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‘Escrevendo com Fogo’ dá voz às mulheres na Índia: “Nós representamos a autenticidade do mundo”

Em entrevista exclusiva, os diretores do documentário indicado ao Oscar falam sobre o filme e também da falta de diversidade no cinema

18 de março de 2022 13:10
- Atualizado em 21 de março de 2022 11:05

A igualdade de gênero, as diferenças sociais, o fim do racismo, a inclusão e outros diversos problemas enraizados em nossa sociedade fazem parte do nosso cotidiano. De fato, eles parecem ainda longe de um efetiva resolução, mas algo que não podemos fazer é nos calar.

‘Escrevendo com Fogo’, documentário indiano indicado ao Oscar 2022 e já disponível para alugar ou comprar no streaming do Brasil, dá força a voz feminina dentro de um país opressor em relação a todas as questões citadas acima. Em entrevista exclusiva ao Filmelier, os diretores Sushmit Ghosh e Rintu Thomas – que também formam um casal – falaram de forma animada sobre o filme e a sua relevância. Afinal, esta é a primeira indicação da Academia a um longa-metragem documental feito na Índia.

Escrevendo com Fogo está concorrendo ao Oscar de Melhor Documentário (Créditos: Divulgação/Synapse)
‘Escrevendo com Fogo’ está concorrendo ao Oscar de Melhor Documentário (Crédito: Divulgação/Synapse)

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O poder da resistência feminina

Toda a atenção que ‘Escrevendo com Fogo’ está recebendo é de grande importância – e não só pelo espaço ao cinema independente, mas também por dar voz a mulheres. Afinal, a Índia padece até hoje de um sistema que funciona como uma divisão social importante na sociedade Hindu.

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Para contextualizar um pouco melhor, a princípio existiam quatro tipos de castas no país: os brâmanes (composta por sacerdotes), xatrias (formada por militares), vaixias (constituída por fazendeiros e comerciantes) e a mais baixa, os sudras (pessoas que deveriam servir as castas superiores).

Abaixo disso, tem as pessoas que não fazem parte de nenhum desses grupos, conhecidas como párias ou intocáveis: os dalits ou dálites, na grafia que preferir. Nesse contexto, essas pessoas ocupam os piores trabalhos e costumam ser rejeitados por integrantes de outras castas. Ainda que em nível nacional a Índia tenha eleito um presidente de origem dalit em 1997 (K. R. Narayanan), essa segmentação surte mais efeito no interior do país.

‘Escrevendo com Fogo’ mostra como as jornalistas do jornal Khabar Lahariya desafiam uma sociedade que é, literalmente, contra elas, já que elas são dalits. Há dez anos, essas mulheres colocam sua resistência em jogo não só enfrentando o machismo, mas toda a estrutura de um sistema.

“Tem tantas camadas nessa história e nosso foco era segmentar para a vida dessas mulheres, esse era o nosso objetivo e o que gostaríamos de explorar. O fato delas serem jornalistas, andarilhas, mulheres dentro de um ambiente dominado dos homens, mães e elas também lidam com a culpa universal de todas as mulheres que trabalham carregam. Não só isso, a maioria das reportagens as colocam em risco, então as histórias foram surgindo a partir de todos esses fatores”, contou a diretora Rintu Thomas.

As mulheres dalit não sofrem somente para arrumar empregos: elas são praticamente invisíveis e o Khabar Lahariya busca dar visibilidade para aqueles que não a tem. Grande parte das reportagens da equipe de jornalistas fazem denúncias, dando espaço para que necessita. O veículo se consolidou no meio jornalístico digital, somando mais de dez milhões de visualizações no YouTube.

‘Escrevendo com Fogo’, dá força a voz feminina dentro de uma sociedade opressora (Crédito: Divulgação/Synapse)

“Elas cobrem matérias em lugares que envolvem riscos, perigos e que são construídas em torno de muito trauma, como mulheres que enfrentam violência sexual, famílias que perderam entes queridos. Era muito importante também pra gente respeitar esse espaço e rapidamente construímos uma relação de confiança e trabalho. Eventualmente nos tornamos amigos e foi aí que elas realmente se abriram e começaram a contar suas histórias, foi assim que fizemos o filme dentro do mundo delas e não como pessoas de fora”, pontua Sushmit Ghosh.

Diversidade no cinema

‘Escrevendo com Fogo’ cumpre um papel importante no cinema, pois também traz a relevância de novas histórias – quesito que filmes documentais tem cumprido com sucesso. É um fato conhecido o quanto o cinema é uma indústria dominada pela falta de representatividade.

“Eu acredito que a mudança tenha que começar por Hollywood, sabemos que os homens, e homens brancos, ocupam os maiores cargos por lá e eles compõem uma faixa etária muito específica. E são eles que estão definindo o que nós, pessoas como eu e você, estão assistindo”, disse Rintu Thomas.

“A mudança precisa começar lá, esses cargos precisam ser preenchidos por pessoas que se pareçam com a gente, que tenham sotaques como a gente, que sejam mulheres, pessoas de cor, pessoas de gêneros fluidos, diferentes sexualidades, porque nós representamos a autenticidade do mundo”, completou. “Essa mudança já começou, muitos dos executivos que conhecemos, investidores e diretores de pequenas produtoras são mulheres, mulheres de cor, pessoas não binárias, e isso abre espaço para outras narrativas. Todos crescemos sob o espectro de uma só narrativa”.

‘Escrevendo com Fogo’ exala parte dessa mudança, não só por dar voz às mulheres, mas também ao cinema independente, que é tão desvalorizado na Índia.

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