Uhura-StarTrek

Morre Nichelle Nichols, a Uhura de ‘Star Trek’, aos 89 anos

A atriz foi a protagonista do primeiro beijo inter-étnico da história da TV americana, além de ter tido como fã ninguém menos que Martin Luther King

31 de julho de 2022 19:22
- Atualizado em 1 de agosto de 2022 09:17

“Audaciosamente indo onde nenhuma mulher negra jamais esteve”. Parafraseando a abertura de ‘Jornada nas Estrelas’, esse poderá ser o epitáfio de Nichelle Nichols, que morreu neste sábado (30) aos 89 anos. A atriz, cantora, modelo e dançarina foi uma das protagonistas da franquia, tanto na série clássica quanto em seus filmes derivados, interpretando a primeira mulher negra de destaque na televisão americana: a tenente Uhura.

O falecimento de Nichols foi confirmado pelo filho, o ator Kyle Johnson, em post no Facebook.

“Ontem à noite, minha mãe, Nichelle Nichols, sucumbiu a causas naturais e faleceu. Sua luz, no entanto, como as galáxias antigas agora sendo vistas pela primeira vez, permanecerá para nós e as gerações futuras desfrutarmos, aprendermos e nos inspirarmos. A dela foi uma vida bem vivida e, como tal, um modelo para todos nós”, afirmou Johnson.

A vida e a obra de Nichelle Nichols

Nascida sob o nome de Grace Dell Nichols na cidade de Robbins, no subúrbio de Chicago, Illinois, no ano de 1932, Nichelle era a terceira de um total de seis irmãos. Filha de um operário e de uma dona de casa, a jovem começou a atuar ainda em 1961, aos 18 anos, no musical ‘Kicks and Co.’, de Oscar Brown Jr.

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Após atuar em algumas peças locais em Chicago, além do trabalho ocasional de modelo, Nichols fez uma participação especial na série ‘O Tenente’, criada por Gene Roddenberry.

Na ponte da Enterprise, Nichelle Nichols foi uma inspiração para Martin Luther King Jr., um dos líderes da luta contra a segregação (crédito: reprodução / CBS Television)
Na ponte da Enterprise, Uhura foi uma das primeiras personagens negras de destaque da TV dos EUA (crédito: reprodução / CBS Television)

A atriz não sabia, mas o próximo projeto de Roddenberry era ambicioso: um western espacial, que fosse inspiracional e que permitisse unir ficção científica com aventura para criar uma metáfora política e social sobre os efervescentes anos 1960. Era ‘Jornada nas Estrelas’.

O primeiro piloto de ‘Star Trek’ naufragou, mas a série acabou sendo aprovada para a sua primeira temporada após o diretor tirar da ponte – e de proeminência – uma personagem feminina. Ainda assim, Roddeberry não desistiu de colocar uma mulher em um posto importante dentro da USS Enterprise, nave estelar na qual a série se passava.

Foi então que Roddenberry chamou a atriz para o papel da tenente Uhura, a oficial de comunicações da Enterprise. Tal fato não tinha precedentes na história da televisão. Lembre-se: estamos falando de meados dos anos 1960, onde a segregação étnica ainda era forte nos EUA, principalmente no sul do país. Porém, ao se falar de uma história do século XXIII, nada mais justo do que esperar um futuro (um pouco) mais igualitário.

No entanto, essa não foi uma decisão simples: como enfatiza Dácio Roberto Martins, no livro ‘Star Trek: A Série Clássica – A Fascinante Saga Comentada Episódio por Episódio’ (YK Editora), a NBC – emissora que transmitia a série – exigiu que Roddenberry tirasse Nichols do elenco, justamente por ser negra. O produtor, então, deu um “jeitinho”: não contratou a atriz para o elenco fixo, mas por diária. Dessa forma, Uhura se tornou uma “freela fixa” da produção. Não importa: assim nascia um ícone.

“Tentei colocar na Uhura as qualidades que admiro e procuro para mim mesma”, relata Nichols em outro livro, ‘Jornada nas Estrelas: A História Completa Não Autorizada e Sem Censura – Volume 1’ (Globo Livros), de Edward Gross e Mark A. Altman

Não só isso: além de multiétnica, a tripulação da Enterprise também era internacional. Em alguns momentos da série, Uhura fala em swahili – que é uma língua utilizada em países como Quênia, Ruanda e Uganda, deixando clara a origem africana da personagem. Algo que, recentemente, seria muito bem explorado na série ‘Star Trek: Strange New Worlds’.

O primeiro beijo na boca entre um homem branco e uma mulher negra na TV dos EUA, ainda em uma época de forte segregação (crédito: reprodução / CBS Television)
O primeiro beijo na boca entre um homem branco e uma mulher negra na TV dos EUA, ainda em uma época de forte segregação (crédito: reprodução / CBS Television)

O ápice – mesmo – foi no episódio ‘Plato’s Stepchildren’, o décimo episódio da terceira temporada da série clássica de ‘Star Trek’. Ele traz o primeiro beijo na boca entre um homem branco (William Shatner, intérprete do capitão Kirk) e uma mulher negra (Nichols) da televisão dos Estados Unidos.

A NBC tentou vetar a cena e, depois, quis que não houvesse toque nos lábios, mas foi Nichelle que insistiu (como consta em sua autobiografia, ‘Beyond Uhura: Star Trek and Other Memories’) que aquele fosse um beijo real.

O encontro com Martin Luther King Jr.

Por muito pouco, nada disso aconteceu. É que Nichols, se sentindo de lado em relação ao protagonismo de Shatner e Leonard Nimoy (Spock), pensou seriamente em abandonar ‘Star Trek’.

“Eu falei para o Gene Roddenberry que ia deixar a série depois da primeira temporada, e ele estava bastante chateado por isso. Ele me pediu para pensar no fim de semana, e refletir sobre o que eu queria alcançar com aquela série”, contou a atriz em 2011, em uma entrevista à NPR.

“Naquela noite de sábado, eu fui a um evento de arrecadação de fundos da NAACP [Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, da sigla em inglês] em Beverly Hills. E um dos promotores veio até mim e disse: ‘Senhora Nichols, há alguém que gostaria de conhecê-la. Ele falou que é o seu maior fã'”, continuou a atriz.

“E me virei, e antes que pudesse me levantar, olhei para o outro lado e lá estava o rosto do Dr. Martin Luther King sorrindo para mim e caminhando em minha direção. E ele começou a rir. Quando chegou até mim, ele disse ‘sim, senhora Nichols, eu sou sua maior fã'”, disse a atriz, relatando o encontro com o famoso líder do movimento pelos direitos civis – e que seria assassinado menos de um ano depois, em abril de 1968.

“Fiquei sem palavras. Ele me elogiou pela maneira como criei a personagem”, relatou Nichols. “Agradeci e acho que disse algo como ‘Dr. King, gostaria de estar lá marchando com você’. Ele falou ‘não, não, não. Não, você não entende. Não precisamos de você para marchar. Você está marchando. Você está refletindo pelo que estamos lutando’. Então eu respondi: ‘Muito obrigada. E eu vou sentir falta das minhas co-estrelas'”.

Nichelle Nichols em 'Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan': a personagem foi uma inspiração para Martin Luther King Jr., um dos líderes da luta contra a segregação (crédito: reprodução / CBS Television)
Nichelle Nichols em ‘Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan’: a personagem foi uma inspiração para Martin Luther King Jr., um dos líderes da luta contra a segregação (crédito: reprodução / Paramount Pictures)

“Seu rosto ficou muito, muito sério. Ele disse: ‘Do que você está falando?’ E eu respondi: ‘Bem, eu falei ao Gene ontem que vou deixar a série depois do primeiro ano porque me ofereceram…’ Ele me interrompeu: ‘Você não pode fazer isso’. Eu fiquei atordoada. ‘Você não entende o que esse homem conseguiu? Pela primeira vez estamos sendo vistos em todo o mundo como deveríamos ser vistos. Você entende que este é a única série que minha esposa Coretta e eu vamos permitir que nossos filhinhos fiquem acordados e assistam?’. Eu fiquei sem palavras.”

O resto é história: Nichols continuou não só na série, como nos filmes derivados que seriam produzidos a partir do final dos anos 1970, colocando a tenente Uhura para sempre na história do audiovisual.

Após o precoce cancelamento, em 1969, ‘Jornada nas Estrelas’ alcançou um sucesso cult com as reprises – sendo revivida em 1973 como série animada, novamente com Nichols vivendo Uhura (e dando voz a outros personagens secundários). Em 1978, na esteira do sucesso de ‘Star Wars’, veio ‘Jornada nas Estrelas: O Filme‘, que levou a franquia à tela grande.

Foram mais cinco filmes de Nichols como Uhura, sedimentando a personagem na cultura popular. A atriz ainda faria alguns trabalhos de voz – como em ‘Batman: A Série Animada’ e ‘Gárgulas’, além de participações especiais aqui e ali.

Nichelle, porém, continuou explorando novas fronteiras. Entre elas, se tornou voluntária de um projeto da NASA para recrutar mulheres e minorias para o programa espacial. A primeira astronauta mulher, a Dr. Sally Ride, e o primeiro astronauta negro, Guion Bluford, foram recrutados justamente por meio desses esforços.

Agora, Nichelle Nichols se torna definitivamente a estrela que iluminará as próximas conquistas em prol da igualdade e da diversidade – seja na cultura, seja na ciência, seja no mundo como um todo.

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