inspirou. Mas quando Tim entrou a bordo, tivemos muitas conversas sobre se eu tinha visto este ou aquele western. Às vezes ele me perguntava se eu tinha visto os clássicos e, quando eu dizia que não, ele dizia “me liga quando ver”. Talvez eu não fosse um grande fã de westerns quando comecei este projeto. Mas eu me tornei um quando terminei.

Se o público pudesse entender uma coisa de ‘Retorno da Lenda’, o que você gostaria que fosse?

Eu tenho filhos, então eu diria que, como pais, não queremos vê-los cometer os mesmos erros na vida que nós. Acho que tentamos proteger nossos filhos disso. Podemos ver esses problemas chegando, mas eles não podem porque ainda não têm essa experiência. Somos tentados a intervir e protegê-los do mundo, mas o mundo virá até eles e você não pode evitar. É melhor aceitar isso e ajudá-los, prepará-los para enfrentá-lo por conta própria.

‘Retorno da Lenda’ já está nas plataformas de streaming no Brasil. Se quiser saber mais sobre o filme, ver o trailer ou saber onde vê-lo, clique aqui.

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