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É Tudo Verdade 2022: Mark Cousins fala sobre vida, visão e cinema em filmes de abertura

Diretor irlandês está com os filmes ‘A História do Olhar’ e ‘A História do Cinema: Uma Nova Geração’ no festival

Matheus Mans   |  
31 de março de 2022 12:45
- Atualizado em 1 de abril de 2022 15:59

Diretor, escritor, roteirista e crítico de cinema, o irlandês Mark Cousins é daquelas figuras que falam sobre cinema como poucos. Com um arcabouço teórico impressionante, o astro consegue trazer informações claras para o espectador ou leitor, sempre fazendo analogias para que fique clara sua sensação, opinião ou experiência. E é justamente isso que vemos nos dois filmes de Cousins que abrem a edição de 2022 do festival É Tudo Verdade – que começa hoje, 31 de março, e vai até 10 de abril.

Festa do documentário brasileiro, o festival apresenta ‘A História do Olhar’ e ‘A História do Cinema: Uma Nova Geração’. Cada um, a seu modo, mostra um pouco mais de Cousins: sua visão sobre o mundo, a poesia que acompanha o seu olhar, a interpretação sempre otimista do cinema. Você pode nunca ter ouvido falar no irlandês ou não se interessar muito pelo que ele tem a falar. Mas, mesmo assim, a força de seu cinema chega com força.

Mark Cousins
Diretor Mark Cousins é um dos principais nomes do É Tudo Verdade 2022 (Crédito: Divulgação/É Tudo Verdade)

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Não chegam a ser épicos como ‘A História do Cinema: Uma Odisseia’, nem possuem a importância histórica de um ‘Os Olhos de Orson Welles’. No entanto, funcionam como introdução à Cousins e, também, como bons complementos.

O olhar de Mark Cousins

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‘A História do Olhar’, apresentado online e presencialmente em São Paulo nesta quinta, 31, parece um ponto fora da curva na filmografia de Cousins. O filme, afinal, começa com ele deitado na cama, pouco depois de acordar. Está sem roupas, o ambiente tem pouca iluminação. Aos poucos, ele vai deixando clara a sua intenção: no dia seguinte fará uma cirurgia para reparar uma catarata e, nos preparativos, começa a questionar sua própria visão. O que vê? O que viu?

A partir disso, faz uma espécie de tratado. Simples, sem muita enrolação, sem nenhuma sequência exagerada. Sempre de sua cama. Cousins vai mostrando como a visão é algo importante em nossa rotina, em nossas vidas — assim como sua falta também afeta olhares e percepções. Fala do que já vimos, do vemos e do que vamos ver, em uma só reflexão.

‘A História do Olhar’, assim, se revela como uma trama de intenções profundas, mesmo sem qualquer tipo de complexidades. Ele lê tuítes de seguidores falando sobre o que a visão representa para eles, com reflexões realmente poéticas e profundas; relembra experiências visuais marcantes que teve; pensa o que quer ver antes de sua cirurgia.

Experiência com catarata inspira Cousins em ‘A História do Olhar’ (Crédito: Divulgação/É Tudo Verdade)

O olhar é o protagonista do filme, com Cousins sendo o ponto central da reflexão, a pessoa que traz as provocações, as imagens, os tons, as cores. Aos poucos, Cousins sai de cena e coloca nós, espectadores, no papel da provocação.

A poesia entra e o filme, a partir dessa premissa simples de um homem papeando com a audiência deitado em sua cama, cresce. Mais do que um blá-blá-blá sem fim, com Cousins sofrendo com sua condição, vemos na verdade algo além. A poesia, como sempre, serve como o ponto de transformação, em que o cinema sai do óbvio e parte pro belo.

‘Uma Nova Geração’

Enquanto ‘A História do Olhar’ transpira poesia, ‘A História do Cinema: Uma Nova Geração’ segue por um caminho metódico — mas que não deixa de ser um grande filme de Cousins. O longa-metragem, com suas 2h30 de duração, é mais um complemento à série ‘A História do Cinema: Uma Odisseia’. Depois de falar sobre a história do cinema e a formação da sétima arte, o cineasta fala mais sobre os caminhos do cinema contemporâneo, nos dias de hoje.

Ao contrário da maioria dos críticos, que partem logo para um pessimismo gritante em relação ao digital e as novas formas de linguagem, Cousins apresenta leveza. Ainda que falte um pouco de narrativa e análises mais aprofundadas, além de alguns exageros (como o deslumbramento de Cousins com uma cena de ‘Deadpool’), há uma certa beleza em ver alguém tão experiente empolgado com o que está acontecendo e com o que vem por aí nas telonas.

Além disso, mostra como a crítica e a imprensa especializada, por vezes, é ranzinza demais sem razão de ser. Os cenários estão cada vez mais digitais? Sim, claro. Mas há uma preocupação em avançar, em melhorar. Por outro lado, há um cinema muito bom sendo feito ao redor do mundo: da Itália ao Japão, do Brasil ao Canadá, da China ao Marrocos. Só é preciso ter o olhar de Cousins, já recuperado, e saber como olhar para essa produção massiva.

O cinema, afinal, é a arte do maravilhamento, da beleza, do espanto. Pensar apenas para trás quebra a magia, o torpor. Cousins olha pra frente, para o futuro, para as novas possibilidades. Podemos até não concordar com algumas coisas (como, novamente, a análise entusiasmada de ‘Deadpool’), mas é difícil não perceber como o mau humor afeta negativamente nosso olhar para o todo. O cinema está vivo — e A História do Cinema: Uma Nova Geração’ prova isso.

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