Desencantada

‘Desencantada’: a piada só tem graça na primeira vez

‘Desencantada’ retoma a história de Giselle 15 anos depois do “felizes para sempre” de ‘Encantada’

Lalo Ortega   |  
18 de novembro de 2022 09:15
- Atualizado em 23 de novembro de 2022 17:14

Provavelmente não existe sequência de um filme da Disney mais esperado – e, ao mesmo tempo, adiado  do que ‘Desencantada’. O filme chega hoje ao Disney+, 15 anos após a estreia do original ‘Encantada’, em 2007. Os rumores sobre suas filmagens começaram a surgir desde 2010.

Uma das razões para o atraso, de acordo com o compositor Alan Menken, foi que a Disney estava procurando um roteiro “adequado”. Você pode entender o porquê: o filme original foi a proverbial tempestade perfeita de elenco, música e premissa.

Em uma época de transição, o estúdio do Mickey Mouse estava em uma posição única: metanarrativas que desconstruíam fórmulas e zombaram de si eram comercialmente viáveis ​​(como ‘Shrek’ havia demonstrado tão bem), então quem melhor para rir do que a Disney?

Cena do filme ‘Desencantada’, com Amy Adams (Crédito: Divulgação/Disney)

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Curiosamente, ‘Encantada’ é um filme que consegue se safar de sua contradição, um não-conto de fadas que zombou do príncipe encantado, do conceito de “amor verdadeiro” e “felizes para sempre” no mundo real, mas que oferece justamente isso para seus protagonistas. Para onde ir a seguir?

A tríade de roteiristas formada por David N. Weiss, J. David Stem e Richard LaGravenese está indo para o caminho mais fácil: fazer o “felizes para sempre” de ‘Encantada’, afinal.

Porque agora acontece que Giselle (Amy Adams), que tinha a vida perfeita que queria, agora se encontra um pouco… desencantada com as mudanças nela. Sua enteada Morgan (Gabriella Baldacchino) não é mais uma criança fascinada por magia, e sua relação com ela mudou. Faminta pela vida de conto de fadas que pensava ter, Giselle propõe que toda a família troque sua casa em Manhattan pelos pitorescos subúrbios de Monroeville. A adolescente Morgan, privada de tudo o que já conheceu, não está exatamente feliz.

Após uma discussão com Morgan, e com a intervenção de uma certa engenhoca mágica fornecida por Edward (James Marsden) e Nancy (Idina Menzel), Giselle faz um desejo: ter uma vida como um conto de fadas. Ele consegue o que quer, e Monroeville se transforma em uma cidade mágica onde os animais falam, bravos guerreiros defendem os aldeões dos monstros e todos começam a cantar e dançar à menor provocação. Mas, como tudo, isso tem um preço que a própria Giselle deve pagar em primeira mão.

A premissa de ‘Desencantada’ é interessante e, pelo menos na superfície, original o suficiente para se destacar de seu antecessor, praticamente virando-o de cabeça para baixo. Giselle agora está indo para trás, agarrando-se à vida que ela teve e ansiando pela vida “simples” de princesa que ela desistiu. É uma história sobre aprender a abrir mão das coisas para não nos deixarmos absorver pela tristeza.

No entanto, o roteiro é derivado em outras instâncias e insiste em piadas já óbvias do primeiro filme (sim, entendemos, é ridículo os personagens da Disney cantarem tanto). Mais do que isso, como acontece com tantas outras produções recentes sob o guarda-chuva da Disney, esta continuação de ‘Encantada’ peca de querer fazer demais, diluindo o poder do que é realmente essencial.

‘Desencantada’ é, infelizmente, a típica sequência inferior ao seu antecessor

Há pontos marcantes: como não poderia ser diferente em uma produção da Disney, o figurino é fenomenal, e tanto a música quanto a coreografia são impecáveis. Um dos compositores mais célebres da história da Disney (que também compôs a música para ‘Encantada’) retorna nesta sequência com melodias que são simplesmente tão gloriosas quanto cativantes.

O problema remonta ao roteiro, pois embora as canções e danças sejam dignas de um musical de primeira, os números musicais a que pertencem são em sua maioria desnecessários. Vários deles sentem que foram criados para cobrir uma cota obrigatória e dar a cada membro do elenco seu momento sob os holofotes.

E não é uma reclamação ouvir Idina Menzel cantar, mas a verdade é que ela é uma das personagens que menos tem a fazer aqui. E é melhor nem falarmos do de Patrick Dempsey, porque está escrito como um apêndice: inócuo e perfeitamente removível sem prejuízo da narrativa.

Tais exemplos são apenas uma pequena amostra de como ‘Desencantada’ é atormentado por um vício que parece afligir as produções contemporâneas da Disney (particularmente as da Marvel Studios): o mais. Sequências que deveriam ser maiores, com mais personagens, mais subtramas e mais referências. Existem, de fato, alguns acenos para o cânone das princesas da Disney. Algumas são sutis e elegantes, mas outras são tão grosseiras que nos fazem pensar se não seria melhor ignorá-las e deixar a história se desenvolver sozinha.

‘Desencantada’ é uma bagunça insuportável? Longe disso, há elementos verdadeiramente maravilhosos nele – e vamos lá, Amy Adams devora cada segundo na tela. Mas o resultado parece quando alguém insiste em repetir a mesma piada indefinidamente. Pode ter sido muito engraçado da primeira vez, mas mesmo os melhores esquetes não riem para sempre.

Desencantada’ já está no Disney+. Para saber mais sobre o filme ou encontrar o link direto para assisti-lo, acesse aqui.

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