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O amor é o remédio para tudo, conta diretor de ‘Esperando Bojangles’

Em entrevista exclusiva, o realizador francês Régis Roinsard revela o processo de adaptar ‘Esperando Bojangles’ para o cinema

4 de julho de 2022 17:43
- Atualizado em 5 de julho de 2022 14:28

A vida nem sempre acontece como a gente quer e, no meio do caminho, há situações que não podemos dominar. No entanto, um pouco de humor pode melhorar tudo. ‘Esperando Bojangles’, que está em cartaz nos cinemas como parte da edição 2022 do Festival de Varilux de Cinema Francês, é uma dessas histórias que nos faz pensar que é possível ter leveza mesmo nos piores momentos.

O filme é baseado best-seller francês de mesmo nome, do escritor Olivier Bourdeaut. O diretor, Régis Roinsard, visitou São Paulo como parte da campanha de divulgação do longa-metragem. Em um papo exclusivo ao Filmelier, ele nos conta como foi adaptar um livro tão complexo.

Na história, Camille (Virginie Efira) e Georges (Romain Duris) dançam todas as noites ao som de sua música favorita, ‘Mr Bojangles’, escrita por Jerry Jeff Walker. Na casa deles só há espaço para diversão, fantasia e amigos. Até que um dia Camille é internada após um episódio envolvendo transtornos mentais.

“O filme traz duas questões, há uma ruptura no tom da história. Primeiro tem um ar de comédia e, depois, ganha um lado dramático, se tornando um melodrama. Isso chocou as pessoas, mas essa é uma síntese da vida, que simplesmente acontece. Foi exatamente isso que eu quis passar, na vida somos felizes e, de repente, se acontece alguma coisa, estamos chorando”, revela o diretor.

‘Esperando Bojangles’ está sendo exibido no Festival de Varilux de Cinema Francês (Crédito: Divulgação/Curiosa Films)

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O longa mostra certa sutileza ao retratar os problemas mentais da protagonista, interpretada pela quase magnética Virginie Efira. “Sempre tive receios com filmes que falam sobre psiquiatria, para não projetar minha própria loucura, e ao longo da vida vamos aprendendo a lidar com essas coisas”, completa.

Uma história melodramática sobre a vida

O diretor compartilha que esse lado psiquiátrico beira a algo fantástico, literalmente lúdico, e que nos anos 1950 e 1960 isso era um tema recorrente nos filmes franceses. Roinsard fez uma acurada pesquisa antes de embarcar na produção sobre problemas relacionais ao transtornos mentais – e, na visão dele, a resposta para curar tudo é o amor.

‘Esperando Bojangles’ traz essa atmosfera lúdica, maravilhosa e já visitada no cinema francês – principalmente durante a Nouvelle Vague. Régis Roinsard consegue resgatar essa fase com muita proeza – não só por conta de seu conhecimento pela cinematografia, mas também porque o escritor da história original, Olivier Bourdeaut, trouxe isso para as páginas do livro.

“Essas referências já estão presentes na obra, e vem da literatura como no caso de ‘Bonequinha de Luxo’, de Truman Capote, e ‘Um Macaco no Inverno’, de Antoine Blondin”, conta o diretor. “Inclusive, a adaptação cinematográfica da obra de Blondin é estrelada por Jean-Paul Belmondo”.

Como um bom cinéfilo dirigindo o seu terceiro longa-metragem, Régis Roinsard naturalmente colocou referências de diversas produções, como ‘Demônio das Onze Horas’, de Godard, e as outras supracitadas.

O livro e o filme são guiados pela música ‘Mr. Bojangles’, do cantor Jerry Jeff Walker (Crédito: Divulgação/Curiosa Films)

O cineasta é daqueles que acompanham todos os processos do filme. Ele revela que o trabalho de montagem, cenografia, figurino, preparação dos atores e outros detalhes técnicos foram minuciosamente bem construídos e com a direção dele. É algo que Roinsard chama de “colegial”, já que é preciso estar presente em todas as etapas do projeto e era nesta parte que iam surgindo as inspirações em outras produções.

Uma das cenas mais bonitas de ‘Esperando Bojangles’ é a primeira dança dos protagonistas. Virginie Efira e Romain Duris têm uma química impressionante e a cena tem muita intensidade. O realizador contou como trazer toda esse encanto nos minutos iniciais do filme.

“Isso foi algo delicado, pois os dois protagonistas parecem que se conhecem há muito tempo, mas ao mesmo tempo acabaram de se conhecer. Foi extremamente difícil encontrar um equilíbrio, mas uma coisa que se faz necessária como cineasta é produzir tempo, espaço e vida. Eu tive que ser bastante flexível e maleável na direção, quase um balé ou uma ópera. E isso se traduz no cinema, atores que se entregam aos personagens. Isso soa muito abstrato?”, questiona.

Talvez, mas o que é a arte além de uma abstração da vida?

Jean-Paul Belmondo, a referência

Voltando ao icônico ator francês, Régis Roinsard revela que o protagonista Romain Duris tem um quê de Jean-Paul Belmondo, e não só na aparência. No mercado cinematográfico francês, é um fato conhecido que Belmondo era muitíssimo generoso e Duris se assemelha ao antigo astro também nesse sentido.

“Eu tenho conhecidos que foram muito próximos do Belmondo, o que facilitou a construir uma imagem de como o ator era”, explica Roinsard.

Belmondo e Anna Karina em ‘O Demônio Das Onze Horas’ (Crédito: Divulgação/Société Nouvelle de Cinématographie)

Duris chegou a interpretar uma versão mais nova de Belmondo em ‘Peut-être’ (1999) – e em ‘Esperando Bojangles’ temos algo como uma versão de ‘Demônio das Onze Horas’ com Romain Duris. Vale citar que Jean-Paul Belmondo era um dos ídolos do ator, especialmente pelo filme citado e por ‘Acossado’.

‘Esperando Bojangles’ é uma ótima indicação para conhecer o cinema francês e também como um filme sobre a psique dos seres humanos. Ainda que tenha momentos agridoces, pois o final é desolador, é uma produção que tenta tratar de assuntos complexos com muita delicadeza.

O filme está em cartaz no Festival de Varilux de Cinema Francês 2022, que vai até o dia 6 de julho. Confira mais informações, incluindo a programação, clicando aqui.

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