Nolan Tenet

Nolan reclama da “bagunça” da Warner e afirma: HBO Max é “o pior streaming”

Em 2021, todos os filmes da Warner Bros. terão lançamentos simultâneos nos cinemas e no HBO Max – o que irritou o diretor Christopher Nolan

8 de dezembro de 2020 12:32
- Atualizado em 28 de dezembro de 2020 13:27

A decisão da Warner Bros. de, em 2021, lançar seus filmes no HBO Max no mesmo dia que nos cinemas não agradou a todos – e há uma voz forte dissonando: a de Christopher Nolan. Em nota para The Hollywood Reporter, o diretor de longas como ‘Tenet‘, ‘A Origem‘ e ‘Batman: O Cavaleiro das Trevas‘ atacou a iniciativa do estúdio, anunciada no último dia 3 de dezembro.

“Alguns dos grandes cineastas de nossa história e as mais importantes estrelas foram para a cama na noite anterior pensando que estavam trabalhando para os grandes filmes do estúdio, e acordaram para descobrir que estavam trabalhando para o pior serviço de streaming”, disse o diretor.

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“A Warner Bros. tem uma máquina incrível para lançar o trabalho dos cineastas em qualquer lugar, seja nos cinemas ou em casa, e eles estão desmontando isso enquanto conversamos. Eles nem entendem o que estão perdendo. A decisão deles pode ter sentido econômico, e o mais casual investidor de Wall Street pode ver as diferenças entre disrupção e disfunção.”

'Tenet', filme da Warner dirigido por Christophen Nolan - filme não teve lançamento simultâneo no HBO Max
Nolan esperava que ‘Tenet’ fosse o filme do grande retorno aos cinemas após a pandemia, mas a pandemia ainda não passou (Foto: divulgação / Warner Bros.)

Para o ET Online, Nolan foi além: “Tem muita controvérsia nisso porque eles não contaram [previamente] para ninguém. Em 2021 eles terão alguns dos grandes cineastas do mundo, eles terão algumas das grandes estrelas do mundo, que trabalharam por anos em alguns casos em projetos que amam e que foram pensados para a tela grande. Eles queriam que fossem lançados para o maior público possível… E agora estão sendo usados para a plataforma de streaming que está na rabeira do mercado – um serviço de streaming incipiente – sem qualquer consulta.”

“É tudo muito, muito, muito, muito bagunçado”, definiu Nolan. “Não é assim que se trata os cineastas, estrelas e as pessoas… Esses caras deram tudo nesses projetos. Eles mereciam ser consultados sobre o que aconteceria com o trabalho deles.”

No video on demand e nos cinemas

O lançamento simultâneo nos cinemas e no online foi anunciada na última semana, e compreende apenas os 17 filmes da WB previstos para 2021. A ideia é contornar os transtornos causados pela pandemia da covid-19 – mesmo com os cinemas reabertos em boa parte do mundo, ainda há medidas restritivas e o público tem receio de ir às salas de exibição. Os títulos ficarão apenas um mês no HBO Max, continuando nos cinemas e partindo para outros janelas de exibição após esse período.

A medida ocorreu justamente após o lançamento de ‘Tenet’ exclusivamente nos cinemas não alcançar as expectativas. A Warner Bros. adiou o mais novo longa-metragem de Christophen Nolan diversas vezes e, quando finalmente o lançou na tela grande, não pode fazê-lo por meio de uma data global – cada mercado mundial recebeu o filme em um dia diferente, por conta das restrições locais.

'Tenet', filme da Warner dirigido por Christophen Nolan - filme não teve lançamento simultâneo no HBO Max
John David Washington e Robert Pattinson no set de ‘Tenet’ (Foto: divulgação / Warner Bros.)

De acordo com o Box Office Mojo, ‘Tenet’ fez, até agora, US$ 359,9 milhões de bilheteria global – isso para uma produção que tem um orçamento estimado em US$ 205 milhões. Para comparação, ‘Dunkirk’, o longa anterior de Nolan, teve um orçamento por volta dos US$ 150 milhões e uma bilheteria mundial de US$ 526,9 milhões.

Agora, uma segunda onda da doença causada pelo SARS-CoV-2 atinge diversos mercados importantes, incluindo o dos EUA, o que poderia causar mais problemas para a arrecadação dos cinemas.

“Um grande erro”

Outras vozes de Hollywood também demonstraram descontentamento com o anúncio da Warner Bros. “A Warner cometeu um grande erro”, disse um agente, de forma anônima, ao THR. “Nunca vi tanta gente chateada com uma empresa”, disse outro.

Há, ainda, a questão financeira. Quando um filme é lançado nos cinemas, alguns atores, produtores e diretores recebem parte da renda da venda de ingressos. Já no streaming por assinatura, dentro da estratégia adotada pela WB para o HBO Max, a plataforma paga pelo licenciamento do longa e o espectador não desembolsa um valor específico para uma produção ou outra – há, apenas, a mensalidade. Por isso, com o lançamento simultâneo, os recebimentos tendem a ser drasticamente afetados.

Existe a chance dessa virar uma luta envolvendo os sindicatos de Hollywood, que são fortes.

Caixa d'água da Warner Bros.
Os ânimos estão aflorados no estúdio da famosa caixa d’água (Foto: divulgação / Warner Bros. Studios)

Na visão dos envolvidos na indústria do cinema, a WarnerMedia optou pelo caminho de lançamento simultâneo após os investidores terem visto como apenas morna a estreia do HBO Max no streaming. Até agora, são 28,7 milhões de assinantes – mas a promessa de estreias simultâneas a partir de ‘Mulher-Maravilha 1984‘ deve elevar esse número.

“Eles não entendem sobre o mercado de cinema, eles não entendem sobre o relacionamento com talentos”, bradou um agente ouvido pela THR, criticando a cúpula da AT&T – grupo de telecomunicações que comprou a Time Warner, a renomeando WarnerMedia.

Outro medo dos críticos à estratégia da Warner Bros. é a pirataria. No momento em que o filme é lançado no HBO Max, “uma versão excelente do filme está em todos os lugares imediatamente”, relembrou um veterano da indústria ouvido pelo veículo americano.

Pagar ou não pagar?

Resta saber, agora, como a WarnerMedia irá responder à gritaria do mercado. No caso de ‘Mulher-Maravilha 1984’, o grupo pagou um gordo cheque a todos os envolvidos no filme que teriam direito a uma parte da bilheteria nos cinemas – mas, diz o THR, apenas porque querem um terceiro filme na franquia.

De qualquer forma, a diretora Patty Jenkins e as estrelas Gal Gadot, Chris Pine, Kristen Wiig e Pedro Pascal continuam empenhados na divulgação de um filme que já deveria ter sido lançado – eles, inclusive, participaram da CCXP Worlds, no último fim de semana. No Brasil, onde o HBO Max chega apenas em 2021, a estreia do longa será exclusiva dos cinemas no próximo dia 17.

Cena de 'Mulher-Maravilha 1984', que a Warner irá lançar no HBO Max no mesmo dia dos cinemas
‘Mulher-Maravilha 1984’ tem, nos EUA, lançamento simultâneo no VOD e nos cinemas em 25 de dezembro – no Brasil, a estreia é no dia 17 (Foto: divulgação / Warner Bros.)

Será que os envolvidos nos lançamentos de 2021 também receberão compensações parecidas? Já existe, neste momento, uma porta aberta para essa negociação com as agências dos talentos.

Não é só isso. Há, ainda, a disputa com as produtoras envolvidas nos longas. A Legendary Pictures, por exemplo, tem 75% de ‘Godzilla vs. Kong’, que teve a oferta de compra por US$ 225 milhões da Netflix negada pela Warner Bros. – que tem direito a veto nessa negociação. O lançamento foi então adiado para 2021 e, na semana passada, os executivos da empresa fundada Thomas Tull descobriram que o longa iria para o HBO Max sem, até o momento, qualquer compensação financeira.

‘Duna’ é outro filme da Legendary de grande orçamento (ambos custaram por volta dos US$ 160 milhões) em caso parecido. Isso deve azedar ainda mais a relação entre os dois grupos.

O que será de 2021?

Resta, agora, saber o que acontecerá com o mercado como um todo em 2021. A iniciativa da WarnerMedia com o HBO Max, junto com a da Disney de pular os filmes de cinema de 2020 e lançar direto no Disney+, pode, se der certo, ditar os rumos do mercado a partir daqui. Porém, a estremecida relação da WB com os talentos do mercado pode afetar a perspectiva de ter em mãos grandes conteúdos no futuro.

Outro ponto é como ficarão os exibidores – sejam eles as grandes redes ou os cinemas de bairro. O ano de 2020 já foi bem complicado e mesmo que as coisas melhorem para 2021, a competição do streaming será bem amarga para quem já está quase na lona.

‘Duna’ é um dos longas previstos para 2021 (Foto: divulgação / Warner Bros.)

E o mais importante: o vírus ainda está por aí. De acordo com a Universidade Johns Hopkins, o mundo registrou o pico de novos casos diários na última semana – cerca de 650 mil, contra menos de 300 mil em agosto. Já são quase 1,55 milhão de mortos em todo o mundo desde o começo da pandemia, na contagem oficial.

“Quando os cinemas voltarem as pessoas vão voltar para os filmes”, disse um otimista Nolan. “Quando a vacina for aplicada e houve uma resposta apropriada do governo federal [dos EUA], eu estou bastante otimista com as perspectivas de longa prazo para a indústria. As pessoas adoram ir ao cinemas e voltarão a fazê-lo.”

No Reino Unido, a primeira dose da vacina contra a covid-19 começou a ser aplicada nesta terça, 8. Nos Estados Unidos, a imunização deve começar nas próximas semanas. Já no Brasil e em outros países não há ainda um plano nacional completo para a vacinação.

Há, por fim, uma outra dúvida: será que o público, ao ter o gosto de receber em casa os lançamentos mais recentes no mesmo dia dos cinemas e sem nenhum custo adicional à assinatura que já paga, irá voltar para as salas de exibição? Essa resposta cabe apenas a você, que está lendo esta notícia.

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