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Snyder Cut de ‘Liga da Justiça’ é Zack Snyder se olhando no espelho

Com as novas sequências que gravou para o Snyder Cut, o diretor aproveita para avaliar a questão paterna, em uma homenagem à filha Autumn, que morreu em 2017

17 de março de 2021 16:43
- Atualizado em 18 de março de 2021 13:28

Nesta quinta, 18, o aguardado ‘Liga da Justiça de Zack Snyder’ chega ao streaming – no Brasil, o filme ficará disponível para alugar online em plataformas como NOW, Google Play e Apple TV até o dia 7 de abril. Como se trata de um longa-metragem extremamente aguardado e comentado entre nerds e fãs de super-heróis, você provavelmente já tem uma opinião formada sobre a produção – isso mesmo sem ter assistido a ela. E não estou aqui para mudar isso.

Veja bem, os motivos para assistir ao longa-metragem estão descritos aqui no Filmelier – você já pode lê-los. Porém, há uma outra análise do filme. Uma mais profunda. Uma sobre Zack Snyder e nós mesmos, enquanto espectadores.

Se você está meio perdido com essa história toda, uma rápida contextualização. Há alguns anos, Snyder foi escolhido para liderar a criação de um Universo Estendido DC a partir de ‘O Homem de Aço’. Depois ele dirigiu ‘Batman vs. Superman’ e, em 2017, ‘Liga da Justiça’.

Henry Cavill e Zack Snyder no set de ‘O Homem de Aço’: filme inicia o Universo DC nos cinemas (Foto: divulgação / Warner Bros.)

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Acontece que, na reta final da produção do último filme, a filha de Snyder, Autumn (“Outono”, em português), morreu. Ela tinha apenas 20 anos e o seu suicídio foi extremamente chocante para todos, mas ainda mais para Zack e a esposa, Deborah – que também estava envolvida no filme, como produtora.

O resultado foi o afastamento dos Snyders, com a Warner Bros. escolhendo Joss Whedon (de ‘Os Vingadores’) para não só terminar o filme, mas trazer uma nova visão para a obra. O resultado final conseguiu desagradar até mesmo os mais ferrenhos defensores da DC – que iniciaram uma campanha chamada #ReleaseTheSnyderCut, inflada pelo próprio Zack.

O objetivo? Que a visão real do diretor fosse vista. Demorou, mas, com o objetivo de incrementar as assinaturas da plataforma de streaming HBO Max, a WarnerMedia deu o sinal verdade para a nova versão.

Nascia o ‘Liga da Justiça de Zack Snyder’, que é mais do que havia sido pensado pelo cineasta em 2017: são cerca de quatro horas de duração, com a adição de cenas totalmente novas, gravadas especialmente para o Snyder Cut – incluindo aí diversas aparições especiais, como as de personagens como Caçador de Marte e o Coringa de Jared Leto.

De pai para filha

Por tudo isso, o Snyder Cut que está sendo lançado agora é diferente de qualquer coisa que o próprio diretor teria finalizado em 2017. Não porque o filme é tão modificado assim em relação a versão de cinemas – se você não for muito ligado nessas coisas, talvez nem repare nas mudanças.

Acontece que Zack Snyder trouxe aquilo que viveu nos últimos quase quatro anos para a sua obra – que continuou viva nesse período, quase como uma Igreja Sagrada Família.

Em 'Liga da Justiça de Zack Snyder', o Snyder Cut, uma das principais mudanças é a adição do uniforme negro do Superman (Foto: divulgação / Warner Bros.)
Em ‘Liga da Justiça de Zack Snyder’, uma das principais mudanças é a adição do uniforme negro do Superman (Foto: divulgação / Warner Bros.)

Se ‘Batman vs. Superman’ lidava com a questão maternal, o lado paterno está presente em cada cena adicionada ao ‘Liga da Justiça de Zack Snyder’. É como se o cineasta, no roteiro, estivesse olhando para si mesmo em um espelho.

Não é exagero. Todos os novos arcos de Cyborg, Superman e Batman dentro da trama giram, de uma forma ou de outra, nesse ponto.

No caso do primeiro personagem, o novo roteiro aprofunda a distância do pai em relação ao filho, com Silas Stone se arrependendo de privilegiar o trabalho e esquecer de Victor após o trágico acidente que dá início a construção do herói.

Mais do que nunca, o surgimento do Cyborg é a tentativa de um pai desesperado, ciente de todos os seus erros e que sacrifica tudo para dar a vida ao filho pela segunda vez. É a dor e o desejo de qualquer pai na mesma situação. É a dor que Snyder descobriu em 2017.

Agora, se considerarmos que esse conflito já estava em parte presente na trama original, é com Bruce Wayne que a mudança é mais profunda, ainda que sútil. Constrói-se até uma relação paternal que, no máximo, só existia nas entre-linhas em ‘Batman vs. Superman’ – mas, para não fazer revelações da trama, você terá que assistir aos minutos finais do Snyder Cut para entender.

Snyder Cut, Batman e fé

Outro traço do Homem-Morcego que é ressaltado na nova versão de ‘Liga da Justiça’ é a sua fé. Ainda que fosse algo sutilmente citado no corte de cinemas, Snyder faz com que o herói fale, mais de uma vez, sobre essa fé na nova versão. Algo inédito para o Cavaleiro das Trevas nos cinemas, e bastante significativo quando pensamos que a fé pode ser a luz vindo do personagem mais sombrio.

Isso dialoga, de alguma forma, com a própria filmografia do cineasta. Zack Snyder é famoso por seus filmes cheios de desesperança, destruição e sombras.

No Snyder Cut, o Batman deixa de lado a razão e se torna mais um homem de fé (Foto: divulgação / Warner Bros.)
No Snyder Cut, o Batman deixa de lado a razão e se torna mais um homem de fé (Foto: divulgação / Warner Bros.)

A autoanálise de Zack Snyder é importante, ainda mais quando se passa por algo tão duro quanto a perda de uma filha. Ainda que seja extremamente pessoal do diretor, também não deixa de ser interessante para o espectador que, se estiver atento a esse fato, se torna o expectador da sessão de terapia via video on demand.

Isso sem falar na própria vitória pessoal. Goste ou não de Zack Snyder, os resultados profissionais dessa mesma perda foram muito duros. Ele nunca poderá ter novamente Autumn em seus braços, mas pode, de alguma forma, finalizar o projeto que aquela partida dura interrompeu.

A primavera da esperança

Porém, se me permitir entregar um pouco da minha psicologia de boteco, o cineasta falha em entender exatamente o ponto mais relevante de toda essa autoanálise.

‘Liga da Justiça de Zack Snyder’ retira tudo o que Joss Whedon adicionou em ‘Liga da Justiça’ de 2017, incluindo aí um elemento que contrabalanceou a visão sombria do diretor original: a esperança.

O começo da versão de cinema é justamente sobre a composição do Superman enquanto uma luz de esperança do mundo. O final do filme, após tantas batalhas, retoma o mesmo assunto. Por mais que o longa tenha todas as falhas que conhecemos, revela que sempre há uma luz no fim do túnel.

E é essa luz que nos dar força. Se a escuridão é a ausência, a morte, a luz é o seu exato oposto: a vastidão, a vida.

O Snyder Cut deixa de lado toda a luz adicionada por Joss Whedon em ‘Liga da Justiça’ (Foto: divulgação / Warner Bros.)

O final do Snyder Cut é cínico, sombrio. Deixa no ar perigos ainda maiores. Pior: revela que a nossa maior esperança será o nosso pior carrasco.

Já que estamos aqui falando de super-heróis como deuses, cito a mitologia grega. Na história deles, Pandora, a primeira mulher criada por Zeus, abriu a caixa onde guardava males como doenças e sentimentos malignos, libertando-os no mundo. Sobrou ali apenas a esperança, com o qual a humanidade tem enfrentado todas as dificuldades desde então.

Quando o filme finalmente acaba, após quase quatro horas de duração, só se vê uma coisa escrita na tela: “For Autumn”. Para Autumn. Confesso que, nesse momento, derramei uma lágrima.

Depois do outono vem o inverno. Só que depois do inverno vem sempre a primavera. Mais do que uma esperança, essa é uma certeza.

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