Crítica de ‘Dias Perfeitos’: a beleza no vaso sanitário Crítica de ‘Dias Perfeitos’: a beleza no vaso sanitário

Crítica de ‘Dias Perfeitos’: a beleza no vaso sanitário

‘Dias Perfeitos’, do lendário diretor Wim Wenders, é um filme repleto de pequenos mistérios e milagres

Lalo Ortega   |  
16 de fevereiro de 2024 16:28
- Atualizado em 26 de fevereiro de 2024 15:02

Encontrar beleza em um vaso sanitário pode parecer uma contradição quase escatológica. Mas é exatamente isso que o lendário cineasta alemão Wim Wenders (Paris, Texas) nos leva – até o ponto das lágrimas e dúvidas existenciais – com Dias Perfeitos, que chega aos cinemas brasileiros em 29 de fevereiro, com distribuição da O2 Play e MUBI.

O filme, candidato japonês ao Oscar 2024, poderia ser facilmente definido como a expressão máxima do aforismo “a beleza no simples”. Porque não poderia ser mais simples o estilo usado aqui por Wenders – herdeiro de Yasujirō Ozu – para contar a história ainda mais mundana de seu protagonista, Hirayama (Kōji Yakusho).

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O poder de Dias Perfeitos está, no entanto, nas perguntas que se revelam a si mesmas, aos poucos, com o desenrolar na tela da cotidianidade austera de seu protagonista.

Just a Summer’s Day

Hirayama, zelador empregado pelo projeto The Tokyo Toilet, leva uma vida pequena, mas disciplinada, uma rotina estrita e ritualística, quase cerimonial. Ele acorda com o amanhecer, cuida de suas plantas, se arruma, se uniformiza, compra um café na máquina fora de casa e vai para o trabalho, ouvindo sua música favorita em fita cassete (clássicos de Lou Reed a Van Morrison) enquanto cumpre seu turno limpando banheiros públicos.

Hirayama, protagonista de Dias Perfeitos, leva uma existência simples (Crédito: MUBI)
Hirayama, protagonista de Dias Perfeitos, leva uma existência simples (Crédito: MUBI)

Limpar os resíduos dos outros todos os dias deve (ou deveria) ser um dos piores empregos na existência humana. E Wenders brinca com esse preconceito para nos surpreender desde o início.

Hirayama não apenas parece satisfeito, mas feliz com uma existência que lhe permite ir ao parque tirar algumas fotos (analógicas, claro) durante o almoço, terminar o dia cedo, comprar uma refeição modesta e ler o que quiser antes de dormir (e sonhar, já que Wenders também nos mergulha nas imagens mentais abstratas de seu protagonista).

A repetição da rotina, assim como na vida de Hirayama, é a pedra angular de Dias Perfeitos. Vez após outra, o veremos sair pela porta, olhar para o céu e respirar, feliz por estar vivo para enfrentar um novo dia. As eventualidades são mínimas: uma criança se perde nos banheiros um dia; seu colega, Takashi (Tokio Emoto), chega atrasado no dia seguinte.

Wenders nos arranca sorrisos com os pequenos milagres cotidianos, cheios de possibilidades, ternura e incógnitas. Trocas de olhares furtivos com uma mulher no parque, um jogo anônimo de três em linha com um papel escondido no banheiro, pequenos atos de honestidade. Outras ações roçam um servilismo sacrificado, principalmente por parte de Hirayama.

Chega um ponto em Dias Perfeitos em que surge a pergunta se Wenders, cineasta renegado e nômade, não estará apresentando uma visão idealizada da cultura japonesa. O filme, inicialmente concebido como um documentário para The Tokyo Toilet, foi inspirado pela noção do “bem comum” que o diretor achou tão distante de seu país natal durante a pandemia, mas que é tão comum no arquipélago asiático.

You just leave me hanging on

Para o solitário e introvertido, a vida de Hirayama até parece desejável. O trabalho lhe proporciona comida e a possibilidade de manter um pequeno apartamento onde faz o que quer e ninguém o incomoda.

Com os mistérios sobre seu protagonista, Dias Perfeitos desperta questões mais profundas (Crédito: MUBI)
Com os mistérios sobre seu protagonista, Dias Perfeitos desperta questões mais profundas (Crédito: MUBI)

Em Dias Perfeitos, Wenders usa o tempo e a repetição para despertar perguntas. Chegará o momento em que nos questionaremos sobre o que era Hirayama antes do início do filme e como ele acabou ficando sozinho. Ele quer ficar sozinho? Essa solidão é sustentável? Vestígios de um tédio silencioso em seu rosto, ao olhar para o céu, colocam isso em dúvida.

Os modestos dramas pessoais que surgem levantam mais mistérios do que respostas, e o diretor nos convida a imaginá-las para preencher as lacunas. Na verdade, elas não importam: a trama é superficial, um pretexto cuja vagueza nos instiga a refletir sobre outros questionamentos, ao mesmo tempo comuns e elevados. “Agora é agora”, expressa Hirayama em uma lição de paciência, quase como uma extensão de Wenders nos instigando a contemplar o que temos na tela, e nada mais.

E então surge a sensação de vazio em uma vida que antes parecia cheia e completa. O preço dessa aspiração ao ascetismo pode ser alto, ou talvez seja uma aspiração idealizada.

Ou talvez, sejam conceitos que podem coexistir em eterna contradição. Como a beleza no vaso sanitário. Como uma vida transbordante de dor e alegria. Como um rosto sorridente e à beira das lágrimas.

Dias Perfeitos estreia nos cinemas em 29 de fevereiro e em breve chegará à MUBI.

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