Amazon+MGM

Amazon + MGM: explicando 14 pontos por trás da compra

A Amazon vai parar de cobrar à parte pelo conteúdo da MGM? James Bond vai estrear direto no Prime Video? Vamos ter novos filmes de personagens como Robocop? Responderemos todas as principais dúvidas

1 de junho de 2021 15:22
- Atualizado em 4 de junho de 2021 19:21

Na última semana, a Amazon comprou a MGM, um dos mais tradicionais estúdios de Hollywood, por US$ 8,45 bilhões – cerca de R$ 45 bilhões. Com a aquisição, a empresa (que é dona da plataforma de streaming Prime Video) passou a ter acesso a um vasto catálogo de filmes clássicos e de personagens que podem render novas produções.

No entanto, a movimentação de mercado trouxe inúmeras dúvidas. Afinal, qual será o impacto desse negócio naquilo que importa: a vida de quem assiste a filmes e séries, seja nos cinemas ou online.

Por isso, o Filmelier responde aqui as principais dúvidas sobre a união entre Metro-Goldwyn-Mayer e Amazon – incluindo o destino do catálogo do estúdio, o que muda no Prime Video e o destino de James Bond.

Sean Connery, o primeiro James Bond: a franquia do agente secreto é uma das propriedades da MGM (Foto: divulgação / MGM)

Por que a Amazon comprou a MGM?

O mercado de entretenimento vive, hoje, um período de consolidação. Novas empresas – como Netflix e Amazon – chegaram revolucionando a forma como as pessoas consomem filmes e séries, enquanto os grandes estúdios e grupos de mídia tradicionais estão tentando reagir (alguns com mais sucesso do que outros).

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Digamos que o trunfo dessas empresas que chegaram recentemente é justamente dominar o streaming de vídeo, enquanto as empresas mais tradicionais desse mercado possuem um catálogo vasto de títulos para explorar.

Neste momento atual, os dois lados tentam, de alguma forma, se unir. A Disney, por exemplo, adquiriu a antiga MLB Advanced Media e a indiana Hotstar, resultando nas criações de Disney+ e Star+.

A Amazon foi no sentido oposto: precisava de conteúdo, incluindo nomes de peso, para o seu catálogo. Por isso, a empresa fundada por Jeff Bezos viu na MGM uma oportunidade perfeita: um estúdio combalido, com problemas financeiros, mas também com um catálogo de títulos robusto.

O que a MGM traz para a Amazon? Quais são os filmes e séries?

Ao comprar a MGM, a Amazon agora tem acesso a diversos filmes e séries do passado e mais recentes, além de, como o mercado gosta de chamar, propriedade intelectuais.

Ou seja, há títulos antigos, mas ainda de apelo – além de personagens e histórias que podem render novos filmes e séries.

Entre essas franquias temos ‘Rocky‘, ‘Robocop‘, ‘Stargate’, ‘Tomb Raider‘, ‘Legalmente Loira‘, ‘A Pantera Cor-de-Rosa’, ‘Poltergeist’ (a partir do segundo filme), a de ‘O Silêncio dos Inocentes‘, entre outras. Da divisão de TV chegam ‘Flipper’, ‘The Handmaid’s Tale’, ‘The Voice’ e ‘O Agente da UNCLE’, por exemplo.

E ‘O Mágico de Oz’, agora é da Amazon? E ‘Tom & Jerry’?

Não. Trata-se de uma história conturbada, reflexo do crise da MGM nos anos 1980. Mas, resumidamente, o magnata da mídia Ted Turner adquiriu o estúdio em meados da década, revendendo-o para o antigo proprietário – mas reteve para si grande parte do catálogo da empresa.

Na época, o empresário fez isso por precisar justamente de filmes e séries para a empreitada que tinha na TV paga, por meio da Turner Broadcasting System. Por anos, aquele conteúdo foi reprisado a exaustão em canais como TNT, TBS, TCM e Cartoon Network.

Já em meados dos anos 1990, a Turner foi adquirida pela Time Warner, que passou a ter acesso ao acervo.

Por isso, títulos com o ‘O Mágico de Oz‘, ‘…E o Vento Levou‘, o primeiro ‘Poltergeist’, ‘CHiPs’, ‘Tom & Jerry’ e tantos outros estão, hoje, com a WarnerMedia – e devem pintar no HBO Max e não no Prime Video.

A gente conta um pouco mais dessa história mais para frente, neste mesmo texto.

Como fica o James Bond?

James Bond é, certamente, a joia na coroa da MGM. O personagem, com 24 filmes lançados até aqui, possui uma legião de fãs e é um catálogo de peso.

Acontece que a franquia chega à Amazon com um sócio.

Historicamente, os filmes do personagem são feitos pela Eon, uma produtora britânica fundada por Albert R. Broccoli e Harry Saltzman. Foram eles que, há mais de 50 anos, convencerem o escritor Ian Fleming a vender os direitos do agente secreto.

Hoje, a Eon pertence à holding Danjaq, dona do copyright de tudo relacionado ao 007 – e administrada pelos meio-irmãos e herdeiros Michael G. Wilson e Barbara Broccoli.

Toda e qualquer coisa sobre Bond e personagens relacionados precisa ser aprovada previamente pela Eon e pela Danjaq, que possuem voz final no marketing e até na forma de distribuição dos novos filmes.

Na prática, a MGM é co-proprietária dos 20 filmes filmes do personagem. A partir de ‘Cassino Royale’ até ‘007 contra Spectre’, a Sony (via Columbia Pictures) também tem uma parte. O mesmo acontece com o próximo longa da franquia, ‘007: Sem Tempo Para Morrer’, do qual a Universal é sócia.

É provável que a Amazon consiga, eventualmente, trazer os 25 filmes para o acervo do Prime Video. O problema é em relação a novos produtos com a propriedade intelectual. A Amazon não poderá produzir uma série sobre a Moneypenny sem a benção da Danjaq, por exemplo.

O próximo filme do James Bond, o 25º, será exclusivo do Prime Video?

Nada indica que haverá qualquer mudança na estratégia de lançamento de ‘007: Sem Tempo Para Morrer’, próximo longa-metragem da franquia James Bond.

Trata-se do primeiro filme do acordo de co-distribuição entre Universal Pictures e MGM – que, com a crise que vive há 20 anos, não tem mais força para lançar sozinha filmes no cinema.

James Bond quase foi para Netflix ou para a AppleJames Bond de Daniel Craig em cena de ‘007: Sem Tempo para Morrer’ (Foto: divulgação / Universal Pictures/MGM)

Se não fosse pela pandemia, inclusive, a produção já teria estreado na tela grande. Porém, com medo de perdas financeiras, Danjaq, MGM e Universal optaram por segurar o longa até ser possível lançá-lo – o que, agora, está programado para 8 de outubro.

Nesse período, empresas como Netflix e Apple sondaram MGM e Universal para a aquisição do título, mas a Danjaq, extremamente conservadora esse sentido, não aceitou negociar.

Por isso, mesmo com a chegada da Amazon, é muito provável que ‘Sem Tempo para Morrer’ siga com o lançamento tradicional, nos cinemas, para só depois de algum tempo chegar ao video on demand.

Uma mudança nesses planos certamente envolveria uma compensação financeira para a Danjaq.

A situação, por motivos diferentes, é parecida com a de ‘Creed III’, atualmente em produção. O derivado da franquia ‘Rocky’ é co-distribuído pela Warner Bros. Pictures, que deverá manter o lançamento nos cinemas – a não ser que a Amazon entre em um acordo financeiro com o estúdio.

E depois, como fica o futuro da franquia do 007?

O caso de ‘007: Sem Tempo Para Morrer’ se aplica aos próximos filmes da série. É pouco provável, ao menos nos próximos anos, que Eon e Danjaq aceitem estreias exclusivas no Prime Video.

Além disso, em épocas pré-pandemia, a Amazon Studios tinha por política lançar filmes nos cinemas, mantendo as tradicionais janelas de exclusividade antes do streaming.

Por outro lado, é possível imaginar que a empresa de Bezos tente convencer os sócios a aceitarem períodos curtos de exclusividade na tela grande (chegando ao Prime Video pouco depois) ou estreias simultâneas. O tempo dirá se terão sucesso na empreitada.

Ok, e o resto dos filmes e séries da MGM, entram no Prime Video quando?

Paciência, pequeno gafanhoto. Primeiro, o negócio precisa ser aprovado pelos órgãos regulatórios dos EUA – o que deve ser um processo apenas burocrático, sem eventuais riscos à aquisição.

Depois, precisamos descobrir qual será a estratégia da Amazon para esse conteúdo. Quando e como a empresa irá disponibilizá-lo.

Nessa equação há contratos válidos firmados anteriormente, que podem exigir algum tipo de de exclusividade. Os 24 filmes do 007, por exemplo, estão disponíveis no Brasil via Telecine. Já ‘The Handmaid’s Tale’ está com a ViacomCBS, que a disponibiliza por aqui no Paramount+.

Por fim, há o trabalho técnico. Que pode ou não envolver remasterizações, mas terá certamente o processo de subir, digamos assim, esses filmes e séries na plataforma da Amazon, o que pode ser trabalhoso quando feito em volume.

Por fim, há a localização. Quando falamos em disponibilizar esse conteúdo para os brasileiros, envolve também um trabalho com as dublagens antigas, a necessidade (ou não) de fazer novas legendas, etc.

Como você pode ver, é um processo que deve levar meses, provavelmente muito mais de um ano, para ser concluído.

Ué, pensei que eu ia ter acesso ao canal da MGM no Prime Video sem pagar. Não é isso?

Não.

Como você já deve ter reparado, há diversos canais de outros provedores de conteúdo dentro do Prime Video, vendidos por uma mensalidade à parte. O da MGM é um deles.

Acontece que esse canal é uma iniciativa diferente, uma parceria onde a MGM entra com o conteúdo, que é agregado – adicionado – na plataforma da Amazon, que entra com a plataforma, servidores, cobrança e afins.

Resta, agora, saber qual será o futuro do canal, mas a venda da MGM não quer dizer que a gigante do e-commerce simplesmente irá retirar a cobrança adicional e liberar esse catálogo para todos os assinantes Prime.

Vamos ter novos filmes e séries de Robocop e companhia? Quando?

Sim! Esse é justamente um dos motivos para a Amazon ter comprado a MGM.

Jeff Bezos, fundador e (por enquanto) CEO da Amazon, comentou a aquisição na última reunião anual com os acionistas, que aconteceu no final de março.

A MGM “tem um catálogo vasto e profundo de propriedades intelectuais amadas”, disse o executivo. “E com o talento da MGM e da Amazon Studios, podemos reimaginar esses propriedades para o século XXI. Será um trabalho divertido, e as pessoas que amam histórias serão as grandes beneficiadas.”

A biblioteca de propriedades da MGM inclui o personagem Rocky Balboa, imortalizado por Sylvester Stallone (Foto: divulgação / UA/MGM)A biblioteca de propriedades da MGM inclui o personagem Rocky Balboa, imortalizado por Sylvester Stallone (Foto: divulgação / UA/MGM)

Como podemos ver, a produção de novos filmes e séries é a grande chave do negócio – em um universo no qual a Netflix lança, todas as semanas, cerca de dez novos filmes e temporadas de séries. Ou no qual Disney+, HBO Max e Paramount+ investem em novos títulos com personagens de sucesso no passado.

Prepare-se, então, para uma enxurrada de remakes, reboots e derivados. Podemos ver, exercitando aqui a imaginação, uma nova série do Robocop, um prelúdio de ‘Rocky’ focado em Apollo Creed, uma continuação de ‘Legalmente Loira’, uma nova versão de ‘Stargate’ e por aí vai.

Quando vamos começar a ver esses novos filmes e séries?

Tirando os projetos que já estavam em produção ou pré-produção antes da aquisição, o impacto da Amazon deve demorar a aparecer.

Isso porque os novos donos entrarão no processo de avaliar esses novos projetos, fazer ajustes, separar os recursos financeiros e aprovar. Depois, há todo o caminho para tirar a ideia do papel.

Um processo que, provavelmente, levará por volta de três anos para começar a ser visível para os espectadores.

O Amazon Prime Video vai subir de preço?

Ok, essa talvez seja a pergunta mais difícil de todas. Porém, a Amazon ter comprado a MGM não quer dizer necessariamente que haverá um aumento automático no preço da plataforma de streaming.

Para começar, a Amazon não vende o Prime Video sozinho. Ele faz parte de um pacote maior de serviços, chamado Amazon Prime – que inclui também o Amazon Prime Music e frete grátis no e-commerce, entre outras beneces.

Na prática, trata-se de um pacotão para fidelizar o consumidor. Filmes e séries são o chamariz, mas o que a gigante do e-commerce pretende, mesmo, é que você use o frete grátis para comprar mais e mais produtos na loja online.

Por isso o Amazon Prime possui um valor mensal extremamente baixo, hoje de R$ 9,90. Esse preço é claramente subsidiado. Ou seja, a empresa tem prejuízo a cada assinatura vendida, mas ganha esse valor de volta (e muito mais) quando você se torna consumidor recorrente da loja online e dos outros produtos da companhia.

Por isso, qualquer aumento de valor nessa assinatura certamente envolverá variáveis além da compra da MGM.

Como fica o Telecine, que tem filmes da MGM?

Segue como está.

O Telecine é uma joint-venture de vários estúdios de Hollywood com a brasileira Globo. Entre elas está a MGM, que tem 12,5% do hub de cinema – que possui canais pagos e uma plataforma de streaming operando no Brasil.

Por isso, parte do catálogo do Telecine está construído com títulos da Metro, incluindo a franquia James Bond.

O Filmelier questionou a empresa para saber se já há algum posicionamento sobre o futuro da parceria, que afirmou que “a MGM continua sócia e segue em parceria com o Telecine, disponibilizando seu conteúdo para o catálogo do hub de cinema.”

Ou seja, ao menos no futuro próximo, não há mudanças nesse sentido.

Conta um pouco mais da história da MGM, por favor?

Claro!

A Metro-Goldwyn-Mayer já foi uma dos grandes estúdios de Hollywood. Criada em 1924 a partir da fusão de Metro Pictures Coporation, Goldwyin Pictures e Louis B. Mayer Pictures, a empresa era um dos “cinco grandes” da Era de Ouro do cinema norte-americano.

Clássicos como ‘O Mágico de Oz‘ e a série de curtas animados ‘Tom & Jerry’ colocaram o famoso personagem Leo, the Lion e o seu rugido no imaginário popular de gerações.

Já nos anos 1970, firmou uma parceria de distribuição com a United Arts, que seria adquirida de vez no começo da década seguinte. Dessa forma, trouxe para o seu guarda-chuva os filmes do personagem James Bond e de Rocky Balboa.

No entanto, uma série de administrações desastrosas e o fim do chamado “studio system”, com a proibição de distribuidores serem donos de salas de cinemas nos EUA, foram aos poucos levando a MGM ao declínio.

Um dos maiores exemplos dessa fase é o envolvimento do investidor Kirk Kerkorian, que comprou o estúdio e emprestou o seu nome para o famoso cassino e hotel de Las Vegas. Depois, o grupo foi vendido para Ted Turner, que, por conta do grande volume de dívidas da MGM, revendeu a empresa para a Kerkorian.

No entanto, nessa transação, Turner manteve para si boa parte dos clássicos da MGM. Hoje, o catálogo (incluindo ‘O Mágico de Oz’) está com a WarnerMedia, que comprou a Turner Broadcasting System em 1996. Já os antigos estúdios da MGM em Culver City, Califórnia, foram vendidos e estão atualmente nas mãos da Sony.

Estúdios da Sony/Columbia em Culver City: o local era, anteriormente, da MGM (Foto: Renan Martins Frade)

Em 2010, a MGM entrou com um pedido de falência – ou, como é chamado em sua versão dentro da legislação brasileira, um pedido de recuperação judicial. A empresa vem desde então tentando se reerguer, inclusive por meio de parcerias com outros grandes estúdios para a distribuição de seus filmes – houve acordos com Sony, Warner e Universal.

Por último, como fica o futuro da MGM após a aquisição?

Como você viu na resposta anterior, a MGM teve diversos altos e baixos em sua história – e, no mundo que se desenha com a consolidação do streaming, perigava desaparecer, ao menos em relevância.

Na Amazon, o estúdio ganha um forte financiador para suas franquias, e um caminho de distribuição que havia perdido nas últimas décadas.

Há, no entanto, um risco. A empresa de Seattle já tem um estúdio e faz sentido consolidar a MGM nele, mantendo as três letras e a vinheta de Leo, the Lion, como um selo dentro da Amazon Studios.

Dessa forma, a Metro-Goldwyn-Mayer continuaria existindo apenas como uma marca, no máximo como uma empresa que existe no papel, dona de copyrights de personagens icônicos. É o que aconteceu com a clássica Hanna-Barbera, por exemplo.

Ou a MGM pode manter a sua independência, funcionando, mesmo que em menor grau, de forma separada. Um exemplo de sucesso nesse sentido é o da Pixar, ainda que esta seja muito mais criativa e produtora do que a Metro jamais foi.

Vamos ver o que acontece.

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