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Adiamento do Festival de Cannes é mais uma dura notícia para a indústria do cinema

Os reflexos da pandemia de novo coronavírus poderão ser sentidos, na melhor das hipóteses, até 2021

20 de março de 2020 10:38
- Atualizado em 17 de junho de 2020 12:22

O dia era 25 de maio de 2019. O diretor Bong Joon Ho recebia o mais prestigioso prêmio do Festival de Cannes, a Palma de Ouro, pelo filme ‘Parasita‘. Corta para 9 de fevereiro de 2020. Os mesmos Bong Joon Ho e ‘Parasita’ conquistam o mundo, vencendo o Oscar em quatro categorias – incluindo a de Melhor Filme.

Só que 2021 corre o risco de não ter uma história como essa.

Na noite de quinta (19), os organizadores do Festival de Cannes anunciaram que a edição deste ano não ocorrerá nas datas originalmente programadas, entre 12 e 23 de maio. O motivo, claro, é a pandemia da covid-19 (doença causada pelo SARS-CoV-2, o novo coronavírus), que está fazendo com que países europeus decretem quarentenas e fechem as suas fronteiras. Um festival de cinema, em um cenário como esse, não tem como ocorrer.

No momento, o festival de 2020 está apenas adiado. Os mesmos organizadores afirmaram que estão considerando novas datas, entre o final de junho e o começo de julho. Na China, entre os primeiros casos da doença e os cinemas começarem considerar a reabertura se passaram cerca de quatro meses. Na França, o primeiro caso confirmado foi em 24 de janeiro – e, se os fatos se sucederem da mesma forma, é possível imaginar uma reabertura dos exibidores a partir de final de maio.

O problema é entender como estará a pandemia no resto do mundo. A própria China, agora, está limitando a entrada de estrangeiros justamente para que eles não tragam de volta o novo coronavírus. Um festival como Cannes reúne cineastas, produtores, executivos e jornalistas de todo o mundo em espaços fechados. O fantasma da pandemia poderia voltar.

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Só o tempo vai dizer se será possível realizar o evento dentro da nova previsão.

Bong Joon Ho comemorando a Palma de Ouro de Cannes em 2019 (crédito: divulgação / Festival de Cannes)

Vale ressaltar que o GP de Mônaco de Fórmula 1, que acontece próximo de Cannes no final de maio, foi cancelado de vez. Como motivo, o Automóvel Clube de Mônaco justificou que “a situação atual da pandemia mundial e seu caminho desconhecido de evolução, a falta de compreensão do impacto do Mundial de F1, a incerteza quanto à participação das equipes, as consequências nas diferentes medidas de confinamento adotadas por vários governos em todo o mundo, as reestruturações multinacionais para acessar o Principado de Mônaco, a pressão sobre todas as empresas envolvidas, a equipe dedicada que não pode realizar as instalações necessárias, a disponibilidade da força de trabalho indispensável e dos voluntários necessários (mais de 1500) para o sucesso do evento significa que a situação não é mais sustentável.”

Qual a importância de Cannes?

O adiamento – e, em última instância, o cancelamento – de Cannes é um duro golpe na indústria do cinema mundial.

Há o lado mais visível, que é o dos longas e cutas-metragens selecionados para serem exibidos por lá. Filmes como ‘Parasita’ são vistos por toda a indústria e pela imprensa, ganhando uma grande vitrine antes do lançamento – o que permitirá voos mais altos, como foi no caso da produção sul-coreana.

Não é só isso. Muitos dos filmes exibidos não possuem, ainda, distribuidores em diversos lugares do mundo. É o momento desses direitos serem licenciados, muito até pela expectativa criada no próprio evento.

Toda essa parte de negócios acontece no chamado Marché du Film (“Mercado de Filmes”, em português), que não envolve apenas os títulos que estão sendo exibidos nas salas de Cannes: há filmes para todos os bolsos e gostos, que serão lançados nos cinemas ou disponibilizados nos catálogos das plataformas de streaming de todo o mundo nos meses que virão depois.

Para você ter uma ideia, o Mercado, em 2019, teve cerca de 12.500 participantes de 121 países diferentes, com mais de 4 mil filmes e projetos sendo apresentados.

Sim, tem projetos também: longas que não foram gravados ainda podem ser apresentados, dando a oportunidade para que outros produtores e distribuidores invistam e se tornem sócios das produções antes delas começarem.

‘Parasita’ recebendo a Palma de Ouro de Catherine Deneuve (crédito: divulgação / Festival de Cannes)

Fora isso, existem oficinas, encontros de produtores e até apresentações de plataformas de streaming, fomentando todo um ecossistema do cinema europeu e mundial. Muitos negócios são fechados pelos bares de Cannes, no ambiente de final de primavera e começo de verão na Riviera Francesa.

O adiamento já coloca tudo isso em suspensão, travando ainda mais a indústria cinematográfica entre 2020 e 2021. Um cancelamento, por consequência, deixaria uma lacuna inimaginável.

Maio de 68

Curiosamente, esta não é a primeira vez que o Festival de Cannes enfrenta problemas para acontecer. Em 1968, o evento acabou cancelado na metade.

Na época, estudantes e trabalhadores da França haviam se unido em protestos contra o conservadorismo e o governo de Charles de Gaulle. O movimento cresceu não só entre as classes intelectualizadas (incluindo os cineastas), mas se alastrou pelo mundo no que ficou conhecido como “Maio de 1968”.

Nesse contexto, diversos diretores Carlos Saura e Miloš Forman, retiraram seus filmes da competição oficial de Cannes. Ainda assim, o festival começou – e um grupo de cineastas, incluindo Jean-Luc Godard, Claude Lelouch, François Truffaut, Roman Polanski e Louis Malle, tomaram o Palais des Festivals e interromperam o evento em 17 de maio.

Parte dessa história é contada no filme ‘O Formidável’, de Michel Hazanavicius e com Louis Garrel. Clique aqui para saber onde assistir.