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“Foi o trabalho de minha maior entrega”, diz Nando Cunha sobre ‘O Novelo’

Filme, que chega aos cinemas e streaming nesta quinta-feira, 25, fala sobre família em busca de união

Matheus Mans   |  
25 de novembro de 2021 17:32
- Atualizado em 26 de novembro de 2021 15:44

Foi em 2017 que o ator Nando Cunha subiu ao palco do Festival de Gramado para receber o prêmio de Melhor Ator em Curta-Metragem por seu trabalho em ‘Telentrega’. No discurso, Nando foi direto ao ponto: falou não só sobre a falta de oportunidades para atores negros, como também pediu para que produtores os enxergassem como atores. Simples assim. 

O recado, na mesma hora, caiu no colo da cineasta Claudia Pinheiro, que estava começando a fazer a pré-produção do filme ‘O Novelo’, que quatro anos depois ganha as telas do cinema e streaming nesta quinta, 25. “[Ela] veio até a mim para me sondar para o papel, pois meu discurso havia lhe impactado de alguma forma”, conta ele. “Era um filme de elenco branco e que passa a ser de protagonismo negro a partir da minha entrada”.

Antes da adaptação para os cinemas, afinal, o longa era uma peça formada por um elenco branco. Na história, cinco irmãos se reúnem para tentar decifrar se um homem em coma no hospital é o pai deles sumido há muito. Nem todos os irmãos ali se falam, já que seguiram caminhos bem distintos — um é alcóolatra, outro é escritor, outro é advogado e por aí vai. 

Longa-metragem passeia pela história de uma família, unida por um novelo de lã (Crédito: Divulgação/O2)

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Nando acaba sendo o elo dessa família, o irmão que suporta as pancadas e que segura a emoção de todos os outros ali na tentativa de descobrir se aquele homem é, realmente, o pai de todos. No sumiço do pai ao longo das décadas, é Mauro, o personagem de Nando Cunha, que assume essa função de cuidar dos irmãos menores, prover o sustento e de ser um pilar. 

“Meu pai viveu essa história e, em alguns momentos da minha vida, também vivi quando ele saiu de casa  e voltou depois. Essa história é uma a de muitos jovens negros, que a gente se identifica”, conta Nando ao Filmelier. “Meu maior desafio para interpretar o Mauro era revelar suas dores das quais ele se recusava mostrar,  tanto a física quanto a psíquica – um homem com muitos traumas, muitas dores do passado. Foi o trabalho de minha maior entrega, pois eu sabia que era o trabalho da minha vida”.

Sensibilidade em ‘O Novelo’

O que chama a atenção em ‘O Novelo’, além das atuações potentes e emocionantes de Nando Cunha, Sérgio Menezes, Rocco Pitanga, Rogério Brito e André Ramiro, é a sensibilidade da história. Nada daquela masculinidade arcaica e viril tão retratada nos filmes. Pinheiro, aqui, trouxe uma família formada por homens, mas que não recai em estereótipos.

O principal símbolo disso está no título: o que une os irmãos é a paixão pelo tricô, herdada pela mãe e que ainda continua presente em suas vidas.

Isso passa muito pelo olhar de suas realizadoras. Primeiramente, lá atrás, Nanna de Castro foi procurada por cinco homens, atores brancos, que pediram que ela escrevesse uma peça sobre o universo masculino e suas questões. Depois de muita pesquisa, ela escreveu ‘O Novelo’ buscando a mudança de ares do que estava sendo feito por aí sobre masculinidade.

“Quando essa história chegou às minhas mãos, já tinha um olhar feminino e o envolvimento foi imediato. Enquanto lia, eu via um pouco dos homens que me cercaram a vida toda”, conta Claudia Pinheiro. “[Era] a história de uma família, suas dores, seus conflitos, suas alegrias. O desejo de romper laços tão fortes quanto o de nunca sair de perto, mostrando que os verdadeiros signos de masculinidade estão muito longe dos estereótipos”.

Uma história cotidiana

Por fim, percebe-se que o pedido de Nando no palco de Gramado, pouco depois de receber um cobiçado Kikito, se cumpriu. Obviamente, por se tratar de uma sociedade como brasileira, o filme diz muito ao colocar uma família formada por homens pretos no centro da história. Mas é como Nando Cunha pediu: são tratados ali como atores, não como figuras que representam algo a mais em papéis que são endereçados a eles.

Claudia conta que a temática ajuda nesse processo. “Acredito que tais temas também são cenas de um cotidiano quase universal e a naturalidade ao tratar deles vem da aceitação das pessoas como elas são, sem julgá-las. É como olhar para os conflitos da nossa própria família e é como eu gostaria que o espectador visse esse filme”, diz ao Filmelier.

Nando Cunha, quando questionado sobre essa naturalidade, mostra que ‘O Novelo’ é mais do que um filme. É um marco, um verdadeiro grito.

“É muito importante que a sociedade comece a naturalizar esses corpos pretos e essa masculinidade, e não da maneira estereotipada como o audiovisual historicamente sempre mostrou”, diz Nando Cunha.

Ele continua: “O filme [traz] o oposto desse estereótipo, com cinco homens pretos com suas singularidades, seus conflitos, suas especificidades. Ou seja, vivendo, sendo humanos. O cinema sempre nos mostrou com armas na mão e a resposta que esse filme dá é colocando cinco homens pretos com um novelo nas mãos. A importância desse simbolismo é muito grande, pois ressignifica o olhar para o homem preto e traz uma referência positiva para os jovens”.

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