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‘Ascensão’: o “milagre chinês” sob a lupa

O documentário ‘Ascensão’, da diretora Jessica Kingdon e indicado ao Oscar 2022, mostra de perto o “milagre econômico” da China

Lalo Ortega   |  
17 de março de 2022 16:57
- Atualizado em 18 de março de 2022 15:51

Proporções e contextos à parte, coincidência ou não, a experiência de assistir ao documentário ‘Ascensão’ – indicado ao Oscar 2022 e já disponível no Paramount+ – lembra o seminal filme soviético de Dziga Vertov, ‘Um Homem com uma Câmera’, lançado em 1929.

Desde então, as inovações do documentário de Vertov (e, por extensão, dos kinoks ou movimento “cine-eye” dos cineastas soviéticos) já são fundamentais na arte do cinema, em particular, do tipo de filmes que perdem toda a influência de narrativas convencionais. Um cinema, então, em que as imagens falam por si (a famosa regra de ouro, “mostre, não conte”).

Tematicamente, inclusive, os paralelos também podem ser vistos: sem diálogo, narração, roteiro ou mise-en-scène, ‘Um Homem com uma Câmera’ é um caleidoscópio frenético – rico em técnicas cinematográficas inovadoras para sua época – da vida cotidiana na sociedade soviética durante o boom industrial, com um evidente otimismo nacionalista em relação ao progresso da então União Soviética.

'Ascensão': o "milagre chinês" sob a lupa
‘Ascensão’ é um mosaico de imagens do excesso (Crédito: Divulgação/Paramount+)

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É poético que, quase um século depois, a diretora Jessica Kingdon use técnicas semelhantes para filmar, através de 51 locações diferentes na China, a rotina do gigante asiático em seu auge de desenvolvimento capitalista, em vista de se tornar a maior superpotência do globo, depois de ter sido um país maquilador para o resto do mundo há cerca de 40 anos.

A diretora também filma em ‘Ascensão’ vinhetas de várias esferas da vida urbana na China, o que, para os espectadores contemporâneos, é uma perspectiva que pode parecer o terreno fértil perfeito para uma narrativa fragmentada, caótica e até incoerente.

Nada está mais longe da realidade. Embora o frenesi sensorial com que Kingdon captura a nação asiática hiperdesenvolvida possa ecoar alguns aspectos de Vertov, há um fio comum em ‘Ascensão’ que está implícito por um pessimismo subjacente por parte da diretora.

Kingdon pega emprestado o título de ‘Ascensão’ de um poema escrito por seu bisavô, mas também faz alusão à estrutura narrativa do documentário. A história que ela sugere é uma das classes sociais da China, começando com a classe trabalhadora que lota as fábricas e montadoras, e que vai avançando para a elite econômica que se beneficia disso.

A China plástica

Em um mundo pós-pandemia atingido pelo desemprego generalizado, imagens de vagas anunciadas por recrutadores em mercados de rua lotados em busca de mão de obra são surreais. Entre todos os empregos que eles oferecem, suas palavras já indicam quais são as condições: um dos diferenciais é se o trabalho é sentado ou em pé.

A câmera então viaja para as entranhas da economia chinesa, onde a diretora faz bom uso desse dinamismo visual vertoviano. Sob o olhar atento dos retratos de Xi Jinping, as fábricas de garrafas plásticas funcionam como um relógio, as montadoras de telefones celulares funcionam incessantemente e os funcionários das fábricas de calças são repreendidos por suas imprecisões. O contraponto é a extinção do eterno ciclo de criação e destruição, onde este último é substituído por resíduos plásticos avassaladores: montanhas e montanhas dele em aterros.

Entre vinhetas e vinhetas do mundo industrial, sem maiores comentários ou contexto (“mostre, não conte”), ‘Ascensão’ começa a explorar os vícios e contradições do crescimento econômico chinês, do mais sutil ao mais obsceno.

‘Ascensão’ destaca, por exemplo, que a China não se desfez completamente de seu status de país maquilador, pois vemos roupas bordadas com as palavras “Keep America Great” (o slogan da campanha de reeleição presidencial de Donald Trump). Em outra cena – como algo saído de ficção científica distópica – mulheres chinesas montam dezenas de bonecas sexuais, com corpos exagerados ao ponto do grotesco, com traços faciais evidentemente ocidentais.

Esses paradoxos tornam-se mais aparentes à medida que a narrativa ascende de um estrato econômico para outro. Nas indústrias de hospitalidade e serviços, os trabalhadores são orientados a adotar modos e costumes ocidentais. Eles são doutrinados na absoluta lealdade e responsabilidade para com seus empregadores e, ao mesmo tempo, incentivados a trabalhar duro para se destacar em uma sociedade onde tudo, até eles mesmos, são produzidos em massa.

Ascensão o "milagre chinês" sob a lupa
Em ‘Ascensão’, vemos que no Oriente e no Ocidente os influenciadores são os promotores do consumo (Crédito: Divulgação/Paramount+)

A mesma coisa acontece com o lazer: as escolas de influenciadores ensinam os indivíduos a “monetizar suas marcas pessoais”. Assim como nos Estados Unidos, a uniformidade artificial dos shoppings é a norma do entretenimento. As salas de computadores estão cheias de jogadores, dispostos a passar horas na frente da tela para competir. Em uma das imagens mais características de ‘Ascensão’, um parque aquático está repleto de dezenas de carros alegóricos cor-de-rosa.

Assim como as fábricas de onde vêm esses intermináveis ​​artigos, a maquinaria de consumo dá voltas e gira sem parar. E no topo estão os ricos, poderosos e déspotas (nas academias, os mordomos são alertados contra possíveis maus tratos), que expressam seu gosto pelo “american way” (“jeito americano”, em tradução livre), apesar da guerra comercial.

‘Ascensão’: o paradoxo e o pessimismo

Talvez o mais revelador do documentário seja que, apesar do hermetismo percebido da nação asiática em relação ao mundo exterior, Kingdon expõe a contradição: na realidade, a China não é diferente do bloco econômico ocidental. Pelo contrário, ele aspira ser seu rival digno no mesmo jogo.

À medida que a elite econômica adota levianamente os costumes ocidentais, aprendemos que as empresas domésticas desejam aumentar o consumo doméstico. Ainda há muito espaço para crescer, dizem eles, já que a população chinesa não consome tanto quanto os americanos. Ainda há muito dinheiro a ser ganho, dizem eles, e a riqueza será distribuída para aqueles que trabalham duro.

No entanto, a experiência em todo o Pacífico determina que isso raramente é o caso. Talvez essa perspectiva (Kingdon, que se define como sino-americana, mora em Nova York e é filha de pai judeu e mãe chinesa) informe os significados da narrativa que a diretora sugere com a viagem de sua câmera pela economia chinesa.

“Vejo a China como o cenário para questões universais sobre o paradoxo do progresso, que são ampliadas e exploradas à medida que se move do que antes era conhecido como a fábrica do mundo para uma das maiores sociedades de consumo do mundo”, disse Kingdon na entrevista de apresentação do documentário no Tribeca Film Festival.

E é que, terminada a jornada de ‘Ascensão’, é impossível não ver as contradições do chamado progresso, que beneficia uns poucos e desumaniza muitos outros. Se isso acontece em lados teoricamente opostos do globo em nome do crescimento econômico, que esperança há para os menos privilegiados?

Kingdon fecha o círculo com um trecho do poema de mesmo nome escrito pelo seu bisavô Zheng Ze, publicado em 1912. “Tudo já foi arrasado”, sem dúvida.

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Publicado primeiro na edição mexicana do Filmelier News.

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