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‘Carro Rei’ olha para um Brasil cada vez mais mecânico e conservador

Em entrevista ao Filmelier, a diretora Renata Pinheiro fala não só sobre a mecanização das relações, como também na forma que lidamos com a tecnologia no dia a dia

Matheus Mans   |  
5 de julho de 2022 18:24

Pode-se dizer, até mesmo com certa tranquilidade, que ‘Carro Rei‘ – em cartaz nos cinemas brasileiros desde o último fim de semana – é um dos filmes mais ousados, diferentes e provocativos do ano. Afinal, esta produção assinada pela diretora pernambucana Renata Pinheiro parece traduzir a ânsia e o medo da máquina, tão tratado por David Cronenberg em ‘Crash: Estranhos Prazeres’ e por Julia Ducournau em ‘Titane‘. Só que com um diferencial essencial: colocando tudo sob a perspectiva contemporânea brasileira.

Na história, acompanhamos a história de Uno, um rapaz que desenvolveu a habilidade de conversar com carros. No entanto, certo dia, políticos criam uma lei, impedindo a circulação de carros antigos, que pode fazer com que a empresa de seu pai venha a falir. É durante essa proibição que Uno recorre ao seu melhor amigo de infância, um carro, para, com a ajuda do tio, transformar um simples automóvel no Carro Rei: um carro que fala, ouve e tem sentimentos.

Matheus Nachtergaele interpreta Zé Macaco, um dos pilares da vida de Uno (Crédito: Divulgação/Boulevard Filmes)

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“Era uma vontade de falar sobre as nossas cidades, nossa realidade, sempre com muitos carros”, conta a diretora em entrevista ao Filmelier, questionada sobre a ideia original do filme. “As cidades brasileiras são muito traçadas pelo carro. Uma praça vira estacionamento, por exemplo. Os grandes donos das cidades do Brasil são os carros. Fui me aprofundando na ideia, que não era só uma observação pessoal minha. Tínhamos algo mais a dizer sobre isso”.

Além disso, ampliando ainda mais esse retrogosto da máquina nosso dia a dia, Pinheiro começou a se incomodar pela realidade política do país, com o conservadorismo se impondo cada vez mais na rotina. É a difusão das fake news, que se espalham por meio da tecnologia, modificando a realidade de um país. A tecnologia, hoje, elege presidente. “Gosto da ficção científica, já que dá para falar sobre o futuro da humanidade, mesmo de maneira ampla”, comenta Renata.

Engana-se, porém, quem pensa que o filme fica apenas no mundo das ideias sociais e políticas. Vai além, abraçando o pessoal. “O homem está saindo do estágio animal natural para se tornar um animal virtual. As máquinas são nossa prole, são filhos, são parentes. Somos uma grande família. Nós e nossas criações”, diz a diretora. “É um duelo clássico, de homem versus mapa. Mas sabemos que não é um contra o outro mais. Somos o mesmo. Como lidar com isso?”.

O papel da tecnologia em ‘Carro Rei’

Nessa história de Uno, com a visão de Renata orientando a narrativa, ‘Carro Rei’ fala muito sobre o apego das pessoas às máquinas. Qual a nossa relação com o frio do metal? Luciano Pedro Jr., que faz sua estreia como protagonista com o papel de Uno, ressalta algo importante: o filme não aposta em uma dicotomia simples e banal de que a tecnologia é a vilã final e definitiva da nossa existência. Pelo contrário: há, aqui, uma reflexão de como ela pode agir à nosso favor.

“A natureza também pode ser muito cruel. Não dá para pintar esse quadro de que a tecnologia é má e a natureza é boazinha”, diz Luciano ao Filmelier. “O fato é que a tecnologia é uma ferramenta e depende das pessoas a forma que ela vai ser usada, como vai ser usada. Há, sim, muita coisa ruim e preocupante sendo feita com a tecnologia. Mas dá para fazer tanta coisa maravilhosa. Podemos nos comunicar, nos conectar. Por que não seguir por esse caminho?”.

Ele, ao lado de Jules Elting* (pessoa não-binária que usa o asterisco como um acento gráfico em seu nome), protagoniza algumas das cenas mais malucas e potentes do ano. Como foi isso? “A gente foi gravando, deixando a história acontecer”, conta Jules. “Hoje, é muito legal ver esse resultado, com uma história tão forte, tão potente, com tantos significados e interpretações tão importantes. É a tecnologia à favor das pessoas ou o contrário disso”.

Universalidade do tema

É interessante notar como essa temática está cada vez mais frequente. Como citado, Cronenberg já falou sobre o tema e, em 2022, ‘Titane’ chocou o mundo com a relação de uma mulher com um carro — vale lembrar que ‘Carro Rei’ foi gestado e gravado quase que simultaneamente com o filme francês; ou seja, nada de cópia aqui ou lá. É, na verdade, a sensibilidade do artista: diretores ao redor do mundo sentem esse movimento íntimo de máquinas e humanos.

“O artista tem sensibilidade de sentir o que está por vir. As coisas, hoje, estão em ritmo acelerado”, diz Renata Pinheiro. “Esse deus, que de fato existe, é algo muito humano. São as grandes corporações, o empresário que manipula a forma das pessoas pensarem, o comportamento. A manipulação em massa está fácil. A tecnologia faz a informação chegar até você. Isso assusta a gente. A nova geração lida bem com isso, mas sem a consciência que a gente pode ter”.

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