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‘Através da Minha Janela’ reconfigura estereótipos, ainda que seja o mesmo clichê de sempre

Dirigido por Marçal Forès, a nova produção da Netflix é baseada no romance da escritora venezuelana Ariana Godoy

5 de fevereiro de 2022 11:50
- Atualizado em 8 de fevereiro de 2022 09:04

Compartilhar senhas de wi-fi, de fato, tende a aproximar as pessoas. E é com essa premissa inicial que rapidamente somos introduzidos ao enredo fumegante de ‘Através da Minha Janela’, produção espanhola que estreou na Netflix na sexta-feira, 10. Inspirado no romance homônimo da autora venezuelana Ariana Godoy, a história foi publicada pela primeira vez de forma independente na plataforma Wattpad, em 2016. 

Dirigido por Marçal Forès, de maneira bem à la “Girl Next Door”, conhecemos Raquel (Clara Galle) e Ares (Julio Peña), dois belos adolescentes que poderiam tranquilamente ser atraídos um pelo outro – mas é claro que não seria fácil assim. Isso porque os dois, embora morando um ao lado do outro, são de classes sociais totalmente diferentes. 

Porém, este fato não impede o crescente interesse por parte de Raquel, que desenvolve uma obsessão pelo garoto. Levemente amedrontador, mas certamente menos assustadora que Joe Goldberg, da série ‘You’, a menina mantém uma pasta cheia de fotos e informações sobre Ares em seu computador. Além de, obviamente, sempre observar o que pode por meio de sua janela e o seguir ocasionalmente. 

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No entanto, o segredo de Raquel logo cai por terra. Quando ela encontra Ares usando o seu wi-fi – atitude também questionável por parte do “mocinho” – e o confronta, ele revela que já sabe da fixação dela.

E é aí que começa o jogo gato e rato de sedução.

'Através da Minha Janela' reconfigura estereótipos, mas ainda é o mesmo clichê previsível de sempre
Clara Galle e Julio Peña são os protagonistas de ‘Através da Minha Janela’ (Crédito: Divulgação/Netflix)

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Não é necessário dar nenhum spoiler para que vocês saibam exatamente o que acontece em ‘Através da Minha Janela’, afinal, já assistimos a essa história milhares de vezes. 

Tirando todo o aspecto ‘Cinquenta Tons de Cinza’ da produção, que faz questão de enfatizar inúmeras vezes a grande, rica e poderosa empresa dos Hidalgo, pais de Ares, as semelhanças com o filme de Christian Grey param por aí. Seria mais assertivo comparar os personagens principais dessa história com Hardin e Tessa, da saga ‘After’ – também baseada em um livro da mesma plataforma de fanfiction. 

“Eu sou a garota
mais interessante
que você já conheceu.”

O badboy de corpo malhado, marrento, que tem aversão a namoro e é dono de um passado turbulento. A garota que está fora de alcance, estudiosa, diferente das outras meninas, interessada em paixões duradouras e que acredita no poder de transformação do amor. Esses dois polos se colidem e geralmente começam sua jornada de descobrimentos, regadas à aventuras sexuais do florescente desejo juvenil. 

Na grande parte das produções cinematográficas e literárias, esses dois arquétipos são insistentemente os mais comuns para os casais adolescentes heteronormativos da ficção. Tal tendência, além de ser bem pouco representativa, também induz mulheres nessa mentalidade prejudicial e reafirma aquela realidade como o ideal a ser alcançado: mesmo que o seu parceiro te trate mal inicialmente e mesmo que você se sinta objetificada, está tudo bem lidar com esses desrespeitos; pois no final, pela força do amor, com você ele vai mudar e ser diferente.

Dessa forma, é evidente que uma variação disso transparece em ‘Através da Minha Janela’. Porém, essa produção espanhola surpreende ao transfigurar aspectos desse cenário dos clichês românticos.

‘Através da Minha Janela’ é uma adaptação do livro de Ariana Godoy, publicado pela primeira vez no Wattpad (Crédito: Divulgação/Netflix)

‘Através da Minha Janela’ e a cultura sexual positiva 

Ao invés de introduzir mais uma protagonista reticente e insegura ao se tratar do universo das paixões e do sexo, ‘Através da Minha Janela’ mostra uma tendência mais positiva em relação ao prazer feminino. 

Sem medo de verbalizar o que quer, Raquel está totalmente influenciada por uma cultura sexual positiva, isto é, uma atitude em relação à sexualidade humana que considera todas as atividades sexuais consensuais como fundamentalmente saudáveis e prazerosas. Além de que, essa filosofia encoraja o prazer sexual e a experimentação – essenciais para a saúde e segurança feminina.

Também é essencial citar o excelente desempenho de ambos os atores principais, Julio Peña, conhecido pela série ‘Bia’, e a iniciante Clara Galle. A química e a sensualidade, sempre aperfeiçoada pelas produções latino-americanas e espanholas, são características que conferem ainda mais naturalidade para o casal.

Os suaves movimentos de câmera, a trilha sonora e os tons delicados de neon iluminam as cenas de sexo com precisão: ora quase idílica, ora tendendo mais para o sedutor. O toque do diretor Forès, que tem experiências com produções mais eróticas como ‘Amor Eterno’ (2014), é balanceado, embora busque explorar bem mais a nudez feminina que a masculina (como de costume).

Por mais que a indústria pareça cada vez mais agir em bloco, apostando sempre nos sucessos infalíveis dos algoritmos e transformando qualquer mudança em receita de bolo, ‘Através da Minha Janela’ ainda é um motivo a se comemorar. Afinal, é mais uma produção de língua espanhola ganhando aclamação em um mercado maioritariamente norte-americano. Afinal, é mais uma história escrita por uma mulher ganhando notoriedade e sendo adaptada para o cinema.

Sempre há motivo para comemorar.

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