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“É uma chama em um momento de escuridão”, diz Marieta Severo sobre ‘Noites de Alface’

Longa-metragem conta a história de um idoso que precisa conviver com a solidão após a morte da esposa

Matheus Mans   |  
23 de junho de 2021 09:47
- Atualizado em 24 de junho de 2021 10:23

Quem dá uma espiada de fora, sem conhecimento de causa, pode achar que ‘Noites de Alface’, que estreia nesta quinta (24) nos cinemas, seja um filme simples. Simplório até. Afinal, a história não poderia ser mais direto ao ponto: o já idoso Otto (Everaldo Pontes) precisa conviver com a solidão e a independência após a morte da esposa Ada (Marieta Severo). Como levar a vida que tinha antes? Como proceder?

Nesse ínterim, o que acaba entrando na vida de Otto é o que ele vê pela janela da sala de casa: os vizinhos e as fofocas da rua, que antes tinham uma ligação direta com a esposa Ada. Para tentar entender essa dinâmica que corre para além do portão da rua, ele acaba unindo a ficção das páginas do livro de suspense que está lendo com a realidade de sua vida.

Cena de Noites de Alface
Cena de ‘Noites de Alface’, com Marieta Severo e Everaldo Pontes (Crédito: Divulgação/Pipa Filmes)

“O filme tem essa delicadeza e poesia, mas também essa necessidade de ficção na vida das pessoas. As pessoas não aguentam, sucumbem, sem a ficção”, afirma Marieta Severo. “Ele entra num terreno do Brasil totalmente avesso e contrário, apenas asfixiando a ficção, a poesia, a literatura, enquanto enaltece o oposto disso tudo: a violência, a arma, o obscurantismo. O filme é uma chama nesse momento de tanta escuridão”.

Por trás de ‘Noites de Alface’

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Toda a história do filme, dirigido pelo estreante em longas de ficção Zeca Ferreira, é uma adaptação de um livro homônimo da escritora Vanessa Barbara. “Cheguei na obra por meio de outro livro dela, de crônicas”, conta Zeca. “A Vanessa criou uma espécie de universo fantástico com a figura do Otto, mais retraído, e a esposa, que faz a ponte com o ‘lado de fora’”.

Everaldo Pontes, que encara com força seu personagem, celebra o resultado. “Quando Otto perambula pelos cômodos da casa, ele procura motivação. Ele procura fazer qualquer coisa. O universo dele está vazio sem a Ada. Achei muito curioso e o personagem tem muito a ver comigo”, diz “Eu estava naquele universo. O tempo, no filme, é outro personagem”.

É nessa mistura, em que tempo e a própria cidade se tornam personagens da história, que o filme vai ganhando força. Afinal, de um lado, há o luto e a solidão de Otto — que passa seus dias relembrando a esposa em cada canto da casa. De outro, há essa mistura de ficção e realidade com as fofocas dos vizinhos após o estranho e inesperado sumiço do carteiro dali.

Tem até ares de ‘Janela Indiscreta’, ou ‘A Mulher na Janela’, para quem quer uma referência mais recente. A solidão logo vira essa própria ficção.

Para Marieta, o Filmelier questiona como foi entrar nessa personagem tão diferente. Afinal, Ada divide o protagonismo da história com Otto, mas nunca está no tempo presente da narrativa. Ela aparece apenas em flashbacks do marido, agora viúvo, relembrando gestos, atitudes e comportamentos da esposa, seja para revivê-los ou entender a sua rotina.

“Eu, como atriz, vou me agarrando com tudo que pode me dar alguma dica, que pode me ajudar a entrar em um caminho [da personagem]”, diz ela, explicando a sua preparação. “Na hora, aquele era o meu presente, minha realidade absoluta. O que é o presente, o que é o passado? O filme embaralha um pouco disso. E na realização não fazia a menor diferença”.

Pandemia e quarentena

‘Noites de Alface’, como é de praxe, demorou alguns anos para chegar aos cinemas — começou a produção em 2018. No entanto, ainda assim, há ecos da vida de 2020 e 2021 na história do longa-metragem. Afinal, Otto precisa encarar a solidão de ficar preso dentro de casa, já que a esposa era quem fazia a ponte para as histórias da rua, dos vizinhos e da vida no geral.

Será que o filme previu a quarentena? “É um tempo sem abraços. O que salvou a gente, nesses tempos de pandemia, foram os contatos calorosos, afetivos e enriquecedores através da imagem”, diz Marieta. “O homem não existe sem a ficção. A gente tem essa emoção, esse calor, esse peito que aquece. Essa coisa bonita. Tem esse tocar físico e tocar sem ser tocado. A ficção tem essa capacidade de ler coisas que ainda não aconteceram”.

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