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‘Belle’: O lado positivo da internet

O mais recente longa-metragem do realizador Mamoru Hosoda, ‘Belle’, oferece uma reinterpretação relevante de ‘A Bela e a Fera’ para os nossos tempos

Lalo Ortega   |  
10 de março de 2022 13:19
- Atualizado em 11 de março de 2022 11:53

Atualmente, é difícil definir a Internet em termos simples. Para alguns, é uma rede infinita de informações. Para outros, é um refúgio onde podem se sentir seguros consigo mesmos por trás de uma máscara virtual de anonimato. Para alguns, é um lugar para desabafar toda a raiva e frustração, muitas vezes com resultados desagradáveis. Em ‘Belle’ – novo longa-metragem de Mamoru Hosoda que já está disponível para compra e venda nas plataformas de streaming – a internet é um mundo fantástico que reúne todas essas coisas ao mesmo tempo.

Não seria a primeira vez que o aclamado realizador japonês mergulha na dualidade do mundo digital e do mundo real: já o fez em ‘Guerras de Verão’, de 2009, o seu segundo longa-metragem com o estúdio de animação Madhouse (que, como fato curioso, é inspirado na trama de ‘Digimon Adventure: Our War Game!’, também dirigido por ele no início de sua carreira).

Nele, um jovem gênio matemático é falsamente acusado de invadir um mundo virtual por uma inteligência artificial sádica. Tudo isso enquanto passa um fim de semana com uma garota da escola, que pede para ele se passar por seu namorado em uma reunião de família que tem seu próprio emaranhado dramático. Provavelmente é a produção cuja narrativa está mais dispersa em sua filmografia, até o momento.

Suzu, a protagonista retraída de Belle (Crédito: Divulgação/BF Distribution)
Suzu, a protagonista retraída de ‘Belle’ (Crédito: Divulgação/BF Distribution)

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Em ‘Belle’, Hosoda revisita esses mundos digitais para um drama muito mais focado em sua protagonista. A história segue Suzu, uma adolescente que tinha uma relação muito próxima com a mãe, que apoiou seu talento para cantar e escrever músicas. No entanto, ela morre tentando salvar outra criança durante uma inundação, deixando Suzu ressentida por “abandoná-la”, tornando-se retraída e incapaz de cantar novamente.

Isso é até que Suzu descobre “U”, um mundo virtual popular onde os usuários experimentam através de avatares conhecidos como “AS”. Cada “AS” está vinculado às informações biométricas dos usuários, permitindo que eles se comuniquem, vejam, ouçam e sintam como se estivessem lá (a tecnologia para isso é um pouco ambígua, mas imagine algo como ‘Jogador Nº 1’, embora muito menos complicado) .

Nesse tipo de metaverso hiperdesenvolvido, Suzu se apresenta como seu avatar Bell (“sino” em inglês, e também o significado de seu nome real em japonês) que, exceto por algumas sardas estilizadas, é o extremo oposto de sua dona. No entanto, através dela, Suzu redescobre sua paixão por cantar e, da noite para o dia, se torna uma sensação global da internet. Seus fãs começam a chamá-la de Belle (“linda”, em francês).

Ela logo se torna o centro de grandes shows que atraem a atenção de internautas de todo o planeta, enquanto na vida real ela permanece insegura e incapaz de se conectar com os outros, protegendo zelosamente sua identidade.

Porém, tudo muda quando, em um de seus shows, um feroz avatar de uma figura monstruosa chamada Dragon (“dragão”, em inglês) irrompe – a quem outros simplesmente chamam de “fera” – e acaba sendo perseguido por um grupo de vigilantes que procuram revelar sua verdadeira identidade dentro de “U”, como punição por supostamente arruinar a paz do mundo virtual. Intrigada, Suzu tenta descobrir quem ele é e se aproximar dele.

Há muito o que digerir (e, às vezes, pode parecer que ‘Belle’ sofre da mesma dispersão narrativa de ‘Guerras de Verão’). Há temas como luto e abandono, insegurança, identidade e anonimato na Internet, além de outros que serão vistos mais adiante, como assédio virtual e abuso doméstico.

No entanto, Hosoda os filtra todos através de uma reinterpretação inteligente do clássico ‘A Bela e a Fera’, sob a perspectiva da versão da Disney, pelo menos (curiosamente, ‘Belle’ foi projetada em colaboração com o animador e designer sul-coreano Jin Kim, que trabalhou com a Disney em filmes como ‘Enrolados’ e ‘Frozen: Uma Aventura Congelante’, então seu visual de princesa da Disney não é por acaso).

Com isso, esta é provavelmente a versão mais relevante da história para os nossos tempos.

O mundo caótico de ‘Belle’

Visualmente, este filme de Hosoda é tão barroco e colorido quanto sua exploração inicial de mundos digitais, se não mais. Em ‘Belle’, O metaverso de “U” é apresentado de forma quase idêntica a “Oz”, o mundo virtual de ‘Guerras de Verão’, cujos “habitantes” (todos eles de formas e cores únicas) flutuam pelo espaço sem limites.

Cada avatar, ou “AS”, é único, e nenhum usuário pode ter mais de um, pois estão vinculados às suas informações biométricas. Eles também são mais do que apenas representações visuais de suas aparências físicas na vida real: eles também são símbolos de seus talentos, pensamentos e sentimentos, para melhor ou para pior.

'Belle': o lado positivo da internet
Belle’ consegue representar visualmente o caos computacional da internet (Crédito: Divulgação/BF Distribution)

Assim, quando Suzu/Bell entra em “U” – e nós com ela – encontramos uma imensa metrópole virtual que parece ter vida própria, cheia de pessoas com atividades próprias. Visualmente, isso se traduz em inúmeros personagens e balões de fala que enchem a tela o tempo todo. Estádios, castelos e outras instalações podem surgir do nada.

À primeira vista, essa saturação visual pode parecer excessiva, mas também é uma representação visual precisa da internet de hoje, habitada por milhões de usuários no Facebook ou Twitter que expressam suas opiniões sem barreiras, ou onde acontecem centenas de milhares de shows, noticiários e outros eventos, com ainda mais espectadores em todo o mundo.

As origens idealistas de “U”, de fato, se assemelham às da internet em nosso mundo. Seus criadores são mencionados apenas no abstrato, como uma entidade que acreditava que em “U”, por si só, tudo o que seus usuários precisariam para criar um mundo perfeito já existia.

Há, no entanto, a questão do anonimato digital que os avatares do mundo virtual permitem a seus usuários. Hoje em dia, isso muitas vezes se traduz na cultura obscura de bots e trolls da internet, que inundam a web para propósitos que vão de política corrupta a ódio mesquinho.

Porém, nesse metaverso de Mamoru Hosoda, a narrativa nos apresenta um propósito mais inocente – e vital – para isso. ‘Belle’ se torna um mecanismo de sobrevivência para Suzu, assim como para o usuário por trás de ‘Dragon’, cuja identidade e história são um mistério reservado para mais tarde na trama.

‘A Bela e a Fera’ em tempos de metaverso

Apesar do enorme peso narrativo e visual de “U” em ‘Belle’, o coração da história está em Suzu e seu processo de cura. E é aí que a releitura de ‘A Bela e a Fera’ se torna uma bela metáfora para as possibilidades que sonhamos para a internet.

Para Suzu, Bell começa como uma segunda identidade para se proteger de suas inseguranças, mas logo se torna uma janela para se expressar, se tornar mais vulnerável novamente e se conectar com outras pessoas.

'Belle': o lado positivo da internet
Em ‘Belle’, Dragon é a outra parte do binômio nesta reinvenção de ‘A Bela e a Fera’ (Crédito: Divulgação/BF Distribution)

É sua compaixão por Dragon que a leva a procurá-lo e conhecê-lo. Embora no início a “besta” a rejeite, expressando seu desejo de ficar sozinho, ele aos poucos começa a abrir seu coração para ela (como no conto clássico, por fim). No entanto, Hosoda leva a relação entre os dois personagens para algo muito diferente do mero interesse romântico. Vale a pena não estragar o desfecho da história aqui, mas é seguro dizer que a vulnerabilidade de Suzu é o que eventualmente permite que ela alcance o dono de Dragon e descubra a verdade.

Desenvolve-se entre os dois personagens uma relação que lembra um dos melhores tempos da Internet, quando havia um interesse genuíno em conversar e ajudar em fóruns, em vez de redes sociais transformadas em cenários de batalhas verbais caóticas e inúteis.

Para alguns, a perspectiva da realidade virtual do Metaverso como a próxima fronteira da internet pode parecer sombria e desumanizante: um mundo frio, falso e vazio onde as conexões entre as pessoas não são melhores. Mas através do filme ‘Belle’, um híbrido peculiar de drama, fantasia e ficção científica, Mamoru Hosoda nos pinta um futuro mais brilhante: contanto que os usuários não percam a simpatia, pode não ser tão ruim assim.

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Publicado primeiro na edição mexicana do Filmelier News.

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