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‘The Batman’ é a tocha que ilumina a escuridão do mundo

O filme, com sessões nos cinemas a partir de hoje (1º), ressignifica o herói em um momento no qual é preciso pensar sobre como nossas ações inspiram os outros

1 de março de 2022 13:11
- Atualizado em 18 de abril de 2022 17:14

“Batman é um personagem muito grande, um diamante multifacetado como qual você pode fazer qualquer coisa e fazer isso funcionar”, definiu o famoso roteirista Frank Miller (da HQ ‘O Cavaleiro das Trevas’) em um painel sobre os 75 anos do personagem, realizado na San Diego Comic-Con de 2014. “Você pode fazer comédia, você pode fazer programas de TV no estilo camp, você pode fazer a versão mais sombria possível – é como aquele diamante. Você pode atirar contra as paredes, você pode jogá-lo contra o teto e não vai quebrar. Tudo funciona.” 

Está em cartaz nos cinemas e já disponível no streaming (incluindo na HBO Max, sem custos adicionais) a mais nova lapidação desse diamante. ‘Batman‘ (ou ‘The Batman’, no original) é a visão do diretor Matt Reeves (‘O Planeta dos Macacos: A Guerra‘) para esse personagem hoje octogenário, mas que ainda fascina e movimenta inúmeras pessoas em todo o mundo.

Afinal, quem não conhece o Batman?

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Até por isso, lidar com o diamante descrito por Frank Miller é o enorme desafio. Vítima da máquina avassaladora da indústria do entretenimento, não é permitido ao Cavaleiro das Trevas descansar. Só nos cinemas o herói teve outras duas versões nos últimos 16 anos.

O que trazer de novo? Será que há algo de diferente para extrair nessa joia? Algo reconhecível por todos, mas ao mesmo tempo com algum frescor?

A resposta curta: Matt Reeves conseguiu cumprir com esse desafio, entregando um longa-metragem que é substancialmente diferente dos outros para justificar a sua existência, enquanto consegue honrar todo o legado do personagem da DC.

Mais do que isso: talvez ele tenha criado o Homem-Morcego que precisamos nesse momento sombrio da humanidade.

'Batman', com a terceira interpretação do herói em cerca de 15 anos, consegue trazer novidades para o já desgastado segmento de filmes de super-herói (crédito: divulgação / Warner Bros.)
‘Batman’, com a terceira interpretação do herói em cerca de 15 anos, consegue trazer novidades para o já desgastado segmento de filmes de super-herói (crédito: divulgação / Warner Bros.)

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Para começar, o cineasta não teve medo das escolhas polêmicas. Ele, com apoio dos executivos da Warner Bros., escalou Robert Pattinson para o papel-título. O inglês é, sem dúvida alguma, um dos atores mais completos de sua geração, com uma profundidade dramática que pode, sim, ser equilibrada com o vigor necessário para colocar medo nos corações supersticiosos dos criminosos de Gotham City.

Porém, Pattinson, tem um “passado sombrio” por si só, na visão de muitos: ter interpretado o vampiro Edward Cullen em ‘A Saga Crepúsculo‘. Um único e rápido comentário sobre o assunto: superem isso.

A escolha do ator principal é o ponto de partida para esse mergulho diferente na mitologia do herói. O longa não procura contar uma história de origem, aquela que já vimos no ótimo ‘Batman Begins‘. Em ‘Batman’, encontramos o Cruzado Encapuzado já com dois anos de atuação nas ruas e becos de Gotham.

A sequência de abertura – uma das melhores do filme – ajuda a definir esse clima do restante da produção, colocando o herói como já cansado e se questionando se está realmente fazendo a diferença na cidade. Há medo entre os criminosos, mas quem teme – e apanha mais – são aqueles pequenos, nas ruas, que também são vítimas de todo o sistema.

Os poderosos continuam em suas torres, seus clubes, suas manipulações, dinheiro e esquemas.

Bebendo de novas referências

A partir disso, a história ganha corpo a partir de grandes inspirações dos gibis do personagem. São duas as mais relevantes.

A primeira é ‘O Longo Dia das Bruxas’, arco das HQs em 13 partes publicadas entre 1996 e 1997. Na história, assinada por Jeph Loeb (que, depois, chefiaria a Marvel Television) e Tim Sale, acompanhamos justamente o segundo ano de atuação do Batman, dando sequência aos eventos de ‘Batman: Ano Um’ (a clássica história de Frank Miller).

Do gibi, Reeves e o roteirista Peter Craig pegam emprestado esse enredo da máfia de Gotham, e da relação corrupta entre crime e poder – isso enquanto uma série de assassinatos começam a acontecer.

Outra clara inspiração é ‘Batman: Ano Dois’, escrita por Mike W. Barr e assinada por diversos artistas, com publicação em 1987. Também uma continuação de ‘Ano Um’, o arco explora como ainda os fantasmas da morte dos pais assombram Bruce Wayne, enquanto um justiceiro surge em Gotham para fazer justiça – sanguinária – com as próprias mãos.

Há, ainda, outras referências – como a da própria ‘Ano Um’ e da fase do roteirista Scott Snyder e do artista Greg Capullo nas publicações mais recentes da DC, seja na apresentação do herói em si como em elementos que podem ser abordados em futuras continuações.

Com desenvolvimento cadenciado, 'Batman' desenrola uma intrincada investigação criminal que lembra 'Chinatown', de Roman Polanski, e 'Se7en', de David Fincher (crédito: divulgação / Warner Bros.)
Com desenvolvimento cadenciado, ‘Batman’ desenrola uma intrincada investigação criminal que lembra ‘Chinatown’, de Roman Polanski, e ‘Se7en’, de David Fincher (crédito: divulgação / Warner Bros.)

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No caldeirão de Reeves, isso tudo se reúne em uma história centrada no Charada – em uma interpretação incrível de Paul Dano (‘Sangue Negro’). Das sombras, o vilão começa a perpetuar uma série de crimes contra grandes autoridades de Gotham e manipula Batman para o seu jogo.

Dessa forma, desenvolve-se um filme que queima lentamente. Com clara inspiração nos procedurais (como ‘CSI’ e ‘Law & Order’) e em filmes dos anos 1970 como ‘Conexão Francesa’ e ‘Chinatown’ – e que lembra o trabalho do diretor David Fincher (‘Zodíaco‘, ‘Se7en: Os Sete Crimes Capitais‘) -, a investigação vai se desenrolado aos olhos do espectador enquanto Batman, James Gordon e Alfred se empenham nas pistas deixadas pelo Charada.

Dessa forma, não temos um filme de ação convencional como poderíamos esperar. Esqueça, por exemplo, o Batman do diretor Christopher Nolan, aquele da trilogia ‘O Cavaleiro das Trevas’. O peso do herói está em sua presença, na voz, no caminhar, no olhar. Reeves sabe usar o trunfo que tem na manga: um bom ator por debaixo do capuz.

É por isso que temos, aqui, o Batman mais detetive já visto nos cinemas – talvez ainda não faça jus ao personagem que conhecemos nos gibis dos anos 1970, principalmente na fase de Dennis O’Neil e Neal Adams (e que recebeu a alcunha de “Detetive” do maior vilão dessa época, Ra’s al Ghul), mas é excitante ver o herói quebrando a cabeça e se empenhando em solucionar um mistério tão grande.

Em Batman, Reeves traz uma interpretação diferente do Batmóvel em relação aos filmes de Christopher Nolan - e, ainda assim, é memorável (crédito: divulgação / Warner Bros.)
Em ‘Batman’, Reeves traz uma interpretação diferente do Batmóvel em relação aos filmes de Christopher Nolan – e, ainda assim, é memorável (crédito: divulgação / Warner Bros.)

Isso não quer dizer que as cenas de ação não estejam lá. Inclusive, o fato de serem menores em quantidade faz com que aquelas existentes sejam memoráveis, Cinema com “c maiúsculo” mesmo – que podem até soar pretenciosas, mas tudo cabe no Batman.

Destaque para sequência do Batmóvel, que é guardado na manga como trunfo para uma cena que, certamente, entrará na iconografia do Homem-Morcego.

A Gata, o Morcego e a cidade

Ao se procurar um filme de queima lenta, as atuações precisam segurar tudo – e é o que acontece aqui.

A essa altura, já está bem claro que o Cavaleiro das Trevas é tão grande quanto aqueles com quem divide a cena. Além do ótimo Charada de Dano, ‘Batman’ ganha corpo com ótimas atuações de Jeffrey Wright como James Gordon, John Turturro como o mafioso Carmine Falcone, Colin Farrel irreconhecível como Oswald Cobblepot (o Pinguim) e Andy Serkis como um Alfred extremamente relacionável.

Com um elenco tão forte e de peso dramático, Reeves não tem medo de evoluir com conceitos já desgastados do herói. A relação entre Alfred e Bruce finalmente se aprofunda, por exemplo, enquanto que o fantasma da morte dos pais do protagonista finalmente é superado, ainda que parcialmente.

Zoë Kravitz merece um parágrafo apenas para ela. A atriz rouba a cena para si como Selina Kyle. E digamos que esses não eram botas confortáveis para vestir: a vilã e anti-heroína já teve versões icônicas vividas por Michelle Pfeiffer e Anne Hathaway. Porém, como fez com o personagem principal, Reeves procura outras referências para a coadjuvante: aqui há claras inspirações não só em ‘Ano Um’ e ‘O Longo Dia das Bruxas’, mas na versão da Mulher-Gato iniciada nas HQs no começo dos anos 2000, por Ed Brubaker e Dawyn Cooke.

A química entre o Batman de Pattinson e a Mulher-Gato de Zoë Kravitz é um dos grandes acertos do longa (crédito: divulgação / Warner Bros.)
A química entre o Batman de Pattinson e a Mulher-Gato de Zoë Kravitz é um dos grandes acertos do longa (crédito: divulgação / Warner Bros.)

Tudo isso é envelopado por um design de produção (de Grant Armstrong, de ‘Os Miseráveis‘) direção de arte (supervisionada por James Chinlund, de ‘Réquiem para um Sonho’) e fotografia (de Greg Fraser, ‘Duna‘) que elevam ainda mais o conceito de “gótico” em Gotham City, com um tom diferente do da versão de Nolan, por exemplo.

Se antes eram as ruas, áreas públicas e cortiços que eram retratados como decadentes, em ‘Batman’ o decrépito também está no exagero gótico e na falta de gosto da elite, acompanhada por uma camada de pó típica de quem ainda vive das glórias do passado.

A trilha sonora de Michael Giacchino fecha essa busca pelo frescor em meio às trevas, com novos acordes e movimentos dentro da mitologia do herói. O tema principal do longa, que se espalha por suas quase 3h de duração, reflete essa ideia de “queima lenta”, com melodias que tentam, ao mesmo tempo, trazer medo, suspense, coração e esperança.

O Batman que precisamos?

É difícil dizer que, ao se completar dois anos de pandemia e com uma guerra acontecendo na Europa, um herói que veste preto e causa medo, com inspirações sombrias e até fascistas, pode ser aquilo que precisamos no mundo. Porém, é aqui que Reeves mais surpreende em seu conto.

O cineasta, se você lembrar bem, já havia misturado mensagens importantes – e até políticas – em seu trabalho antes, principalmente na franquia ‘O Planeta dos Macacos’. Em ‘Batman’, o nova-iorquino faz isso novamente, ainda que de maneira muito mais sútil.

Dessa forma, começamos a história do novo longa com o Cruzado Encapuzado claramente enfrentando a base da pirâmide do crime. O Charada surge então não como agente do caos (que foi o Coringa em ‘Batman: O Cavaleiro das Trevas‘), mas sim como o responsável por mudar o olhar do herói.

Ainda que de forma distorcida, o vilão de Paul Dano nos faz questionar a estrutura de poder da sociedade, de como a maioria das pessoas é marionete de um sistema muito maior.

Pior: o antagonista também nos faz perceber que existe uma mensagem maior do que aquela que imaginamos. É importante dizer algo, mas também não temos controle de como essa mensagem ira ressoar nos outros. Ao semear dor e vingança, como o Batman faz, o que será que vamos colher?

Em mais de um momento, o Batman de Pattinson se vê confrontado pela imagem que projeta ao mundo (crédito: divulgação / Warner Bros.)
Em mais de um momento, o Batman de Pattinson se vê confrontado pela imagem que projeta ao mundo (crédito: divulgação / Warner Bros.)

“[Trazemos] a noção de que projetar a imagem da vingança – a ideia de ser um vigilante mascarado na cidade – poderia ter efeitos inesperados. E [o Batman] tenta descobrir o porquê, depois de dois anos disso, a criminalidade não cai. E ele não se toca que pode ser parte disso. E isso absolutamente veio dos quadrinhos”, explicou Reeves na coletiva de lançamento do longa-metragem.

Aliás, o Charada da visão de Reeves representa – e muito – o que vemos hoje espalhado pelo mundo e pela internet, dos seus trolls, incels e toxicidades. A angustia do vilão, da invisibilidade de parte da sociedade, também pode ser aplicada a diversos contextos, indo das enchentes pelo Brasil em 2021/2022 ao que ocorre na Ucrânia e nas outras guerras pelo mundo.

Há muito mais metáforas no roteiro do que o seu olhar irá perceber em um primeiro instante. Por isso, vale refletir sobre o longa mais de uma vez após assisti-lo.

A partir disso, ‘Batman’ ressignifica o Cavaleiro das Trevas. Já em seu último ato, é o herói que segura a tocha (na figura de um sinalizador) e ilumina – ainda que com a luz vermelha, quente ainda que sombria – o caminho, estendendo a mão. Essa cena é de uma beleza ímpar não só por sua fotografia, mas pelo que diz imageticamente.

Nesse novo mundo que se desenha a cada dia, não precisamos de quem dá socos primeiro e pergunta depois. De quem mata sem escrúpulos. De quem julga o próximo sem entender quem ele é, o que ele viveu. De quem marca criminosos para que morram na cadeia.

Precisamos de tochas na escuridão. Precisamos de inspiração. Precisamos de esperança. Precisamos, surpreendentemente, do Batman de Robert Pattinson.

Tenho certeza que nem Frank Miller esperava por essa.

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