Cena de Ataque dos Cães

‘Ataque dos Cães’ e ‘Vingança & Castigo’ mostram que este é o ano dos faroestes na Netflix

Cada um de sua maneira, filmes mostram diferentes olhares sobre o gênero, mudando a linguagem e a estética

Matheus Mans   |  
3 de dezembro de 2021 12:48
- Atualizado em 4 de dezembro de 2021 09:30

Um dos filmes mais aguardados de 2021, ‘Ataque dos Cães’ chegou ao catálogo da Netflix na última quarta-feira, 1º. Premiada no Festival de Veneza, a cineasta Jane Campion (de ‘O Piano’) colocou sua própria visão na história de dois irmãos, donos de uma fazenda de gado, que passam por uma transformação em suas vidas após o casamento inesperado de um deles.

É um faroeste às avessas, ao contrário do que esperamos em uma trama do tipo. Sem bang-bang, sem tipos masculinos óbvios. Há profundidade na história e sensibilidade na forma que é conduzida. Uma quebra no gênero. Algo que, curiosamente, a Netflix já havia feito neste mesmo ano, menos de um mês antes, com o estiloso, elegante e forte ‘Vingança & Castigo’.

Cena de Ataque dos Cães
Cumberbatch é um dos destaques de ‘Ataque dos Cães’, filme de faroeste da Netflix (Crédito: Divulgação/Netflix)

Neste, ao contrário de ‘Ataque dos Cães’, há violência. No entanto, o diretor Jeymes Samuel bebe da fonte de Quentin Tarantino para colocar uma estilização moderna e colorida no faroeste, deixando para trás as histórias só formadas por madeira, areia e couro. São mudanças, à sua maneira, que confirmam a força e criatividade do faroeste no cinema contemporâneo.

A narrativa de ‘Ataque dos Cães’

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Primeiramente, vamos falar mais sobre ‘Ataque dos Cães’. Campion conta a história de quatro personagens: Phil (Benedict Cumberbatch), George (Jesse Plemons), Rose (Kirsten Dunst) e, enfim, Peter (Kodi Smit-McPhee).

Phil e George são irmãos, donos de uma fazenda de gado e conectados com suas raízes. A vida dos dois, porém, muda quando George se casa com Rose, viúva e mãe de Peter — este, por sua vez, um rapaz de gestos delicados e sensibilidade aguçada. Primeiramente, Phil não quer saber de mãe e filho. Mas, aos poucos, essa relação vai se transformando, mudando

No cenário, e na fotografia brilhante de Ari Wegner (‘Lady Macbeth’), há um tom de opressão. As colinas ao redor da casa de Phil e George deixam os personagens presos ali, naquele ambiente. Algumas cenas, enquanto isso, dão a impressão de que o cenário está engolindo, sufocando a família.

Ainda que haja certa inventividade nessa ambientação, porém, o mais chamativo de ‘Ataque dos Cães’ vem da história. Adaptação de um romance de Thomas Savage, nome forte nas histórias de faroeste, o longa não tem violência, não tem tiroteio, tampouco bang-bang. O faroeste está na ambientação, no cenário, mas não na ação e personagens.

Ao contrário da masculinidade tóxica vista em filmes clássicos do gênero, como ‘Por um Punhado de Dólares’ ou as produções com John Wayne, o longa-metragem da Netflix inverte a perspectiva. Phil começa como um bruto e explosivo personagem, mas aos poucos, com a atuação de gala de Cumberbatch, ganha camadas: há muito escondido em suas ideias.

Os personagens não são fixos dentro de suas influências na história, assim como também não há aquela velha dicotomia de bons e maus. O vilão está escondido nos detalhes, não no óbvio. Rose, interpretada por Kirsten Dunst (olha o Oscar da Mary Jane vindo aí!), por exemplo, é uma personagem que vai sendo desconstruída pelo olhar, pelo que não é dito, por gestos, vazios.

‘Ataque dos Cães’, assim como é ‘O Piano’, outra grande obra de Campion, deixa muita coisa subentendida — como deveria ser, sendo um filme passado no coração do Oeste americano no século XIX. Silêncios e gestos dizem muito. Não é à toa, por exemplo, que a diretora usa muita imagem no detalhe, focada nas mãos, na pele. Isso, aqui, diz mais do que palavras.

No final, temos um filme que não fala sobre vingança, sobre bang-bang, sobre conflitos entre homens nas areias e sob o sol dos Estados Unidos. É um filme que remete ao gênero do faroeste, por conta de sua ambientação, mas que usa os seus personagens como motor para assuntos muito mais profundos: o ser humano, sua vida e os seus desejos.

A estética de ‘Vingança & Castigo’

Outro faroeste que desconstrói o gênero, como já citado, é o inesperado ‘Vingança & Castigo’. Filme que chegou ao catálogo sem barulho ou qualquer grande divulgação, a produção assinada por Jeymes Samuel traz uma inspiração “tarantinesca” para o faroeste, com toques de ‘Django Livre’. Afinal, ainda que haja a violência e o bang-bang, nada mais é usual.

Idris Elba, assim como Regina King e Jonathan Majors, dão força e complexidade para a história (Crédito: Divulgação/Netflix)

Tudo é colorido, estilizado, provocativo. Afinal, Samuel não pinta as casas de uma vila no Oeste dos EUA à toa. Tudo é um comentário — desde o começo, quando o diretor avisa que aqueles acontecimentos são fictícios, mas que aqueles personagens existiram naquela época, até o fato de que atores e profissionais negros foram maioria na frente e atrás da tela.

‘Vingança & Castigo’, dessa forma, se consolida como um forte sinal, uma mensagem audiovisual contra o apagamento das pessoas negras nas histórias de faroeste. O visual, enquanto isso, complementa a experiência com algumas sacadas realmente boas — a “cidade branca”, formada apenas por pessoas brancas, é um momento de frescor, por exemplo.

Ou seja: Samuel se vale da estrutura tradicional do faroeste para, enfim, tecer um comentário sobre o próprio gênero. É um cinema de contestação e que, de maneira ousada, abraça o formato do gênero para implodir tudo por dentro. Atuações marcantes, como a de Idris Elba, Jonathan Majors, Zazie Beetz, Edi Gathegi e Delroy Lindo complementam mais a história.

Um novo faroeste?

Vale dizer, para fim de conversa, que esta brincadeira com o faroeste, e os comentários sociais e políticos que surgem a partir disso, não são coisa de agora, de hoje. Se nos tempos áureos do gênero já era possível encontrar comentários sociais, nos últimos anos o faroeste ressurgiu com esse frescor. Títulos marcantes como ‘A Qualquer Custo’, ‘Django Livre’, ‘Rastro de Maldade’ e ‘Oeste sem Lei’ são bons exemplos.

Percebe-se, assim, que histórias áridas de homens e mulheres sem rumo, ou em um momento de vazio emocional, dizem muito sobre a vida das pessoas hoje. O faroeste, como forma de comunicação pelo cinema, fala da aridez da vida, dos sentimentos, das emoções — ainda que os personagens, como mostra ‘Ataque dos Cães’, possam estar escondendo essas coisas.

Agora, a gente deve ficar de olho na consagração do gênero com um caminho de possíveis vitórias na temporada de premiações, incluindo no Oscar. ‘A Qualquer Custo’ e ‘Django Livre’ passaram perto da grande consagração, mas ‘Ataque dos Cães’ é o caso mais concreto de possível sucesso absoluto nas premiações, principalmente após as vitórias de Jane Campion em Veneza. Assim, pode esperar ainda mais faroestes vindo por aí.

‘Ataque dos Cães’ está disponível na Netflix – clique aqui para saber mais sobre o filme, além de encontrar o link para assistir online.

Já para saber mais de ‘Vingança & Castigo’, incluindo trailer e também o link para assistir ao longa na Netflix, clique aqui.

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