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Depois de boicote do governo, ‘Transversais’ mostra resistência no cinema

Após falas contrárias de Bolsonaro, ‘Transversais’ mostra que o cinema continua sendo uma forma brilhante de resistência

Matheus Mans   |  
23 de fevereiro de 2022 16:47
- Atualizado em 25 de fevereiro de 2022 11:05

Foi em agosto de 2019 que o presidente Jair Bolsonaro, em uma de suas tradicionais lives em redes sociais, resolveu colocar um ponto final em um edital sobre “diversidade de gênero” e “sexualidade” da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Um projeto específico, já aprovado, entrou em sua mira. “Um filme chama ‘Transversais’. Olha o tema: ‘sonhos e realizações de cinco pessoas transgênero que moram no Ceará’. Conseguimos abortar essa missão”, disse o presidente. A boa notícia é que a arte resistiu: apesar de tudo, ‘Transversais‘ chega aos cinemas nesta quinta-feira, 24.

Dirigido por Émerson Maranhão, a produção é um desdobramento do curta-metragem ‘Aqueles Dois’. Inicialmente, a ideia era que fosse uma série de cinco episódios. No entanto, com o boicote do governo federal ao edital, a produção resolveu mudar o formato para cinema. Virou longa.

Única personagem cisgênero do filme, Mara mostra como é ser mãe de uma garota transgênero (Crédito: Divulgação/Deberton Filmes)

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Maranhão, aliás, conta que transformou o susto e a revolta com o comentário do presidente, inesperado e absolutamente inadvertido, em vontade de ser resistência com a produção.

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“Quando houve essa censura explícita, duas coisas me ocorreram. Primeiramente, o que fez o inominável querer tanto calar essas vozes? Invisibilizar essas pessoas? Aí eu vi que não era só um ataque pontual. É um ataque sistemático, tanto contra a cultura como contra a população LGBT. Então me deu mais gana”, diz o cineasta ao Filmelier.

“Fiquei: ‘gente, agora que ele não quer que essas vozes sejam ouvidas é que elas precisam ser ouvidas’. É preciso ampliar o alcance dessas vozes, contar essas histórias. O filme, desde o começo, tinha esse diferencial de um olhar carinhoso”.

Sobre ‘Transversais’

A base do filme é como Bolsonaro falou em sua live: um mergulho na vida e nos sonhos de pessoas transgênero no Ceará. No entanto, vai além disso. Érikah é professora. Samilla é funcionária pública. Caio é paramédico. Kaio Lemos é pesquisador. Mara é jornalista e mãe. ‘Transversais’ mostra como a transexualidade atravessou a vida dessas pessoas, de maneiras mais ou menos leves, mas foca principalmente em contar suas histórias, seus dilemas, suas emoções.

“A ideia de ‘Transversais’ surgiu como decorrência natural de ‘Aqueles Dois’, também protagonizado por Caio e Kaio. Como a gente fez uma extensa pesquisa, quando terminamos o filme, o Allan Deberton, produtor executivo, viu que a gente tinha muito material em mãos. Muito material ficou de fora em ‘Aqueles Dois’, muita coisa que não conseguimos contar”, contextualiza Maranhão. “Foi aí que veio a ideia de ir além dos Caios e contar mais histórias”.

Segundo o cineasta, tudo começa com Samilla Marques, funcionária pública e uma das personagens documentadas no longa. “A gente se conheceu na militância LGBT e, em uma festa, ela me contou que era filha de pais evangélicos. Achei uma grande história entender como era a vida de pessoas trans criadas em lares fundamentalistas religiosos”, explica.

Samilla diz que a experiência foi única — apesar das falas de Bolsonaro. “Não assisti a live do inominável, mas tomei um susto, fiquei apavorada”, conta. “Mas, para mim, ‘Transversais’ é uma esperança, uma luz no fundo de tanta dor que a gente vive nesse país. Nós somos uma população que é assassinada, seja uma morte física ou morte social, e o filme é contado de uma forma delicada, carinhosa e profunda, mostrando esperança para essa população. Já assisti ao filme quatro vezes, todas as vezes eu chorei. O Émerson conseguiu tirar algo do nosso íntimo, com sensibilidade”.

Uma das coisas que mais chama a atenção em ‘Transversais’, além da resistência política que transpira em cada frame do filme, é a forma como trata a comunidade LGBTQIA+. Nada de tragédia em cima de tragédia. Ao contrário da grande massa de produções sobre o tema, o filme surge quase como um respiro, uma luz de esperança, que mostra que essas pessoas não precisam ou não devem ficar restritas em uma vida apenas de sofrimento, dores e tristezas.

“É importante mostrar, por meio do cinema, que é possível viver mesmo no país que mais mata, que a gente pode quebrar estereótipos e que podemos contar no cinema as histórias legais, com amores que deram certo, relações de famílias que deram certo. Era isso que faltava. Muitos documentários falam de luta, falam de preconceito. Claro que tem o seu papel educativo, mas ‘Transversais’ traz uma questão intrafamiliar e de relação com as religiões e famílias. Mostra que nós vencemos”, diz Samilla.

“A gente consegue tocar no coração dos pessoas. Vemos as lágrimas, não de tristeza, mas de orgulho de que se aquelas pessoas venceram, elas também podem vencer”.

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