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“Lars Von Trier deu sua vida para a arte”, diz a protagonista de ‘The Kingdom Exodus’

Em entrevista exclusiva, a atriz dinamarquesa Bodil Jørgensen comenta o lançamento da nova série do MUBI e os desafios de trabalhar com o controverso diretor, debilitado pelo Parkinson

Caio Cesar

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23 de novembro de 2022 07:00

Não é apenas no cinema americano e nos blockbusters que a nostalgia está em alta. Durante o mês de novembro, a MUBI estreia em seu catálogo as versões remasterizadas de duas temporadas de ‘The Kingdom’, série de ficção científica e mistério do realizador dinamarquês Lars Von Trier. A novidade é que a plataforma também adquiriu os direitos da temporada final, ‘The Kingdom Exodus’, produzida cerca de 30 anos após a estreia da original. 

A série é mais um exemplar da obra alternativa e provocante do diretor, produtor e roteirista, que meses atrás assumiu publicamente estar lutando contra a Doença de Parkinson em um estágio avançado. ‘The Kingdom Exodus’ dá seguimento a história de uma grande clínica dinamarquesa, a Kingdom, onde vários pacientes e médicos se encontram diariamente e cujas histórias estão entrelaçadas por uma trama de mistério. 

The Kingdom Exodus
Bodil Jørgensen é a protagonista da série ‘The Kingdom’ (Crédito: Divulgação/MUBI)

Uma das novas personagens da série é Karen, uma senhora que vaga pelos corredores do hospital ainda traumatizada pela perda do filho, interpretada por Bodil Jørgensen. Ela é uma das várias peças da alegoria criada por Lars Von Trier para discutir sociedade, transtornos mentais e, ultimamente, segundo Bodil, a própria relação do diretor com a sua condição médica. 

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A seguir, em entrevista exclusiva ao Filmelier, a atriz dinamarquesa Bodil Jørgensen detalha o processo e os desafios que fazem de ‘The Kingdom Exodus’ um ótimo exercício para a atuação. Informalmente, a muito bem humorada atriz demonstrou interesse pelo Brasil, vontade de visitar o Rio de Janeiro e conhecimento sobre o resultado das eleições presidenciais do país, citando o nome do presidente eleito. 

Filmelier: ‘The Kingdom’ está de volta após quase trinta anos, agora com ‘The Kingdom Exodus’. Para se preparar para sua personagem, Karen, você sentiu que precisava revisitar a série original? 

Bodil Jørgensen: Sim. Há cerca de 30 anos, quando os episódios originais foram lançados, foi na mesma época do lançamento de ‘Twin Peaks’. E não era uma época de ouro na televisão, como a gente vê hoje. Eram pouquíssimos seriados como aqueles. (‘The Kingdom’) era uma produção dinamarquesa, com atores nacionais. Eu estava na escola de teatro, ficamos todos surpresos. E logo depois eu fiz ‘Os Idiotas’ (1998, dirigido por Lars Von Trier). 

Lars e eu éramos 30 anos mais novos, à época. Mas eu já tinha tido alguns êxodos na minha vida. Certa vez, sofri um acidente em um set, quase parti deste mundo. Todos esses anos passaram, e agora eu e Lars nos reencontramos. Ele está lidando com a Doença de Parkinson, e eu com as minhas questões, mas estou bem, ainda faço teatro. 

Filmelier: Fale mais sobre Karen, sua personagem. Como a encontramos na série?

Bodil: Uma curiosidade: em ‘Os Idiotas’, o nome da minha personagem era Karen, como em ‘The Kingdom Exodus’. Um dia, perguntei ao Lars se era a mesma Karen nas duas obras e ele me disse que sim! Não se trata de uma continuação, mas no caso da minha personagem faz muito sentido que essa mulher, que perdeu um bebê no filme, agora seja perturbada por essa fatalidade de a criança ter dormido e jamais acordado. Eu penso que essa é a razão de ela ter se tornado uma sonâmbula. Ela quer saber sobre as razões do bem e do mal. É bom que tenhamos os sonhos… eu sempre penso que é onde tudo se encontra, talvez a vida e a morte. Tudo ganha vida nos sonhos. E a roupa que ela tá usando, com os elefantinhos, era o mesmo material de uma das roupas que ela fazia para o seu bebê. E é nos seus sonhos que ela entra no universo de ‘The Kingdom’. Pra descobrir que ela tem uma missão. Uma missão impossível (risos). Ela tenta, mas ela é uma humana muito humana. Ingênua, talvez. E você acha que ela vai conseguir, mas ela acaba falhando. E ela falha porque é muito fácil enganá-la, você só precisa girar os mapas do hospital e ela está perdida. 

Filmelier: Muito bom ouvir sobre essa conexão entre o filme e a série, o seu trabalho pregresso com o Lars. A série tem um visual e tom muito distintos. Como isso afeta o seu trabalho como atriz? Como usar a liberdade criativa para ajudar a trazer seu personagem à vida? 

Bodil: Não é sempre que isso acontece. Foi pra isso que eu virei uma atriz, na verdade. Não é sempre que você lê um roteiro e sente que pode se entregar ao personagem, de corpo e alma, seja em um filme ou numa peça de teatro. E, ainda assim, não é comum o tipo de vibração artística que eu sinto quando eu trabalho com o Lars. Eu lembro quando li o primeiro argumento de ‘Os Idiotas’. É uma história muito estranha, mas tem muito significado. ‘The Kingdom’ é engraçado, é curioso, mas comenta vários temas, como um poema de assuntos, um sonho. Não é sempre que você tem a oportunidade de trabalhar nesse ambiente, como atriz. 

Filmelier: Mas imagino que isso traga vários desafios para a produção. Eles valem a pena?

Bodil: Sim, talvez seja isso: um bom desafio. Sabe, minha personagem é muito simples. Ela está transitando pela história. E eu, como atriz, chego mesmo depois no processo, em algo que já está sendo escrito e dirigido. Estou lá para ser a voz de Karen – e ela tem várias vozes. (risos). Ela tem um profundo conhecimento e muita fé. E eu sempre tive medo disso. Como atriz, eu tinha medo de que eu não conseguisse contar essa história. Eu tenho muito orgulho pelo Lars, mas também por onde a série está indo. O hospital é apenas um microcosmos, mas é muito representativo porque o hospital é onde geralmente você nasce e morre. Então representa muito, é um lugar interessante para se estar como atriz. Já estive muito como paciente, mas como atriz também agora (risos). 

Filmelier: Como você enxerga a importância da série estar disponível agora, remasterizada pela MUBI, para uma nova geração de espectadores? Como manter esse universo relevante? 

Bodil: Aquela pergunta de “para onde vão os espíritos depois de tudo?” é equivalente a “para onde vai a arte nesse mundo?”, nesse momento em que tudo tem uma definição clara, seja por gênero, sexualidade, etc. Definimos a nós mesmos, a todo o tempo. O que interessa ao Lars é: para onde tudo isso vai? E isso nos mantém relevantes. Porque o êxodo não significa só a saída, mas a chegada em um outro ponto. Acho que é por isso que Lars deu sua vida para a arte. Ele está muito fraco agora por causa da sua doença, mas ele nunca comprometeu sua visão, ele sempre contou as histórias que queria contar. Você não pode guiá-lo em outra direção ou parar a criatividade dele. Eu tenho falado com várias pessoas da nova geração, mais novos, que já assistiram a série, e eles amam. Assistem porque a série se comunica com eles, e eles têm o espírito e os olhos necessários para assisti-la. Várias coisas tentam fechar essa visão artística, mas você precisa mantê-la ligada.

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29 Caio Cesar

Jornalista e produtor audiovisual. Escreveu para o AdoroCinema e foi diretor de imagens da TV Globo, integrando a equipe de novelas de sucesso como 'A Dona do Pedaço'.