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Mesmo com pandemia, cinema e streaming ainda ‘medem forças’

Ainda que distribuidoras, exibidores e produtoras estejam enfrentando dificuldades, há resistência em lançar filmes primeiro no digital

Matheus Mans   |  
19 de junho de 2020 11:09
- Atualizado em 23 de junho de 2020 10:24

No começo da pandemia, com os cinemas fechados, os serviços de streaming pareciam ser a “tábua da salvação”. Afinal, era a maneira de produtoras, distribuidoras e até mesmo exibidores encontrarem maneiras de manter algum faturamento e, ainda por cima, o contato com o público.

No entanto, três meses após o fechamento dos cinemas, exibidores e serviços de streaming continuam a “medir forças”. Qualquer movimentação de estúdios para uma estreia inicial em video on demand — a chamada “inversão de janelas” — já liga o sinal vermelho dos exibidores tradicionais.

Assim, há um temor de que isso acabe gerando um efeito generalizado no setor. Desde a criação do cinema, a sala escura é a primeira e principal janela. Depois veio a televisão, TV a cabo, DVD, etc. Desses, só o streaming parece ter a capacidade de “matar as janelas” e tomar o mercado pra si.

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“O streaming ainda é visto como um vírus na cadeia de cinema”, afirma Omarson Costa, executivo do setor com passagens por Netflix e Roku. “Afinal, ele mata o conceito de grade. Por isso há um temor tão grande. Exibidores querem continuar fortes e, assim, fazem ‘queda de braços'”.

Efeito ‘Trolls 2’

A principal briga nesse sentido, que se tornou pública e notória durante a pandemia, foi com relação ao lançamento do filme ‘Trolls 2’ nos Estados Unidos. Lá, a Universal Pictures resolveu lançar a animação direto em VOD. Foi um sucesso. O filme chegou a arrecadar mais do que o original.

Filme das criaturas coloridas gerou uma das maiores polêmicas do mercado exibidor (Crédito: Divulgação/Universal Pictures)

No entanto, pouco tempo depois, executivos do estúdio disseram que ainda pretendiam colocar o filme nos cinemas. Foi o estopim para o caos. Exibidores ameaçaram boicotar os filmes da empresa, detentora de franquias como ‘007’ e ‘Velozes & Furiosos’. Entenderam aquilo como uma traição.

Adam Aron, CEO da AMC, uma das maiores redes dos EUA, disse que a mudança do modelo de negócios é “radical” e “inaceitável”. Além disso, disse que a decisão “representa nada além de prejuízo”. Já a rede Cineworld afirmou que só vai exibir filmes do estúdio quando “voltarem atrás”.

Desde então, estúdios e exibidores trocam amabilidades. Executivos da Disney e da Sony chegaram a dizer que “streaming não é sustentável”. Steven O’Dell, presidente da Sony, disse que você “pode ter a maior televisão possível em casa e as pessoas ainda estão desesperadas para sair”.

Já a Universal Pictures continua fora dos planos de exibição da AMC e da Cineworld. Com a aparente retomada do setor, as empresas já divulgaram as suas programações e, até o fechamento deste texto, não havia indicações de que algum filme do estúdio seria exibido em um período curto de tempo.

E no Brasil?

Em terras tupiniquins, estúdios e distribuidoras se mostraram mais tímidos nessa briga. Assim, a única empresa que encarou a inversão de janelas foi a Embaúba, uma pequena distribuidora, lá de Minas Gerais. A empresa resolveu lançar os médias ‘Vaga Carne’ e ‘Sete Anos em Maio’ direto em VOD.

No entanto, a ideia da empresa é conseguir um espaço em alguma cinema independente , como é costume da Embaúba, para pôr os filmes no circuito.

“A gente ia lançar os filmes juntos pouco antes da pandemia. Tivemos que mudar nossos planos”, conta Daniel Queiroz, diretor da Embaúba. “Trabalho com programação há 20 anos. Só distribuo filmes que eu acredito. Quero que esses meus filmes circulem, independente do formato”.

No Brasil, ‘Vaga Carne’ passou por inversão de janelas (Crédito: Divulgação/Embaúba)

Questionado sobre a possibilidade de boicote de redes exibidores, Daniel se mostra tranquilo. Afinal, ele acredita que as redes devem notar uma diferença de experiências. “É muito diferente assistir em casa e nos cinemas. São experiências complementares que espero que aconteçam”.

Além disso, na última semana, a rede Espaço Itaú anunciou que ela própria vai fazer a inversão. Com o nome de “festival de pré-estreias online”, a empresa irá exibir digitalmente, em parceria com produtoras e distribuidoras, títulos a serem lançados nos cinemas pela própria rede.

Após a pandemia

Por fim, ainda que exista uma resistência nessa inversão de janelas, especialistas indicam que essa “quebra de braços” pode ganhar força com a reabertura. Afinal, há um grande número de filmes represados e não haverá espaço para todos na programação dos cinemas espalhados no País.

Dessa forma, entrevistados consultados pelo Filmelier afirmam que este será um momento de definições e de muitas conversas para entendimento.

“O cinema não vai acabar. É um ritual, um hábito”, afirma Humberto Neiva, programador cultural do Espaço Itaú e coordenador do curso de cinema da Faculdade Armando Alvares Penteado (FAAP). “Por isso, acho importante que streaming e exibidores cheguem em algum ponto em comum”.

Afinal, segundo ele, ser a primeira janela é o que mantém o cinema vivo. É ali onde se obtém o maior faturamento e faz uma vitrine para as janelas seguintes. Matar isso e jogar tudo no streaming também pode gerar uma avalanche de conteúdo e trazer complicações para a fiscalização do setor.

“O mercado
de audiovisual
precisa chegar
em um só consenso”

“Além disso, acho importante termos uma regulamentação do streaming. Como deve funcionar? E para lançar os filmes? Como e quando respeitar a ordem de lançamentos?”, questiona Neiva. “O mercado de audiovisual precisa chegar em um só consenso e entenda como será o nosso futuro”.

Fabio Lima, diretor executivo da Sofa Digital, agregadora de conteúdo em video on demand que faz parte do mesmo grupo do Filmelier, já aponta para um futuro cada vez mais diferente. “A pandemia mostrou problemas que precisam ser ajustados. Assim, o cinema não será como antes”, diz.