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‘Belfast’ é mais um filme que mostra o olhar de crianças sobre a História

Por um lado, longa-metragem traz a beleza do olhar do menino Buddy; por outro, há uma simplificação exagerada da história da Irlanda do Norte

Matheus Mans   |  
10 de março de 2022 17:52
- Atualizado em 11 de março de 2022 20:02

Às vezes, a simplicidade do olhar de uma criança para um fato histórico diz muito mais do que quando nós, adultos formados, olhamos para esse mesmo fato. Afinal, ela não carrega preconceitos e ideias pré-concebidas que podem contaminar uma reflexão. É exatamente essa a beleza (e a fragilidade) de ‘Belfast’, drama semiautobiográfico dirigido por Kenneth Branagh, indicado ao Oscar e que chega aos cinemas brasileiros hoje, quinta-feira, 10 de março.

Essencialmente, o longa-metragem é um meio do caminho entre ‘Roma‘ e ‘Jojo Rabbit‘. Não apenas pela semelhança do preto e branco com o filme de Alfonso Cuarón ou pelo mesmo protagonismo infantil do longa-metragem de Taika Waititi. Mas sim por algo maior: ‘Belfast’ é um retrato vívido, ainda que um tanto quanto lúdico e sonhador, da infância de Branagh na Irlanda do Norte, em uma época em que os católicos começaram a ser perseguidos em todo o país.

Buddy é a alma e o foco da história de ‘Belfast’, que traz discussões profundas sobre a Irlanda (Crédito: Divulgação/Universal Pictures)

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O grande diferencial, como já dito lá no começo do texto, é que esse conflito não é tratado de uma maneira convencional. Tudo passa pelo olhar sensível e infantil de Buddy (Jude Hill), esse menino que não consegue entender o motivo de seus compatriotas terem tanto ódio direcionado. O que seus vizinhos fizeram? Oras, são apenas católicos! A partir disso, é traçado o drama com Buddy, pais (Caitriona Balfe e Jamie Dornan) e avós (Judi Dench e Ciarán Hinds).

A beleza de ‘Belfast’…

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O principal ponto positivo do longa-metragem é como Branagh faz tudo com muita paixão, muita verdade e, acima de tudo, muito sentimento. O cineasta sabe como tratar Buddy, seu eu mirim, a partir dos dramas externos. Mas, até mais do que Buddy, Kenneth Branagh sabe como olhar com carinho para seus pais e avós. A maneira como a avó Granny é tratada talvez seja a maior homenagem que o diretor poderia fazer à matriarca da família por meio da sétima arte.

Além disso, assim como em ‘Jojo Rabbit’, o fato de uma criança olhar para o mundo ao seu redor em período de crise traz uma inocência que revitaliza. Buddy, assim como Jojo, não entende tanto ódio, tanta raiva, tanto rancor. O que mudou nessas pessoas, que perseguem católicos, que matam, que aterrorizam, que interrompem a vida de pessoas? É uma bela carta de amor de Branagh, que vem do passado, passa pelo filme presente e chega até as pessoas no futuro.

Há uma boa direção de Branagh aqui também. Uma das primeiras cenas, em que irlandeses atacam católicos enquanto estes apenas viviam tranquilamente suas vidas, é fortíssima. A câmera girando ao redor de Buddy dão a sensação de desorientação. Causa tontura, desespero e, acima de tudo, uma preocupação: o que essa criança fará para sair disso?

Grande parte dessa beleza também passa pelas atuações. Jude Hill acerta em cheio no seu longa-metragem de estreia como um menino tentando desbravar e entender o mundo ao redor – enquanto os pais, também bem interpretados por Balfe (‘Outlander’) e Dornan (‘Cinquenta Tons de Cinza’) buscam proteger os dois filhos de todo o mal do mundo.

Só que o coração de ‘Belfast’ é Dench (‘Shakespeare Apaixonado’) e Hinds (‘A Mulher de Preto’). A dupla, ainda que não apareça tanto, são como bons avós: servem como um meio-termo entre a beleza infantil de Buddy com a dureza do mundo ao redor. Eles admitem que coisas boas não estão acontecendo, mas tentam suavizar para não pesar demais nos ombros do menino. Não tem coisa mais bonita do que isso? A beleza de uma família que cuida, protege?

…e seus problemas

Assim, já deu pra entender que ‘Belfast’ é, sim, um filme verdadeiro, gentil e feito com sentimento. Certo? Muito bem. Agora, temos que falar do outro lado, dos problemas do longa-metragem. O primeiro, e mais imediato, é essa questão que já vem sendo discutida desde ‘Jojo Rabbit’: a infantilização de certos fatos históricos. Ao mesmo tempo que passa a inocência, o protagonista criança, quando olha para um momento como este, também simplifica demais a equação.

Afinal, o conflito interno começou ainda no século XII e muitas pessoas morreram perseguidas, acuadas e com medo. Ao colocar toda essa história nos olhos de uma criança irlandesa protestante, a situação é simplificada demais, diminuída. Será que é justo, com a história dos católicos na Irlanda do Norte, colocar um conflito tão importante sob o olhar de uma criança protestante? Tudo bem que ele e sua família sofreram, mas com a simplificação, tudo fica raso.

Falta, por exemplo, a pungência de ‘Roma’ em uma história que exige um pouquinho mais de cuidado. Faltou ouvir mais o “outro lado”, mostrar um pouco mais o que os católicos sofreram em anos de perseguição – mesmo que fosse em uma fala mais didática do avô, por exemplo.

Chegamos em um momento em que a História precisa ser contada corretamente, mesmo que com mais sutileza. Faltou isso para ‘Belfast’: muito atenção ao “eu” e pouca ao redor.

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