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‘Seguindo Todos os Protocolos’ explora o desejo pelo toque em tempos de isolamento

Cineasta Fábio Leal comenta sobre os desafios de fazer um filme durante e sobre a pandemia, assim como seu desejo em construir uma história ousada

Matheus Mans   |  
30 de junho de 2022 15:30
- Atualizado em 1 de julho de 2022 13:24

A pandemia de covid-19 causou uma série de questões sociais. Como sair de casa? O que é aceitável em um encontro social durante a pandemia? Quais cuidados são necessários para visitar uma pessoa, encontrar um amigo? Como transar com segurança? É justamente sobre essa última questão que se debruça o longa-metragem ‘Seguindo Todos os Protocolos’, filme dirigido por Fábio Leal que chega aos cinemas brasileiros já nesta quinta-feira, 30.

Na história, acompanhamos Chico (Fábio Leal), um homem que está sozinho em seu apartamento e com vontade de transar. Entre relacionamentos furados e encontros casuais, Chico vai descobrindo formas alternativas de reencontros nesse contexto tão inédito para ele, em que procura uma maneira eficiente de tocar outras pessoas com segurança.

“Sempre quis fazer uma continuação de um curta que realizei em 2018, ‘Reforma’. Era uma ideia de falar sobre os dois personagens, que se reencontram três anos depois, na pandemia, mas que agora só podem transar seguindo todos os protocolos”, contextualiza o cineasta ao Filmelier. “Quando comecei a escrever o roteiro, vieram situações que eu vivi, que amigos viveram, que inventei. Não queria falar sobre a pandemia do ponto de vista macro, mas mais psicológico”.

Cena marcante e emblemática de ‘Seguindo Todos os Protocolos’ (Crédito: Divulgação/Vitrine)

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A partir daí, nasce um filme com cenas marcantes sobre essa pessoa tentando saciar seu desejo pelo toque — tocar os outros e, é claro, também ser tocado. É o retrato de uma classe média brasileira que pode ficar dentro de casa durante o período da pandemia de covid-19, mas que teve abalos psicológicos pela falta de contato e pela ideia de morte que rondava. “Queria mostrar essa coisa martelada, em que pensávamos na nossa morte e na morte de pessoas próximas o dia todo. Era medo, medo, medo”, explica. “Queria fazer um filme sobre medo, solidão e necessidade do outro”.

Durante as gravações, cuidados redobrados. Afinal, o filme foi gravado de maneira entrecortada ao longo do primeiro semestre de 2021, quando a contaminação pelo (então) novo coronavírus estava em alta. Nos bastidores, os profissionais também seguiram todos os protocolos. “A gente teve que adiar o filme várias vezes”, conta o cineasta. “Chegou um determinado momento que pensei em cancelar o filme, tava com muito medo. Achei que seria um filme póstumo. Mas a gente foi filmando nas brechas que a equipe poderia ficar isolada. E tudo reduzido: era uma equipe de seis pessoas”.

‘Seguindo Todos os Protocolos’, um olhar sobre o comportamento

Ao assistir ao longa-metragem, surge um sentimento estranho: ‘Seguindo Todos os Protocolos’, ao falar de maneira poética e explícita sobre algo que vivemos tão intensamente outro dia, joga na cara do público como algumas coisas mudaram drasticamente enquanto outras permaneceram no lugar. Hoje já não temos mais aquele medo desesperado, mas também aquela ideia de que tudo seria diferente no pós-pandemia também não permaneceu como imaginado.

Qual a potência de lançar um filme que nos faz olhar para um passado tão recente? Qual a importância? “Pergunta difícil”, diz Fábio, depois de ficar pensando por algum tempo. “Mas o que vem na minha cabeça é toda a coisa da ciência. É muito louco. Embora a gente esteja vendo os casos aumentando muitíssimo, as mortes estão em patamar muito abaixo. Mostra como é importante a ciência, o desenvolvimento da ciência, o financiamento da ciência. É isso, afinal, que fez com que essa parte mais aguda da pandemia, que foi ano passado, outro dia, ficasse para trás”.

Além disso, há outro ponto essencial. ‘Seguindo Todos os Protocolos’, afinal, traz cenas de sexo explícitas entre Fábio e seus parceiros. É um cinema que provoca, instiga e, acima de tudo, não fica preso em convenções ou medos sociais.

“Por ser um filme muito independente, fiz tudo que eu queria fazer. Fiz poucas concessões. É isso que me guia. E a forma como filmo o sexo não é a mais usual. Sei disso”, comenta o cineasta. “Não quero deixar de fazer [esse cinema] para alargar os limites da caretice. Se a gente vai cedendo, vai normalizando esse lance ultraconservador de uma direita reacionária que vai tomando conta. Acho importante demarcar lugares: daqui você não vai passar”.

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