tinnitus

“É um ‘body horror'”, explica Gregório Graziosi sobre ‘Tinnitus’, seu novo filme

Longa-metragem se aprofunda na história de uma mergulhadora que sofre de tinnitus, um zumbido ininterrupto

Matheus Mans   |  
26 de outubro de 2022 17:09

Tinnitus, apesar do nome complicado, é, simplesmente, um zumbido no ouvido. Não aquele que dura alguns segundos e para, mas a versão persistente da doença, que parece não dar saídas para quem sofre dela. E é essa doença que toma conta da narrativa de ‘Tinnitus’, exibido na 46ª Mostra Internacional de Cinema de SP e sem data de estreia nos cinemas. 

Em termos gerais, o longa-metragem acompanha a história de Marina (Joana de Verona) é uma ex-atleta de saltos ornamentais que sofre de tinnitus. Afastada de competições profissionais, ela decide voltar ao esporte em busca de uma medalha nos próximos jogos. Para isso, ela precisa recobrar a confiança em seu corpo e enfrentar todos seus medos.

Gregório Graziosi é a mente criativa por trás do filme: assina não só a direção, como o roteiro. Tudo começou, segundo ele, após indagações ao ver um quadro do pintor David Hockney. O que teria acontecido naquela cena, naquele instante imortalizado em traços e cores? A partir desses pensamentos, Graziosi criou essa trama potente, cheia de camadas. A seguir, o cineasta fala sobre a ideia do filme, desafios e como mergulhou nessa doença.

Filmelier: Gregório, vamos começar pelo básico: me conta de onde veio a ideia do filme?

Gregório Graziosi: A primeira imagem que me chamou foi uma pintura icônica, do David Hockney, ‘A Bigger Splash’. Você vê um mergulhador e sabe que alguma coisa aconteceu. É bem cinematográfica. Fiquei pensando o que aconteceu com o mergulhador. Um acidente? No impacto daquela tela, resolvi fazer o curta-metragem ‘Saltos’. Foi bem, foi exibido em Locarno. Mas as perguntas que eu estava fazendo não foram respondidas. Comecei a fazer muita pesquisa para entender essa personagem, essa saltadora, qual o impacto de retomar a atividade esportiva com essa doença aterrorizante. Ela precisava encarar essa doença de frente. E aí surgiu a ideia para ‘Tinnitus’.

Quadro ‘A Bigger Splash’, que inspirou Gregório (Crédito: David Hockney)

Filmelier: O filme sobre uma doença real. Como foi seu preparo para falar sobre isso? Ela foi o ponto de partida?

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Gregório: A gente teve uma consultoria para entender como a doença funcionava. Nos consultamos com a dra. Tanit Sanchez, uma das maiores especialistas na área, criou um grupo de apoio para entender como essa doença afetava a vida dos pacientes. Elas se afastam dos relacionamentos, não são compreendidas. São confundidas como se elas estivessem em um processo de alucinação. É uma doença aterrorizante. A partir disso, a compreensão da doença veio das entrevistas com pacientes, o entendimento dessa realidade e condição. Isso impactou, sim, a estrutura do roteiro. 

Filmelier: Algo que me chama a atenção é que o filme tem um pé forte no ‘body horror’. É um tipo de cinema pouco explorado no Brasil. Como foi criar esse tipo de história no nosso contexto? 

Gregório: A história é um “body horror”, seguindo o caminho da minha cinematografia. Vejo vários filmes que relacionam corpo e espaço e eu, paulistano, vejo São Paulo como uma panela de pressão. É uma impressão que desenvolvi há muito tempo. É uma evolução. Muita da inspiração vem das artes plásticas, mas o horror do corpo vem da Adriana Varejão. Não tem como ser contemporâneo e não ser influenciado por um artista como essa. Ela esconde a estranheza ao corpo em uma superfície calma e estética. Além disso, uma paixão nova, que veio, é o do cinema do David Cronenberg.

Filmelier: O filme começa com uma espécie de desconstrução do hino. Vê o filme como um comentário político?

Gregório: A gente tá vivendo um momento em que os símbolos nacionais são sequestrados, representando um grupo específico. Mas, quando uma parte das pessoas se sente agredida por outra parte, símbolos nacionais podem ser agressivos, podem causar ansiedade. A gente precisa passar por um resgate desses símbolos. Não dá para dissociar o que acontece de errado no corpo da personagem ao fato de que nosso país está andando errado também. É algo que aconteceu próximo das Olimpíadas, com o processo de impeachment.

Filmelier: Por fim, a cena final é aterrorizante, muito forte. Como foi a experiência de fazer essa cena e a troca com a Joana de Verona?

Gregório: Trabalhei com o preparador de elenco de ‘Bacurau’, Leonardo Lacca, e a Joana foi a última pessoa a entrar no filme. Ela tá um arraso. É muito exigente e ela se entrega. A questão do esporte de salto, fazer apneia, entrar no processo de perturbação emocional causado pela doença é muito difícil. Tudo isso em um filme só. Poucas atrizes entregariam o que a Joana fez. Ela fala que é o papel que ela mais se realizou. Fico contente. E sobre a cena final: ela foi filmada de madrugada e foi muito difícil. É uma cena muito fora da curva e a Joana atua com o corpo inteiro. A equipe até se assustou com o resultado. Era de madrugada, frio. Dava pra ver a cara de espanto da equipe. Vi que alguma coisa de certo aconteceu ali. Foi uma noite muito exigente, tanto para a equipe quanto para ela. Foram uns 20 takes. É interessante escutar o filme. Dá pra identificar o filme pelo som. E a reação sonora do público para essa cena é muito especial. Reagem mesmo, colocam para fora tudo que estão sentindo. Ver o filme na sala cheia é uma experiência coletiva impactante por causa dessa última cena.

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