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‘Lingui: The Sacred Bones’ honra a força das “heroínas desconhecidas da vida cotidiana”, diz diretor

Em entrevista exclusiva ao Filmelier, o cineasta Mahamat-Saleh Haroun fala sobre seu mais novo filme e enfatiza a necessidade de se abordar tabus sociais

16 de março de 2022 12:24
- Atualizado em 17 de março de 2022 16:59

Existe uma coragem inerente ao se fazer filmes como ‘Lingui: The Sacred Bones’, de Mahamat-Saleh Haroun, um dos mais importantes cineastas do continente africano. A história, que acompanha a trajetória emocionante de uma mulher tentando garantir um aborto para sua filha de 15 anos no Chade – país onde interromper uma gravidez viola as leis nacionais, patriarcais e religiosas -, se desenrola e toma forma: é mais que um drama pungente, já que se apresenta desde o princípio como uma produção revolucionária.

“Preciso fazer as pessoas refletirem sobre isso porque o tema do aborto ainda é um tabu. Como um artista, é minha função evidenciar esses problemas sociais”, explica Mahamat-Saleh Haroun em entrevista exclusiva ao Filmelier. “Enquanto a gente não falar sobre essas questões, elas simplesmente não existem”.

Haroun, ao utilizar mais uma vez sua cinematografia característica, pacífica e estoica – já vista em outros de seus filmes como ‘Abouna’ e ‘Um Homem Que Grita’ -, ‘Lingui: The Sacred Bones’, que já está disponível no Brasil no streaming da MUBI, aprofunda os sons ambientes da vida ordinária daquelas duas mulheres. Na periferia da capital, a realidade se afunila, mesclando os barulhos do trânsito com o piar das galinhas domésticas.

Por meio de sua cinematografia estoica, Mahamat-Saleh Haroun honra a força das mulheres em Lingui: The Sacred Bones
As atrizes Achouackh Abakar Soulymane e Rihane Khalil-Alio são as protagonistas de ‘Lingui: The Sacred Bones’ (Crédito: Divulgação/MUBI)

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“Já faz um tempo que eu queria pintar um retrato de uma mulher chadiana semelhante às que eu conheço. São mulheres solteiras, viúvas ou divorciadas, que criam seus filhos sozinhas. Muitas vezes desprezadas pela sociedade, elas, no entanto, conseguem descobrir como sobreviver”, conta Haroun. “Eu queria retratar a vida dessas mulheres que são marginalizadas, mas não vivem como vítimas. Elas são as heroínas desconhecidas da vida cotidiana.”

Na narrativa, aos poucos, o martelo macio deste drama social arrebata o telespectador. Não tem a pretensão de ser uma história infeliz, e sim deseja mostrar como essa mãe e essa filha conseguem driblar, por meio de irmandade e força feminina – como a própria expressão do título sugere -, esse mundo de homens.

‘Lingui’ é uma palavra chadiana que significa “vínculo” ou “conexão”; é uma resiliência coletiva diante de provações catastróficas. “Geralmente, é o que liga as pessoas para que possam viver juntos. É um termo que implica solidariedade e ajuda mútua.”, elucida Haroun. Ao curso dos 88 minutos, testemunhamos diversos momentos em que, mesmo em uma sociedade dominada por homens teocráticos reacionários, o “lingui” grita mais alto.

Mesmo correndo perigo de perder a vida, quando vemos a mãe Amina (Achouackh Abakar Soulymane) fazer de tudo para ajudar a filha adolescente Maria (Rihane Khalil-Alio) a realizar um aborto seguro, isso é “lingui”. Em outro momento, observamos um grupo de jovens salvar Maria do leito de um rio depois que ela tenta se afogar, isso é “lingui”. Quando Amina concorda em ajudar sua irmã distante em um momento de crise, isso também é “lingui”.

“Só posso existir porque
o outro existe. Isso é ‘lingui’,
esse é o fio-comum, o laço sagrado
do nosso tecido social”

“Esta palavra simboliza a resiliência de uma sociedade quando confrontada com terríveis desafios e provações. E quando o ‘lingui’ está quebrado, prenunciamos o início de um conflito. No mundo moderno, a noção de ‘lingui’ tende a desaparecer porque a classe governante a distorceu. Esta classe presta pouca atenção ao ‘lingui’ porque muitas vezes é movidos por interesses egoístas de curto prazo, apropriando-se indevidamente de riquezas para seu próprio lucro.”

Também segundo Haroun, a existência do patriarcado que vemos no filme é uma combinação da cultura ancestral chadiana (estruturas políticas) com a interferência da religião muçulmana (estruturas religiosas). “A partir do momento em que a religião impôs critérios morais sobre a sociedade, esta ficou estagnada, repleta de interdições e proibições recém-criadas”, explica ele.

No Chade, depois de se libertarem da colonização francesa em 1960, o poder político cerceou a população em vez de promover maior liberdade. A sede de poder impulsionou a política e os dogmas ligados a uma forma de controle acabou também por impulsionar os líderes religiosos – não é novidade que, historicamente, essas duas entidades sempre tiveram interesses simpatizantes.

Por meio de sua cinematografia estoica, Mahamat-Saleh Haroun honra a força das mulheres em Lingui: The Sacred Bones
‘Lingui: The Sacred Bones’ foi selecionado para o Festival de Cannes em 2021 (Crédito: Divulgação/MUBI)

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Contudo, o cineasta afirma que as mulheres ainda carregam e transmitem memórias e experiências de vida que persistem, sendo muito mais poderosas do que as dominantes. “Elas estão perfeitamente conscientes de sua condição, das provações que tiveram de enfrentar, e sempre souberam administrar. Elas não esperaram que a religião lhes dissesse como cuidar de seus corpos, como ter ou não um filho.”

‘Lingui: The Sacred Bones’ e a fragilidade das instituições

A liberdade não é algo que vem facilmente para as protagonistas desse filme. A partir do momento em que Maria decide abortar e recebe ajuda de sua mãe, automaticamente vemos diversos pilares da sociedade caírem por terra, todos se voltando contra as duas.

“Elas viram um alvo. Por causa da gravidez, Maria se torna um elemento indesejável em sua escola. Ela acaba sendo expulsa porque a instituição está preocupada com sua reputação. Soma-se a isso os vizinhos que as desprezam, os médicos que devem cumprir cegamente a lei e não as ajudam em um primeiro momento. Sem contar a pressão religiosa que elas passam a sofrer”, aponta Haroun.

Embora todas as cenas venham acompanhadas de sequências simples e corriqueiras, cada detalhe – especialmente junto dos close-ups e da trilha sonora – são pensados para transmitir um certo desespero e angústia. Ao acompanhar a luta dolorosa de Amina, vemos sua potência maternal tomando forma a cada take. Tudo é tão esteticamente agradável que dá a sensação de que, se você pausar o filme em qualquer momento, a imagem congelada na tela será digna de uma exposição de arte.

“Em todos os meus filmes, gosto de mostrar que existe beleza em todos os lugares. E neste não é diferente. Mesmo marginalizadas, na pobreza, quero mostrar que o irrisório é fascinante”, afirma o diretor. “Quando vemos as personagens manufaturando os fogões [no Chade, eles são chamados de kanoun] para vender no mercado e conseguir seu sustento, estamos inserindo aquelas mulheres em uma realidade social.”

Por meio de sua cinematografia estoica, Mahamat-Saleh Haroun honra a força das mulheres em 'Lingui: The Sacred Bones'
A irmandade feminina move todo o fio narrativo de ‘Lingui: The Sacred Bones’ (Crédito: Divulgação/MUBI)

Haroun ainda revela que, para ele, é de extrema importância ter cenas que filmem demoradamente o trabalho. “Sinto que não é explorado no cinema contemporâneo. Muitas vezes se resume a filmar alguém na frente de um computador. Não há realidade nisso, é muito abstrato. Filmar alguém no trabalho é lindo, ajuda o personagem a existir. Nos momentos em que Amina faz seus próprios fogões mostramos o status econômico e social onde ela foi relegada – mas aquela tarefa árdua não esgota sua energia, ela trabalha para dar um futuro à filha.”

Sem entregar o enredo do último ato do filme, em que descobrimos a verdade sobre o que realmente aconteceu com Maria, as sequências climáticas ambientadas em um labirinto de becos se torna, talvez, a maneira mais genuína de declarar a metáfora do filme (e do ‘Lingui’) em si: as duas são perseguidas por um terrível Minotauro e tentam escapar de um lugar que pode nem ter saída – mas ainda assim elas persistem.

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