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‘Noite de Reis’: “Essa história verdadeira me surpreendeu”, afirma diretor

Philippe Lacôte conta todos os detalhes de seu mais novo filme, que ficará em exibição neste sábado, 31, na versão online do Festival do Rio que acontece no streaming do Telecine

Matheus Mans   |  
30 de julho de 2021 09:56
- Atualizado em 2 de agosto de 2021 10:08

Você conhece o cinema da Costa do Marfim? Ou melhor: conhece o cinema africano? Uma boa porta de entrada para as produções do país, e também do continente, é o filme ‘Noite de Reis’. Dirigido por Philippe Lacôte (‘Run’), a produção será exibida no Festival do Rio, dentro do serviço de streaming do Telecine, ao longo das 24 horas deste sábado, 31.

Selecionado na shortlist do Oscar 2021 para Melhor Filme Internacional, o longa-metragem é um filme sobre uma prisão. A MACA, uma das cadeias mais temidas da Costa do Marfim. Mas ao contrário do que já vimos em títulos como ‘Fuga de Alcatraz’ ou ‘Rota de Fuga’, Lacôte investe em temas mais humanistas. Fala de literatura, poesia, teatro, do poder da palavra.

Noite de Reis
Cena do filme ‘Noite de Reis’, sobre um rapaz contando histórias em uma prisão (Crédito: Divulgação/NEON)

Afinal, por meio da fantasia e sonho, acompanhamos um jovem (Bakary Koné) chegando na MACA. Logo é escolhido pelo líder do local como o Roman. Como o contador de histórias. Por ser noite de lua vermelha, o rapaz precisa contar uma narrativa para os outros prisioneiros.  Se a história não for boa ou curta demais, os líderes do grupo de oposição ganham passe livre para matar o atual líder. Uma releitura de ‘As Mil e Uma Noites’. Mas nada de Sheherazade. Aqui, o protagonista é um rapaz negro.

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“A ideia de colocar a MACA no centro do meu filme veio de um amigo, que saiu de lá e me contou sobre essa prática. Ou seja, os líderes escolhem um prisioneiro que é forçado a contar uma história todas as noites.”, conta Lacôte ao Filmelier. “Essa história verdadeira me surpreendeu. Eu imediatamente vi um dispositivo, um personagem e uma emergência”.

Lacôte e a MACA

Além dessa surpresa do cineasta com o hábito dos prisioneiros ao estilo ‘As Mil e Uma Noites’, Lacôte conta que tem muito de sua experiência no filme. “O filme se relaciona com a história de minha família porque, quando eu era criança, minha mãe foi presa na MACA por razões políticas. Uma vez por semana, atravessei a mata, que é onde a prisão fica, com um táxi coletivo para vê-la. Guardei imagens muito fortes dessas visitas”, conta.

Na estética, comandada pelo diretor de fotografia Tobie Marier-Robitaille, percebe-se esse jogo entre lúdico e a aspereza do dia a dia — talvez entrando nessa mistura de experiências, sensações e relatos ouvidos por Lacôte. Há muita cor na trama, lembrando bastante um teatro que se abre para os espectadores. Mas há também muito jogo de luz e sombras.

Há, também, as diferenças de tom adotadas pelo cineasta, que sabe unir esse tom fabular com o realismo degradante das prisões, é o ponto alto do filme. Há camadas documentais, há tons ainda mais fantasiosos. Há brincadeiras com fábulas e folclore. O cineasta, assim, mostra que sabe misturar elementos de maneira coesa, deixando tudo ainda mais saboroso.

“De forma geral, é a mistura, é a textura híbrida que procuro nos meus filmes e nem sempre é fácil encontrá-la. É como um pintor que trabalha com muitas cores. Deve ser ainda mais preciso”, diz. “Por muito tempo, a indústria cinematográfica me fez entender que eu contava muitas histórias, que tínhamos que limpá-las Mas, pessoalmente, estou do lado do que se mistura. Quero contar com todos elementos, tudo que é narrativo”.

‘Noite de Reis’ e o cinema africano

O longa-metragem de Philippe Lacôte, infelizmente, é uma exceção nas exibições no Brasil. É difícil ver produções africanas chegando por aqui, até mesmo quando falamos de streaming. Recentemente, o filme ‘Rafiki’ fez sucesso falando sobre a relação de duas jovens no coração da África. Na MUBI, ainda chegou o interessante ‘Ar Condicionado’, bom filme angolano.

Mas quantas pessoas assistiram a esses filmes? “O cinema vindo da África é pouco distribuído na América do Sul”, diz. “Por outro lado, nós, cineastas desse continente, ainda temos que descobrir como traduzir nossas histórias de uma forma mais universal. Existem novos talentos na África Ocidental, mas este é o verdadeiro desafio para mim nos próximos anos”.

Personagens de ‘Noite de Reis’ são inspirados em experiências e relatos ouvidos por Lacôte (Crédito: Divulgação/NEON)

Apesar dessa distância que a distribuição cinematográfica condena entre Brasil e África, Lacôte reafirma seu interesse pelas produções brasileiras. Não é à toa que, no meio de ‘Noite de Reis’, há uma referência clara àquela cena que fez história: a galinha correndo na abertura de ‘Cidade de Deus’. Será que o diretor da Costa do Marfim se inspirou em Fernando Meirelles?

“Sim, acho que você pode dizer que sou um fã de cinema brasileiro. Desde Glauber Rocha, passando por ‘Cidade de Deus’, mas também um filme como ‘Bacurau’”, conta o diretor, questionado pelo Filmelier. “Mas ‘Noite de Reis’ é um filme que, de muitas maneiras, como a prisão, violência e a poesia corporal, pode ressoar com a realidade da sociedade brasileira”.

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