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“Aquele ataque revelou a cara mais feia da ONU”, diz viúva de Sérgio

A economista argentina Carolina Larriera falou sobre sua relação com Sérgio Vieira de Mello e, principalmente, sobre o descaso da ONU após a morte do diplomata

Matheus Mans   |  
30 de abril de 2020 11:16
- Atualizado em 17 de junho de 2020 12:06

Na trama principal do filme ‘Sergio‘, produção brasileira exclusiva da Netflix, o público consegue enxergar dois caminhos. Por um lado, a missão diplomática do carioca Sérgio Vieira de Mello no Iraque. Por outro, sua relação com Carolina Larriera, parceira até morte do brasileiro em Bagdá.

Economista argentina, Larriera é interpretada no longa-metragem por Ana de Armas (‘Entre Facas e Segredos‘). É retratada como uma mulher dedicada ao seu trabalho e que via em Sérgio (vivido por Wagner Moura) uma pessoa a ser amada e respeitada. Agora, porém, Carol mostra que há coisas além.

Em sua conta oficial no Twitter, a viúva indica que alguns assuntos não foram tratados no filme. “Após o impacto positivo da estreia de ‘Sergio’, queria compartilhar sobre quem realmente era Sérgio Vieira de Mello, mas acima de tudo o que realmente aconteceu após o ataque de Bagdá”, diz.

A verdade de Carol e Sérgio

Ao longo de 18 tuítes, Larriera confirma algumas histórias, como a aproximação de Sérgio três anos antes de sua morte, durante uma missão no Timor Leste. Além disso, reafirmou que os dois sonhavam “em voltar ao Brasil para viver em frente ao seu mar” depois da missão no Iraque.

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No entanto, seu principal destaque está no depois — algo não mostrado pelo filme, que sobe os créditos logo após a morte de Sérgio Vieira de Mello. Segundo ela, o atentado fez nascer verdades. “Em um piscar de olhos, […] aquele ataque revelou a cara mais feia das Organização das Nações Unidas”.

Sérgio e Carolina estavam juntos há três anos (Crédito: Acervo Pessoal/Carolina Larriera)

Assim, reafirmando o que ela já disse em diversos artigos, Larriera explica que a ONU não a reconheceu como esposa de Sérgio por não serem oficialmente casados. Nem mesmo depois da Justiça reconhecer a união civil. Com isso, a argentina teve os direitos como família da vítima negados.

“Ainda sob choque do atentado ao qual sobrevivi, de repente me vi inexplicavelmente removida das listas de sobreviventes. Além do estresse pós-traumático da explosão […], tive que lidar com o desumano abandono absoluto da mesma ONU que havia nos enviado”, afirmou a economista.

Ataque geopolítico

Por fim, para explicar isso, Larriera diz que foi um movimento estratégico de Kofi Annan, então secretário-geral da ONU. Para salvar o cargo após a explosão, ele se alinhou aos franceses — que viam com ressalva o ataque dos EUA ao Iraque. Como preço, acabou mandando o caixão de Sérgio para lá.

Implicitamente, ela indica que poderia ser um empecilho nessa reaproximação. Afinal, afirma que foi “silenciada” durante essa estratégia.

“Compreensivelmente, o filme não iria lidar com esses problemas. Mas estes anos foram muito difíceis”, continuou. “Voltei ao Brasil, pátria de Sérgio que me reconhece como sua viúva, e à Argentina. Comecei a reconstruir minha vida. Gilda, mãe de Sergio, cuidou de mim em sua casa”.

Assim, já longe da ONU, Larriera é responsável pelo Centro Sergio Vieira de Mello, associação que visa manter os ensinamentos do carioca vivos.

“Um caminho ingrato aguarda os que ousam litigar por seus direitos perante a ONU. Continuo lutando: por mim e pelos sobreviventes. Sérgio foi uma pessoa importantíssima na história da ONU; deixou um legado com aqueles que sofrem em conflitos que assolam o mundo”, finaliza a viúva.