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‘A Nuvem Rosa’ previu a distopia em que estamos vivendo desde 2020

Entrevistamos a diretora Iuli Gerbase para falar sobre o filme de sci-fi brasileiro, que está se destacando nos festivais internacionais e acaba de chegar ao streaming

2 de setembro de 2021 10:24
- Atualizado em 30 de setembro de 2021 17:03

‘A Nuvem Rosa’, filme brasileiro da diretora Iuli Gerbase, chega ao streaming do Telecine nesta quinta-feira, 2, e é daquelas produções imperdíveis. A história – por mais que seja uma distopia – se aproxima da nossa atual realidade com a pandemia de coronavírus. E se você pensa que Gerbase se inspirou no que estamos vivendo, está enganado: o filme, na realidade, previu muito do que estamos enfrentando desde 2020

Em entrevista ao Filmelier, Gerbase conta como isso aconteceu – além de explicar mais sobre essa tal nuvem rosa que dá título ao longa-metragem.

‘A Nuvem Rosa’ é uma ficção-científica dramática sobre o isolamento social (Crédito: Divulgação/O2)

A trama gira em torno de Giovana (Renata de Lélis), que está presa em um apartamento com Yago (Eduardo Mendonça), quem tinha acabado de conhecer em uma festa. O que poderia ter sido apenas um encontro casual, ganhou proporções bem mais densas quando eles são obrigados a conviver juntos devido a uma nuvem tóxica e mortal que aparece misteriosamente. A única forma de se proteger é não sair de casa.

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Ao longo dos anos em que eles ficam isolados, Yago vive sua própria utopia, enquanto Giovana sente-se cada vez mais aprisionada.

A realizadora, natural do Rio Grande do Sul, teve a ideia em 2017 e começou a rodar o longa-metragem em 2019. Ou seja, ela conseguiu estar à frente de seu tempo e transmitir para tela como é viver em isolamento antes da humanidade passar por essa experiência.

Prelúdio da pandemia

Com essa premissa e a bela execução de ‘A Nuvem Rosa’, era difícil não se empolgar para entrevistar Iuli Gerbase e tentar entender como ela conseguiu antecipar a pandemia, ainda que de uma forma um pouco mais lúdica já que o filme não fala de uma doença.

“Foi realmente uma coincidência, eu não estava pensando sobre pandemia ou vírus quando escrevi o roteiro. A ideia era que eu queria fazer um filme com poucas locações e personagens, trabalhar bem a dinâmica de duas pessoas. Partindo de um casal que se conhece em uma festa e, de repente, tem que ficar juntos por muito tempo, forçadamente. Eu pensei em razões para que os dois não pudessem sair de casa, eu não queria nada muito prático como guerra, ou alguma coisa bloqueando a casa, então me veio a ideia da nuvem rosa, que algo tóxico e bonito. Quando veio essa ideia mais surreal, inexplicável, eu gostei bastante”, conta Iuli.

A cineasta encara seu primeiro longa-metragem da forma mais interessante possível – e com reconhecimento. ‘A Nuvem Rosa’ se destacou em diversos festivais internacionais, como Cleveland, Miami, Munique, Seattle, Shanghai, Transilvânia e Sundance. Além disso, ela foi premiada na competição de novos diretores no Cleveland International Film Festival.

“Eu consegui ir em dois festivais, em Munique e na Transilvânia, no mês passado, e por mais que seja bom ver as reações e críticas online, que foram boas, o público de Sundance comentando no Twitter que gostaram muito do filme, o mais gratificante é ter tido essas sessões com o público. No final, chega alguém em você e diz que ficou emocionada, que o filme vai ficar muito tempo na cabeça, isso que é muito emocionante. A pessoa vir falar contigo e tu ver que sinceramente ela foi tocada pelo filme”.

Por que uma nuvem rosa?

A ótima recepção do público e da crítica – a produção até o momento está com 100% das avaliações positivas no Rotten Tomatoes – não é à toa. Iuli Gerbase não só previu os anos de isolamento, mas foi ainda mais além. O seu conceito de nuvem rosa fala também sobre a forma como as mulheres são vistas na sociedade.

Renata de Lélis dá vida à Giovanna em ‘A Nuvem Rosa’ (Crédito: Divulgação/O2)

“O rosa é sempre ligado às mulheres, desde que somos pequenas. A ideia era que a nuvem fosse uma coisa que se mostra bonita, atraente e sedutora, mas com o passar do tempo vai sufocando a personagem. Tu vê que a nuvem vai forçando a Giovanna a fazer coisas que ela não queria, ter filho, ficar com aquele cara, nunca mais sair de casa. A nuvem é como se fosse um sufocamento daquela personagem, ela faz a personagem seguir os passos da mulher tradicional, algo que ela não queria no começo do filme”, explica a diretora.

Iuli Gerbase completa que personagem feminina é quem sofre mais com a situação em que está inserida. “A nuvem é mais torturante para a mulher do que para o homem, mais pra Giovanna do que pro Yago”. E não só para ela, outras mulheres da história também são mais afetadas pelos efeitos do isolamento.

Dentre as diversas fases que vivemos durante a pandemia, nosso poder de se ajustar às mudanças tem se evidenciado pois cada semana é um novo desafio. Nessa mesma linha, os dois protagonistas de ‘A Nuvem Rosa’ conseguem transmitir bem as principais dificuldades. Enquanto Giovanna está em constante agonia, Yago representa as pessoas que tentam se manter positivas não importa a adversidade.

“Eu gosto muito dos dois personagens, eles reagem de forma diferente a nuvem rosa. Yago tem mil defeitos, claro, mas tem um poder de adaptação grande. Ele começa a ter uma mentalidade de ser grato por sua saúde e família. Ele teve que se adequar para ter uma vida confortável ali, quis ter filho e teve, então o Yago tem essa capacidade de adaptação e ele vai se alienando, não quer saber se tem gente morrendo, o que está acontecendo. Em uma pandemia, preso em casa, você pode se alienar completamente. E ele opta por isso para se manter bem para viver e cuidar do seu filho”, conta a realizadora.

A diretora finaliza ressaltando que é, muitas vezes, difícil se manter informado: “É difícil né? A gente acorda e já vê notícia do Bolsonaro, fica deprimido. Mas sim, tem uns momentos que dá vontade mesmo de se alienar”.

Giovana (Renata de Lélis) e Yago (Eduardo Mendonça) em ‘A Nuvem Rosa’ (Crédito: Divulgação/O2)

Não foi só público, que viu o filme nos festivais e no cinema, que ficou chocado com as construção da história, pois a própria diretora também se espantou quando assistiu:

“Para mim, ver o filme foi estranho. Eu escrevi, dirigi e com dois meses de pandemia, eu fui ver o novo corte e fiquei ‘Meu Deus, que filme é esse? Que coisa absurda’. A pandemia teve muitos momentos muito difícieis, eu foquei em escrever. Ainda bem que tinha isso, pois o trabalho ajuda a passar o tempo e a pandemia ainda não passou, né? Eu foquei no trabalho e tiveram muitos momentos que fiquei como a Giovanna, muito ansiosa para poder sair, ver os amigos, ir em uma festa, viajar e então, com certeza, todo mundo está de saco cheio.”

Com essa elogiada estreia na direção de um longa, já queremos saber os próximos passos de Iuli Gerbase. Por isso, uma boa notícia: ela já está trabalhando em um novo projeto, que ainda não tem título. E o que podemos esperar? “Um sci-fi intimista, minha ideia é continuar com drama e elementos de ficção científica”, entregou a diretora.

Agora, você pode parar tudo que está fazendo e assistir à ‘Nuvem Rosa’. O filme estreou hoje, dia 2 de setembro, no Telecine. Além de estar disponível no streaming pelo selo Première Telecine, tem lançamento simultâneo no no canal pago Telecine Premium, com exibição às 20h.

Saiba aqui mais informações sobre a produção, incluindo trailer e link para assistir online, clicando aqui.

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