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David Cronenberg tem muito a dizer em ‘Crimes of the Future’

Longa-metragem fala sobre futuro distópico em que as pessoas conseguem criar órgãos novos e, depois, extraí-los em exibições públicas e artísticas

Matheus Mans   |  
13 de julho de 2022 14:02

Ao pensar em David Cronenberg, muitas pessoas podem associar o cineasta ao grotesco. No entanto, todos os grandes filmes do canadense vão além disso e passam por um tema em comum: a tecnologia. Desde ‘Videodrome’, passando por ‘A Mosca‘ e até chegar em ‘Crash: Estranhos Prazeres’, David Cronenberg trouxe reflexões sobre a máquina. É ela que toma o espaço do corpo, transforma homem em mosca, se torna o meio de comunicação de um espetáculo mórbido e, enfim, entra no contexto da evolução humana no novo longa ‘Crimes of the Future‘.

Lançamento dos cinemas desta quinta-feira (14), mas já disponível em sessões pagas de pré-estreia, o filme tem uma premissa que parece estar no meio do caminho entre ‘Videodrome’ e ‘Crash: Estranhos Prazeres’. Afinal, nela, acompanhamos a história de Saul Tenser (Viggo Mortensen) e Caprice (Léa Seydoux), artistas performáticos focados em “produzir” novos órgãos, tatuá-los ainda dentro do corpo das pessoas e, depois, retirá-los em exibições públicas. É um futuro distópico imaginado por Cronenberg em que nem mesmo as mudanças físicas, de membros, basta. Aqui, é preciso criar órgãos e assumir o lugar de um “deus”.

Mortensen e Stewart em cena de ‘Crimes of the Future’, novo longa-metragem de Cronenberg (Crédito: Divulgação/O2/MUBI)

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Em paralelo à isso, ainda há espaço para a trama de Dotrice (Scott Speedman), um homem que, após o assassinato de seu filho bem no comecinho da trama, começa a ir atrás de Saul para que ele faça uma autópsia da criança como obra de arte. Ainda tem o departamento burocrático do longa (formado por Kristen Stewart, Don McKellar e Welket Bungué), que representa um Estado falido e que, ainda assim, tenta controlar, registrar e regular a criação desses novos órgãos para que eles não avancem sobre a existência humana e se tornem parte da evolução da espécie.

Cronenberg raiz, mas de vanguarda

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‘Crimes of the Future’, que antes tinha o título de ‘Painkillers’ (ou “analgésicos”, no bom português), não é uma ideia nova de Cronenberg e, por isso, não é surpresa que ele tenha ideias tão similares ao cinema de outros tempos do canadense. De acordo com ele, o roteiro do filme foi escrito há cerca de 20 anos, na esteira de produções como ‘Crash: Estranhos Prazeres’ e ‘Existenz’ — este, aliás, a última produção “de gênero” do cineasta. Segundo Cronenberg, a ideia de trazer essa história de volta surgiu em conversas com seu produtor, Robert Lantos. Todos ficaram empolgados.

Afinal, nos últimos anos, Cronenberg deixou esse cinema mais grotesco, ousado e provocativo de lado. Abraçou novas linguagens em filmes como ‘Senhores do Crime’, ‘Um Método Perigoso’, ‘Cosmópolis’ e, seu último trabalho antes deste novo lançamento, ‘Mapas para as Estrelas’. Assim, ‘Crimes of the Future’ traz a essência do diretor, como era visto em seus trabalhos mais clássicos, em uma linguagem que traz o chamado “body horror” (ou “horror físico”) em um contexto de distopia social. Não à toa, o filme tem o mesmo nome de uma produção do diretor de 1970.

No filme, caminhos das mudanças físicas são tema de preocupação (Crédito: Divulgação/O2/MUBI)

Vale dizer, porém, que mesmo sendo uma história pensada há mais de 20 anos, Cronenberg continua à frente de seu tempo. Por mais que repita algumas percepções e ideias já vistas nesses outros filmes similares, ele volta a colocar a tecnologia como centro das atenções. É ela que possibilita que os humanos criem órgãos, quase que em um esquema de seita. Traz, acima de tudo, uma reflexão dos seres humanos assumindo posições que, naturalmente, não são suas. Ao invés dos membros mecânicos de ‘Crash: Estranhos Prazeres’, o cineasta parte para um lado íntimo e obscuro.

Dor, prazer e Cronenberg

Além disso, a tecnologia não é aqui exatamente a máquina fria e de metal. Não à toa, o design de produção assinado pela brilhante Carol Spier (‘Marcas da Violência’) substitui o frio do metal por aparelhos que, na verdade, são mais orgânicos do que as pessoas. A cama parece um casulo, a cadeira parece uma ossada. A tecnologia, na verdade, opera nos bastidores para falar sobre algo que o título original trazia com muita clareza: opioides. Analgésicos, aqui, são naturalizados em uma sociedade que não sente dor, tampouco prazer. Todos estão em estado de catarse profunda.

Lembrando da epidemia de analgésicos que vive os Estados Unidos, o longa-metragem mostra o mal que isso pode fazer. Não de uma maneira didática, obviamente, mas “cronenbergiana”. O sexo não vale mais nada — Saul, em determinado momento, conta que nem sabe mais como fazer “sexo tradicional”. Como a personagem de Kristen Stewart sussurra em determinado momento, em uma atuação deveras afetada, “cirurgia é o novo sexo”. O toque de um bisturi causa mais prazer em Saul do que um beijo. Ele sente o poder da modificação corporal tomando sua alma.

Cronenberg viaja para uma distopia em que tudo é plano. Até mesmo sua narrativa, com um estilo noir, parece que não sai do lugar. Saul está tomado dessa catarse, contaminando a história. A fotografia de Douglas Koch (‘A Última Noite’) abraça essa falta de cores total. Ninguém mais vive, ninguém mais sente. Há apenas medo da morte, enquanto as pessoas desafiam a “criação” com mudanças corporais aplaudidas. Há também uma certa preocupação com o que nosso corpo está se transformando — pelo plástico produzido, pelo alimento sintético, pelo ambiente artificial.

Spoilers à frente

Ahoy, leitor! Antes de continuar, saiba que o texto agora terá spoilers sensíveis do filme de Cronenberg, ok? Vamos lá: o final parece ser o momento em que Cronenberg mais traz assuntos à tona. Descobrimos que o menino que aparece no começo do filme tem o organismo completamente modificado e até consegue digerir plástico. É uma aberração, fruto de tantas modificações que estão acontecendo entre as pessoas — ele nasceu assim, com as pessoas modificando a evolução. Só que Saul, na belíssima última cena, consegue comer a barrinha de plástico sem morrer.

Isso significa que, nas últimas semanas, ele desenvolveu algum órgão capaz de digerir o plástico, assim como aquele garotinho. Ele atinge um novo nível de evolução. No seu olhar, medo e euforia. Afinal, por um lado, ele atingiu um novo patamar de evolução. Por outro, ele dá continuidade ao que aquele garotinho começou: novos órgãos que dão novas habilidades às pessoas. A tecnologia, de alguma forma, mudou o ser humano. Será que ele é o mesmo quando comparado ao nosso passado analógico? O que o futuro nos reserva? São perguntas tradicionais de Cronenberg.

Afinal, como o cineasta já disse antes, a tecnologia é horrenda e maravilhosa. “O corpo, para mim, é a essência da existência humana. É o que somos, e tudo vem disso, inclusive a tecnologia”, diz Cronenberg, em entrevista à uma rádio. “Para mim, a tecnologia sempre foi ultra-humana e uma extensão completa do que somos. Nossos punhos se tornam mísseis. Com isso, a tecnologia também se torna o que somos, para o bem e para o mal. E você vê isso com cada nova tecnologia. Você vê a internet, você vê as mídias sociais. É maravilhoso, e é horrível, horrível e horripilante. Ao mesmo tempo, traz à tona o pior de nós, e também o melhor. Então, para mim, é natural falar sobre isso. Estou mergulhando na essência do que somos e na essência da condição humana, e [‘Crimes of the Future] me leva até lá”.

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