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‘Alemão 2’ “é mais abrangente, é mais plural, e isso é muito legal”, diz Vladimir Brichta

Além de Brichta, Digão Ribeiro e José Eduardo Belmonte falam em entrevista exclusiva sobre os desafios da filmagem e o novo cenário do audiovisual

Matheus Mans   |  
1 de abril de 2022 15:22
- Atualizado em 4 de abril de 2022 15:44

O filme ‘Alemão’, lançado em 2014, é problemático. Feito na correria, apenas em algumas semanas, ele não consegue se aprofundar em temas essenciais ao falar sobre as comunidades do Rio de Janeiro – como o papel da polícia, da comunidade, das milícias. Agora, oito anos depois, o cineasta José Eduardo Belmonte e o produtor Rodrigo Teixeira se juntam novamente para ‘Alemão 2’, longa-metragem que chegou aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 31.

Aqui, a essência é basicamente a mesma: três policiais (Gabriel Leone, Vladimir Brichta e Leandra Leal) sobem o Morro do Alemão, após o projeto de pacificação do lugar falhar terrivelmente, para capturar um dos principais criminosos do tráfico (Digão Ribeiro). Só que as coisas logo saem do controle e os três policiais ficam presos sem saída. Para isso, eles precisam contar com o espaço e com moradores (principalmente a personagem de Zezé Motta) para sobreviverem.

Brichta, Leal e Digão vivem a tensão de uma favela à beira da explosão da violência (Crédito: Divulgação/Manequim Filmes)

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“A ideia de fazer o segundo filme surgiu já no final das gravações do primeiro”, diz Belmonte, em entrevista presencial e exclusiva ao Filmelier. “O Rodrigo queria fazer uma trilogia e a ideia era trazer o personagem do Antônio Fagundes de volta. Começamos a fazer esse roteiro, já com mais presença feminina, só que a realidade foi uma loucura, a história das UPPs [Unidades de Polícia Pacificadora] mudou e não conseguimos acompanhar. Aí, em certo momento, já com problemas de agenda também, o Rodrigo sugeriu de fazer uma história nova, com o Alemão ainda de personagem”.

Um novo Alemão

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Superficialmente, a trama parece a mesma com policiais tentando escapar da violência dentro de uma favela. Só que isso fica só na primeira camada. ‘Alemão 2’ trata de temas relevantes em sua essência. Primeiramente, traz uma constelação de diferentes perfis de policial: começa com a baliza moral daquele grupo (Brichta), parta para aquela que é inexperiente (Leal), para o violento (Leone) e, indo além, com personagens secundários milicianos, corruptos, etc.

Além disso, há uma clara preocupação no roteiro de Thiago Brito, Marton Olympio e Pedro Perazzo em humanizar todos os personagens envolvidos, não só os policiais. Soldado, esse traficante brilhantemente interpretado por Digão Ribeiro, ganha um desenvolvimento raríssimo de se ver. Quando um homem negro, traficante, foi humanizado em um filme, uma notícia, um livro? Ele, aqui, ganha camadas, força, personalidade. Sabemos de verdade quem é Soldado.

“Quando topei [fazer ‘Alemão 2’], topei não só o personagem, mas também o filme. Afinal, temos filmes por aí que são maniqueístas, que reforçam estereótipos. Este aqui é mais abrangente, é mais plural, e isso é muito legal. Sobre o personagem em si, interpreto um policial pragmático e que parece uma polícia possível. Mas aí percebemos que isso não basta. A polícia tem que ser pragmática, mas tem que ter algo de humanidade. Não dá pra virar uma máquina”, diz Brichta ao Filmelier. “Acredito que, aqui, falamos um pouco sobre a polícia possível. Qual polícia nós queremos?”.

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O que mais chama a atenção, porém, é a personagem de Zezé Motta. Enfermeira, estava indo trabalhar quando os policiais exigem que sejam abrigados em sua casa. É a única maneira que veem de escapar dos traficantes que querem matá-los. Os enfrentamentos entre ela e os policiais são fortíssimos – questiona, por exemplo, o que fez os policiais acharem logo de cara que ela era enfermeira e não médica. São pequenas reflexões sociais que pipocam aqui e ali.

Isso é fruto, novamente, de um filme feito com mais calma. Enquanto ‘Alemão’ correu para ficar pronto, a sequência foi pensada com calma. Começou com um roteiro “mais masculino”, bem mais parecido com o primeiro, e foi se transformando. Com isso, se firma como uma verdadeira evolução, não só um repeteco. Reflete questões sobre o tempo de hoje, contemporâneo, além de avançar na discussão sobre a “pacificação” das comunidades cariocas. É uma mudança de tom dos “favelas movies”, que exploram o cenário das comunidades e tudo que acontece por ali.

“O filme foi uma oportunidade de humanizar essas pessoas que existem em nossas vidas”, comenta Digão, ator que, na coletiva de imprensa do longa, contou que mora em uma favela no Rio. “‘Cidade de Deus’ inaugurou, de fato, o ‘favela movie’, trazendo uma perspectiva histórica. Só que depois disso, vimos uma oportunidade de falar daquelas pessoas, daqueles lugares. Mas engessou no lugar irresponsável de entrar nas dores, nas questões, no que causa gatilhos e não falar disso de fato. ‘Alemão 2’ veio com a proposta de adotar essa importante responsabilidade”.

Mudança de cenário

Vale dizer que, além da mudança de tom, ‘Alemão 2’ está estreando em um momento totalmente diferente de mercado se comparado com o primeiro filme. Afinal, ‘Alemão’ estreou em um período de grande valorização do cinema nacional, com muito incentivo e espaço nas telas. Além disso, o cinema tradicional reinava soberano e a Netflix era apenas uma ideia do que viria a ser. Com isso, fez uma bilheteria histórica com mais de 1 milhão de ingressos.

Hoje, quando ‘Alemão 2’ chega aos cinemas, a situação é distinta. Apesar da flexibilização de regras da pandemia, não são todos que se sentem à vontade de ficar no cinema. A bilheteria, enquanto isso, vai bem com filmes-espetáculo.

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‘Alemão 2’ estreia nos cinemas brasileiro em um momento diferente do audiovisual nacional e mundial (Crédito: Divulgação/Manequim Filmes)

“Toda expectativa de um produtor é alcançar o máximo de público que puder arregimentar. Estamos vivendo uma revolução de público, distribuição e produção, mas espero que as pessoas voltem aos cinemas. São mais de 300 salas”, disse Rodrigo Teixeira, produtor do filme, em entrevista coletiva. “Vivemos um momento difícil. É preciso fazer com que as pessoas voltem aos cinemas para ver filme brasileiro. É preciso atingir esse público que formamos ao longo dos anos. Em 2019, teria certeza que passaríamos [de bilheteria]. Em 2022, não tenho como te dar um número”.

Digão Ribeiro vai por um caminho diferente: celebra essas mudanças e acha que, no longo prazo, pode ser positivo para o cinema como um todo. “Não me assusta se a gente não conseguir bater ‘Alemão’ nos cinemas, se o filme tiver uma vida longa depois nos streamings e não nas salas. A gente precisa saber onde a gente quer chegar, como a gente quer alcançar as pessoas em casa. Com essa democratização, afinal, o filme chega em mais lugares”, celebra o ator.

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