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‘…E o Vento Levou’ é retirado do HBO Max por conteúdo racista

Clássico de 1939, o filme foi retirado temporariamente da plataforma por conta de protestos sobre a forma que retrata escravos

Matheus Mans   |  
10 de junho de 2020 11:06
- Atualizado em 17 de junho de 2020 12:02

Clássico de 1939 do cinema americano, o longa-metragem ‘…E o Vento Levou‘ foi retirado temporariamente da plataforma de streaming HBO Max. O motivo seria o conteúdo racista do filme, indo na contramão dos movimentos antirracistas e antifascistas que tomam conta de ruas dos EUA.

Segundo um porta-voz da empresa, o longa-metragem voltará em “algum momento” à plataforma. No entanto, desta vez, com um alerta sobre o seu conteúdo racista — fruto da época em que foi produzido — e trazendo algum tipo de discussão para entender melhor o retrato desse período do passado.

“‘…E o Vento Levou’ é um produto de seu tempo e retrata alguns dos preconceitos étnicos e raciais que, infelizmente, se tornaram lugar-comum na sociedade americana”, disse a plataforma em declaração oficial. “Estes retratos racistas eram errados no passado e continuam errados hoje”.

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Além disso, o porta-voz diz que o filme voltará sem cortes. “O filme voltará com uma discussão de seu contexto”, diz. “O contrário seria negar que estes preconceitos existiram. Se vamos criar um futuro mais justo, igualitário e inclusivo, primeiro precisamos reconhecer e admitir nossa história”.

Hattie McDaniel, de ‘…E o Vento Levou’, foi a primeira atriz negra a vencer o Oscar (Crédito: Divulgação/Warner Bros)

Na trama de ‘…E o Vento Levou’, conta-se a história de uma rica garota do sul na Guerra Civil Americana. O grande problema, aqui, estaria na representação de escravos aparentemente satisfeitos com sua situação. Vale lembrar que o filme venceu oito Oscars, incluindo Melhor Atriz Coadjuvante para Hattie McDaniel, a primeira mulher negra premiada.

Vozes contra ‘…E o Vento Levou’

Primeiramente, a principal voz que se levantou contra o filme foi o roteirista John Ridley, vencedor do Oscar por ‘12 Anos de Escravidão‘. Em um artigo publicado no jornal Los Angeles Times, ele pediu pela retirada da plataforma. Afinal, disse ele, o longa ‘ignora os horrores da escravidão’.

“Quando o filme não está ignorando os horrores da escravidão, ele pausa apenas para perpetuar alguns dos estereótipos mais dolorosos de pessoas não-brancas”, disse no artigo. “O filme continua a legitimar a noção de que o movimento secessionista era algo mais, ou melhor, ou mais nobre”.

Além disso, depois, Ridley acrescenta que o filme não deve ser “escondido”, mas trazido à luz com novo significado. “Gostaria de pedir que o filme seja reintroduzido na HBO Max com outros filmes que fornecem uma imagem ampla e completa do que realmente era a escravidão e a Confederação”.

Racismo e audiovisual

Esta não é a primeira vez que a WarnerMedia, empresa responsável pelo HBO Max, lida com produções com teor racista. A animação ‘Tom & Jerry’, por exemplo, sofreu cortes para barrar cenas com conteúdo racista ou com ‘blackface’ — prática de pessoas brancas de pintar o rosto de preto.

No relançamento dos curtas clássicos remasterizados e no formato Blu-ray, há alguns anos, a WB adicionou ao primeiro volume um aviso afirmando que alguns conteúdos podem ser sensíveis e problemáticos. A prática continuou em algumas plataformas de video on demand.

O Disney+ também tem indicado para seus assinantes que alguns de seus filmes mais antigos — entre eles a animação ‘Dumbo’, de 1941 — “podem conter representações culturais desatualizadas”. No caso, há um grupo de corvos que representam estereótipos da comunidade negra americana.