‘Assassinos da Lua das Flores’: verdades e mentiras no filme de Martin Scorsese ‘Assassinos da Lua das Flores’: verdades e mentiras no filme de Martin Scorsese

‘Assassinos da Lua das Flores’: verdades e mentiras no filme de Martin Scorsese

‘Assassinos da Lua das Flores’ é inspirado em um livro, totalmente baseado em fatos, de David Grann

Matheus Mans   |  
19 de outubro de 2023 23:29

Pode-se dizer que a história de Assassinos da Lua das Flores começou em 2012. Conforme conta o The Telegraph, David Grann, autor do livro que inspirou o filme de Martin Scorsese, estava no Museu da Nação Osage quando encontrou uma grande foto de nativos. Em um dos cantos, porém, ficou intrigado: um homem branco teve seu rosto riscado. Ao perguntar para a curadora do museu quem era, recebeu a resposta que mudou sua vida: era William Hale.

Grann investigou mais sobre essa figura, buscou entender mais sobre o sangue derramado na terra da Nação Osage e acabou produzindo um livro histórico — que, nesta quinta-feira, 19 de outubro, ganha as telonas pelas mãos de Martin Scorsese. Mas o que é verdade e o que é ficção? É isso que explicamos aqui. E cuidado: contém spoilers do filme.

Isso aconteceu de verdade com a Nação Osage?

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Sim, toda a história de Assassinos da Lua das Flores é baseada em fatos. Tudo começou, de fato, em 1870, quando os Osage foram realocados pelo governo norte-americano na seca região de Oklahoma, nos Estados Unidos. As perspectivas na vida dos indígenas mudaram, porém, quando descobriram uma imensa reserva de petróleo no subsolo. Isso serviu para que eles “cedessem” a terra em troca de dinheiro, tornando-os verdadeiros milionários.

“Modestos assentamentos como Gray Horse se encheram de casas luxuosas, carros enormes e índios com vasto serviço pessoal em uma ordem social sem precedentes nos EUA”, destaca Juan Carlos Galindo, jornalista do El País.

Depois, de fato, a tribo passou a sofrer com uma série de assassinatos, nunca investigados e que se tornaram tão corriqueiros quando banais. Pior de tudo: conforme conta Grann ao repórter do El País, os Estados Unidos, geralmente um país tão ávido por histórias sobre crimes, ignorou o que estava acontecendo por ali. “Eles não podiam esquecer algo que os EUA ignoravam, que não é estudado na escola, que até mesmo em Oklahoma era desconhecido”, diz.

Hoje, há uma estimativa nos Estados Unidos de que mais de 600 nativos da tribo Osage foram mortos nessa época.

William Hale existiu? Ele era realmente um assassino em série?

Sim, infelizmente William Hale existiu. O principal mentor do assassinato da tribo Osage, que no filme de Scorsese é interpretado por Robert De Niro, era o homem que arquitetou todo o plano de assassinar os indígenas silenciosamente. Era tão poderoso que também controlava a polícia local e evitava investigação sobre as mortes.

Este é o verdadeiro William Hale, interpretado no filme por De Niro (Crédito: Arquivo Bettmann)

Assim, igualzinho como é mostrado no filme, Hale se infiltrou na comunidade, forçou seu sobrinho, Ernest Burkhart, a a casar com uma mulher osage de sangue puro e liderou essa conspiração para matar os Osage e herdar seus direitos. Indígenas foram baleados, envenenados, afogados e por aí vai. Grann diz: “era mais fácil matar índios do que cães”.

Mollie Burkhart também existiu?

Sim. Mollie, que é brilhantemente interpretada no filme por Lily Gladstone (Certas Mulheres), é considerada uma das principais razões para o fim do assassinato em massa de sua nação. Ela perdeu toda a família em assassinatos, intoxicações causadas por álcool adulterado, desaparecimentos e mortes por doenças nunca vistas ou registradas. Depois de se separar de Ernest, de quem há poucos registros, ela nunca se calou — até morrer com apenas 50 anos.

Quem colocou um fim nesse assassinato em massa?

Assim como em Assassinos da Lua das Flores, o FBI agiu e conseguiu colocar um ponto final nessa história — no longa-metragem, a agência norte-americana de investigações é representada principalmente por Tom White, investigador que existiu de fato e que é interpretado por Jesse Plemons (Ataque dos Cães). Conforme conta Grann em seu livro, que inicialmente era sobre o FBI, esse foi o cartão de visitas de J. Edgar Hoover, diretor que estava iniciando a agência.

 Gladstone e DiCaprio: os protagonistas de Assassinos da Lua das Flores (Crédito: Paramount Pictures)
Gladstone e DiCaprio: os protagonistas de Assassinos da Lua das Flores (Crédito: Paramount Pictures)

Então tudo é verdade em Assassinos da Lua das Flores?

Scorsese, buscando reverenciar o povo Osage, buscou se ater aos fatos da investigação feita por Grann anos antes — além de colher depoimentos do próprio povo. Afinal, vale lembrar que o longa-metragem foi filmado em locações em terras Osage, usando atores, técnicos e consultores Osage — contribuindo para o orçamento de US$ 200 milhões.

Só há um elemento importante e que ficou de fora. Ou seja, não é exatamente uma “mentira”, mas uma omissão. Apesar de ser mais fácil acusar apenas William Hale, que realmente era uma pessoa do mal, há mais por trás.

O Estado usou seus recursos para complicar o acesso dos Osages ao petróleo. “Um sistema federal de roubo foi criado, por meio do qual alguns ganharam milhões, milhões e milhões”, resume Grann ao El País. “Hall é o típico monstro e era reconfortante pensar que ele foi o único responsável por essa matança prolongada. Perceber que a maldade aninhava nos corações de tanta gente comum foi terrível”. Por isso, o livro é a descrição “uma cultura do assassinato”.

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