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‘Quo Vadis, Aida?’: “As pessoas devem sentir o que aconteceu”, diz diretora indicada ao Oscar

O Filmelier entrevistou a cineasta Jasmila Žbanić, responsável pelo filme que retrata a história de um massacre que aconteceu na cidade de Srebrenica, na Bósnia e Herzegovina

22 de abril de 2021 10:54
- Atualizado em 11 de janeiro de 2022 17:36

Um dos indicados ao Oscar 2021 é ‘Quo Vadis, Aida?’, produção da Bósnia e Herzegovina que está concorrendo na categoria de Melhor Filme Internacional. Em uma premiação que traz histórias sobre os Panteras Negras, brutalidade policial, protagonismo feminino, abuso sexual e mais, temos também espaço para uma das mais brutais guerras já vistas na Europa – e que também é uma das menos faladas.

A Guerra da Bósnia aconteceu entre abril de 1992 até dezembro de 1995 – e ‘Quo Vadis, Aida?’ retrata um dos episódios mais marcantes do conflito europeu, o Massacre de Srebrenica.

Entre 11 e 25 de julho de 1995, cerca de 8.373 bósnios muçulmanos, de adolescentes a idosos, foram executados por soldados da República Sérvia (ou República Srpska). Tal república não deve ser confundida com o país Sérvia: tratava-se de um proto-estado bósnio formado por sérvios de religião ortodoxa.

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O Filmelier entrevistou a responsável pelo longa-metragem, Jasmila Žbanić, que atuou como roteirista e diretora.

Quo Vadis, Aida?' e o gélido bafo da morte - Ultraverso
Jasna Đuričić dá vida à Aida na produção de Jasmila Žbanić (Foto: Divulgação/Synapse)

“Eu moro na Bósnia e isso é algo que nós consideramos um trauma nacional. Todo mundo sofre com o fato de que não fizeram nada para salvar as pessoas, é um sentimento real de traição e sabemos todas as histórias dos assassinatos. Eu conheço muitos sobreviventes, especialmente mães que perderam seus filhos, maridos e muitos familiares – conheço uma mulher que perdeu seis, por exemplo. Isso é devastador”, conta a diretora.

Com um ponto de vista diferente do que estamos acostumados em produções com essa temática, Jasmila Žbanić mostra os duros efeitos do conflito sob o olhar materno.

A luta de uma mãe que representa uma nação

O título do longa Quo vadis, Aida?’ – na tradução do latim significa “Aonde vai, Aida?” – faz referência a protagonista do filme e também a uma passagem da Bíblia, em que São Pedro faz essa pergunta a Jesus, que está a caminho de Roma para novamente ser crucificado.

“Há dez anos, eu cheguei a conclusão de que deveria falar disso em um filme, mas fiquei com receio de fazer devido ao grande teor emocional e por questões políticas. A Sérvia até hoje diz que esse genocídio nunca aconteceu, que não é verdade, então, há cinco anos, eu decidi que iria atrás disso”, explica a cineasta.

“Comecei uma profunda pesquisa e resolvi contar a história sob a perspectiva de uma mãe, que está tentando proteger sua família e também é tradutora da Organização das Nações Unidas, ela tem noção de como as coisas funcionam ali. No entanto, sendo bósnia, ela tem que aceitar seu destino”.

A história é basicamente uma corrida contra o tempo dessa uma mãe, querendo salvar seus filhos e o marido da iminente execução. É um filme difícil de assistir, e a cineasta conseguiu fazer uma construção muito realista do que a protagonista está passando.

Interpretada pela sérvia Jasna Đuričić, a narrativa ganha camadas ainda mais profundas com o belíssimo trabalho da atriz. Žbanić ficou com receio de Đuričić recusar o papel por conta da situação complicada da Bósnia com a Sérvia – esse, sim, o país independente vizinho, formado em sua maioria pela população sérvia.

Indicado ao Oscar, 'Quo vadis, Aida?' estreia no streaming - Jornal O Globo
‘Quo Vadis, Aida?’ concorre no Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro (Foto: Divulgação/Synapse)

“Jasna Đuričić é uma atriz fantástica , eu já a conhecia de outros filmes, ela também é muito conhecida no teatro. Ela é sérvia, mora na Sérvia, então quando eu a ofereci o papel eu achei que talvez fosse um problema ela aceitar por já ter noção do assunto e o quão ele ainda fomenta discussões políticas nas regiões em que vivemos. Eu imaginei que para um ator fosse muito difícil passar por esse processo e ela aceitou imediatamente pois acreditava na história e que, como uma profissional, deveria fazer personagens que gosta e desgosta”.

Đuričić não só aceitou o trabalho como também reconheceu sobre a importância do filme, concordando com Žbanić que já passou da hora de falarem do Massacre de Srebrenica.

“Eu tentei ser o mais
precisa possível”

Para que ‘Quo Vadis, Aida?’ fosse o mais crível possível, Jasmila Žbanić contou com o auxílio de um consultor que trabalhou na Organização das Nações Unidas. Ele tinha conhecimento de como funcionava tudo na instituição, incluindo os comandantes. Mas tiveram pessoas que se recusaram a falar sobre o Massacre de Srebrenica. Para compor o projeto todo, ela trabalhou também com materiais de pesquisa – entrevistas, documentos e declarações, de quem teve algum contato com o que aconteceu. 

Além disso, a cineasta ainda recorria a especialistas em diversos momentos. Žbanić consultou soldados até mesmo para que seus atores soubessem a forma correta de segurar uma arma. Fora os historiadores, Žbanić teve consultoria militar e forense para deixar a produção ainda mais rica em detalhes. “Eu tentei ser o mais precisa possível”, conta.

Aqui no Brasil, a Guerra da Bósnia é pouco conhecida – algo que se repete até mesmo na Europa. Esse foi um dos motivos que fizeram a realizadora trazer essa história para o cinema.

“O Brasil é longe daqui, mas mesmo os países europeus não tem conhecimento do que aconteceu, talvez os mais velhos saibam, só que os jovens não. Quando fizemos o filme, realizamos diversos testes de exibição e um deles foi na faculdade de cinema em que meu editor Jaroslav Kaminsky trabalha – tinham 16 estudantes e nenhum deles tinham sequer ouvido falar sobre isso, eles tinham entre 23 e 27 anos”. conta Jasmila Žbanić.

‘Quo Vadis, Aida?’ e a tragédia que poucos conhecem

“Isso é chocante porque é na Europa e os europeus consideram os bósnios algo inferior. Não somos membros da União Europeia, o país é majoritariamente muçulmano e querem ignorar o que aconteceu, principalmente porque não tentarem nos ajudar a proteger as pessoas durante a guerra. A ideia dos outros países era não se envolver, hoje vemos o reflexo de que eles estão muito bem projetados na ignorância”

A diretora ainda completa que seu filme continua sendo relevante no cenário atual, apesar de tratar de algo que aconteceu em 1995.

“Eu senti que as pessoas deveriam aprender, e sentir emocionalmente o que aconteceu. Então, fiquei pensando qual seria a melhor maneira de fazer as pessoas entenderem o quão inimaginável é um dia você ter sua família, sua vida, e então tudo isso é tirado de você, por conta desses irresponsáveis que incitam violência, colocam nações, etnias e religiões uma contras as outras”, explica.

“Aprendemos na Bósnia que é assim, as coisas simplesmente acontecem de uma hora para outra. Para mim, o filme é também sobre entender como o mundo está hoje e se dentro dessas circunstâncias você ainda consegue uma pessoa melhor.”

A produção da Bósnia-Herzegovina chegou às plataformas digitais para compra nesta semana. Já o Oscar 2021 acontece no dia 25 de abril, neste domingo, a partir das 21h (horário de Brasília) – com transmissão no canal pago TNT, na Rede Globo e no Globoplay, além de comentários no Twitter do Filmelier. Clique aqui para conferir os indicados.

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