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‘Viúva Negra’: Entenda a disputa entre Disney e Scarlett Johansson

A atriz teria perdido US$ 50 milhões com o lançamento do longa no Disney+ – e o caminho dos tribunais pode ser seguido por Emma Stone, estrela de ‘Cruella’

30 de julho de 2021 19:20
- Atualizado em 4 de agosto de 2021 16:04

A pior parte de um casamento é o divórcio. Que o diga Scarlett Johansson: a atriz, que finalizou a sua passagem pelos filmes da Marvel Studios, entrou com um processo contra The Walt Disney Company no Tribunal Superior de Los Angeles. O motivo: quebra de contrato no lançamento de ‘Viúva Negra‘.

De acordo com o processo (via Deadline), a Disney teria rompido o acordo ao lançar o filme da Marvel Studios simultaneamente nos cinemas e em sua plataforma de streaming, Disney+ (na modalidade Premier Access), como estratégia para atrair assinantes.

Scarlett Johansson é protagonista e produtora-executiva de ‘Viúva Negra’, com participação na receita da bilheteria (Crédito: divulgação / Marvel Studios)

Tal medida teria prejudicado Johansson – que também atua como produtora executiva de ‘Viúva Negra’ -, já que lhe foi prometido um lançamento exclusivo nos cinemas, uma vez que sua remuneração “seria baseada principalmente na receita de bilheteria” do filme (que foi filmado em 2019 e originalmente seria lançado em 2020, antes que a pandemia mudasse o mundo e o mercado de cinema).

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O processo também detalha que, de acordo com os relatórios financeiras da empresa, “os mesmos executivos da Disney que orquestraram essa estratégia se beneficiarão pessoalmente dessa má administração por parte deles e da Disney”.

O advogado de Scarlett Johansson, John Berlinski, afirmou que “não é segredo que a Disney está lançando filmes como ‘Viúva Negra’ diretamente no Disney + para aumentar sua base de assinantes e, consequentemente, aumentar o valor da empresa no mercado de ações – e que está se escondendo atrás de covid- 19 como pretexto para isso”.

“No entanto, ignorar os contratos dos artistas responsáveis ​​pelo sucesso dos seus filmes para promover esta estratégia de curto alcance viola os seus direitos e esperamos prová-lo em tribunal”, comentou.

Troca de farpas entre Disney e Scarlett Johansson

Em uma atualização posterior no mesmo dia, o Deadline relatou a resposta da Disney à Johansson, condenando seu “desrespeito cruel” em relação às condições do mercado exibidor durante a pandemia.

“Não há mérito nesta ação. É especialmente triste e perturbador por causa de seu desrespeito cruel pelos terríveis e duradouros efeitos da pandemia covid-19 em todo o mundo ”, disse um porta-voz da empresa.

“A Disney honrou totalmente o contrato da sra. Johansson e, além disso, a estreia de ‘Viúva Negra’ na Disney+ com Premier Access aumentou significativamente sua capacidade de receber a compensação financeira, além dos US$20 milhões que ela recebeu até agora.”

Acontece que o imbróglio não acabou aí. Bryan Lourd, agente da atriz e co-presidente da Creative Artists Agency, divulgou um comunicado devolvendo o ataque ao estúdio de Mickey Mouse.

'Viúva Negra' custava R$ 69,90 no Premier Access (Crédito: reprodução / Disney+)
‘Viúva Negra’ custava R$ 69,90 no Premier Access (Crédito: reprodução / Disney+)

“Eles acusaram descaradamente e falsamente a sra. Johansson de ser insensível à pandemia global de covid, em um tentativa de fazê-la o que eu sei que ela não é”, afirmou, de forma dura, o agente.

“Scarlett tem sido parceira da Disney em nove filmes, que renderam bilhões à Disney e aos seus acionistas. A companhia incluiu o salário dela no comunicado na tentativa de jogar contra ela o fato dela ser uma artista e uma mulher de negócios bem-sucedida, como se fosse algo para ter vergonha.”

“Esse processo vem como resultado de uma decisão da Disney de violar o contrato da Scarlett. Eles deliberadamente moveram a receita para o streaming e os lucros para o lado do Disney+ na companhia, deixando a artista e seus parceiros financeiros fora da nova equação. É isso, puro e simples”, concluiu Lourd.

Emma Stone pode ser a próxima

Como Hollywood adora dizer, a trama se adensa. Tudo porque Scarlett Johansson pode ter, em breve, mais uma companheira de tribunal: Emma Stone. A atriz, vencedora do Oscar por ‘La La Land’, é outra que não estaria nada feliz com a mesma estratégia de lançamento simultâneo, que foi adotada com ‘Cruella’.

Trata-se, ainda, de um rumor. De acordo com a newsletter What I’m Hearing, do ex-editor de The Hollywood Reporter, Matt Belloni, Stone está “ouvindo todas as opções” e que a Disney é “difícil de lidar”, por isso outros atores e atrizes estavam aguardando um grande nome tomar partido para também colocarem na mesa as suas opiniões.

Rumores indicam que Emma Stone também está descontente com a Disney pelo lançamento de 'Cruella' (Crédito: divulgação / Disney)
Rumores indicam que Emma Stone também está descontente com a Disney pelo lançamento de ‘Cruella’ (Crédito: divulgação / Disney)

A grande diferença entre as duas é que Scarlett Johansson finalizou o seu contrato com a Marvel Studios e, com a Viúva Negra morta em ‘Vingadores: Ultimato’, teria menos a perder. Já Emma Stone já está garantida como a estrela de ‘Cruella 2’, atualmente em pré-produção.

Por que a Scarlett Johansson está processando a Disney?

A resposta curta: dinheiro, claro. No entanto, a situação é mais complicada do que isso.

Grandes nomes de Hollywood demandam grandes salários para participar de um filme. Afinal, o nome deles é um grande catalizador de atenções para a produção. São os rostos conhecidos, quem dá as entrevistas, fazem tour pelo mundo e aparecem em todo o material de divulgação.

Eventualmente, tais nomes se tornam muito grandes para o orçamento de um filme. Por exemplo: Tom Cruise é um dos atores mais bem pagos do cinema mundial, e tê-lo em um filme é quase sinônimo de sucesso – só que o salário alto pode atrapalhar toda a produção. Fora que, em eventual caso de insucesso, é prejuízo certo.

Por isso, se tornou comum, com estrelas desse nível, que eles se tornem sócios da produção. Ou seja, em vez de cobrar um cachê “cheio”, por assim dizer, eles recebem menos em troca de algum bônus ou, principalmente, para se tornarem sócios do filme.

É o caso de Scarlett Johansson: ela “investiu” parte do que receberia de salário no próprio filme, se transformando em produtora-executiva do longa-metragem. Em troca, ele recebe uma porcentagem da bilheteria global da produção.

O modelo é parecido com o de Robert Downey Jr. em ‘Vingadores: Ultimato’. O astro recebeu US$ 20 milhões para ser Tony Stark no longa e, com a porcentagem da bilheteria, faturou posteriormente outros US$ 55 milhões – 8% da receita nos cinemas.

Scarlett Johansson e Florence Pugh em cena em 'Viúva Negra' (Crédito: divulgação / Disney)
Scarlett Johansson e Florence Pugh em cena em ‘Viúva Negra’ (Crédito: divulgação / Disney)

O que Scarlett Johansson alega é que o lançamento simultâneo na tela grande e no Disney+ diminuiu circunstancialmente a receita de ‘Viúva Negra’ nos cinemas, da qual ela teria uma porcentagem, enquanto a empresa não só recebeu uma boa receita pelo Premier Access (que custa R$ 69,90 no Brasil), como viu suas ações subirem de valor nas últimas semanas.

Essa seria, na visão da atriz, a quebra de contrato.

De acordo com uma fonte do Wall Street Journal, a estrela acredita que teria perdido US$ 50 milhões. Ainda que, de alguma forma, a Disney diga que Johansson também teria se beneficiado do lançamento via Premier Access, a soma é muito superior aos US$ 20 milhões informados pela empresa.

Além disso, como Bryan Lourd deixa claro, a atriz usou seu nome e influência para trazer outros investidores para o filme – os “parceiros” citados no comunicado do agente.

Essa, vale destacar, é a primeira vez que Scarlett Johansson recebeu o crédito de produtora-executivo nesse modelo de contrato. Anteriormente, a atriz ocupou o posto no documentário ‘The Whale’, mas apenas como investidora.

Por fim, o caso todo aparenta ser muito parecido com o de Emma Stone, que tem o crédito de produtora-executiva em ‘Cruella’.

Outros cineastas e produtores descontentes

O que é fato é que lançamentos simultâneos em cinemas e plataformas de streaming são uma ocorrência cada vez mais comum em 2021.

É uma prática que as plataformas de streaming começam a adotar em resposta à pandemia, pois as medidas signatárias limitam a capacidade dos cinemas e, portanto, a possível receita de bilheteria. A intensa “guerra de streaming” entre plataforma como Disney+, HBO Max e Paramount+ contra Netflix e Amazon Prime Video também é outro fator.

Porém, a adoção da estratégia – ou, no mínimo, a falta de comunicação com os envolvidos nos filmes – está causando muito burburinho em Hollywood. A principal voz foi a de Christopher Nolan, diretor do recente ‘Tenet’, que reclamou dos lançamentos simultâneos da Warner Bros.

“Tem muita controvérsia nisso porque eles não contaram [previamente] para ninguém. Em 2021 eles terão alguns dos grandes cineastas do mundo, eles terão algumas das grandes estrelas do mundo, que trabalharam por anos em alguns casos em projetos que amam e que foram pensados para a tela grande.”, afirmou o diretor em dezembro passado.

Christophen Nolan, ao lado de John David Washington: o diretor também reclamou do HBO Max (Crédito: divulgação / Warner Bros.)
Christophen Nolan, ao lado de John David Washington: o diretor também reclamou do HBO Max (Crédito: divulgação / Warner Bros.)

“Eles queriam que fossem lançados para o maior público possível… E agora estão sendo usados para a plataforma de streaming que está na rabeira do mercado – um serviço de streaming incipiente – sem qualquer consulta.”

“É tudo muito, muito, muito, muito bagunçado”, definiu Nolan. “Não é assim que se trata os cineastas, estrelas e as pessoas… Esses caras deram tudo nesses projetos. Eles mereciam ser consultados sobre o que aconteceria com o trabalho deles.”

A Legendary Pictures, produtora e sócia de ‘Godzilla vs. Kong’ e de ‘Duna’, também teria ficado sabendo do lançamento simultâneo dos longas no HBO Max pela imprensa – o que teria desagradado a empresa.

Agora, Scarlett Johansson tomou o primeiro passo concreto na direção do que pode ser uma revolução na relação entre astros e estúdios. Tudo parte do jogo que é mudar o modelo de negócio de uma indústria centenária como a do cinema. Vamos ver onde isso vai dar.

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