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‘Deus tem Aids’ mostra como é a vida de pessoas com HIV– sem estereótipos

Dirigido por Gustavo Vinagre e Fábio Leal, o documentário acompanha artistas que tratam justamente de desmistificar a aids

Matheus Mans   |  
8 de dezembro de 2022 18:14

A frase “Deus tem Aids” te choca? Pois não deveria. A Aids é uma doença que deixou de ser uma sentença de morte há anos. Hoje, é controlável e, acima de tudo, está longe, muito longe de ser restrita em uma só comunidade, como acreditavam nos anos 1990. É uma doença como outra qualquer que, é claro, ainda deve ser tratada e prevenida, mas sem carregar todo aquele medo. É sobre isso que fala ‘Deus tem Aids‘, em cartaz nos cinemas nacionais.

Dirigido por Gustavo Vinagre (‘Lembro Mais dos Corvos’) e Fábio Leal (‘Seguindo Todos os Protocolos‘), o documentário acompanha artistas que tratam justamente de desmistificar a Aids e, também, romper estereótipos.

Cena de Deus tem Aids
Cena do filme ‘Deus tem Aids’, mostrando uma peça teatral sobre o tema (Crédito: Vitrine Filmes)

“O título do filme foi escolhido para provocar. Ele não deveria ser desconfortável. Se Deus é nossa imagem e semelhança, ele pode ter câncer, Aids”, diz Vinagre, em entrevista ao Filmelier. “No Brasil de hoje em dia, a gente pode esperar qualquer coisa. Já fui perseguido, já tive meus dados expostos no Twitter. Mas é sempre um fogo de palha. Eles querem causar no momento e depois esquecem, nem assistem ao filme. No final, tinha que ser esse título”.

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A ideia de ‘Deus tem Aids’ surgiu, justamente, a partir do desejo da dupla de diretores em romper com padrões de ódio. Afinal, em 2016, quando a ideia sobre o documentário começou a ser discutida por Gustavo e Fábio, primeiro veio o desejo de fazer um filme apenas com arquivos, pegando as primeiras imagens de jornais, novelas e programas sensacionalistas que tratavam da aids no Brasil. Depois, a ideia amadureceu e começou a ganhar novos contornos.

“Veio muito da nossa necessidade de falar sobre esse silêncio ao redor do vírus e que, durante muito tempo, houve a necessidade de dissociar o HIV da comunidade LGBTQIA+“, contextualiza. “Ao mesmo tempo, os números de novas infecções na comunidade estavam crescendo. A gente fez questão de associar o tema à comunidade sem medo de estigmatizar com uma conversa franca. Deixamos de fazer um filme historicista para mostrar iniciativas artísticas”.

Dessa forma, ‘Deus tem Aids’ fala com e sobre pessoas que estão pensando em novas imagens sobre o HIV no Brasil. São artistas que, por meio da arte e da criatividade, reinterpretam a doença e quebram estereótipos que se arrastam.

“É importante trazer isso primeiro por conta do governo, já que os tratamentos e o sistema de saúde passaram por um desmonte. Bolsonaro disse até que era gastar dinheiro”, diz Gustavo, sobre a importância da estreia do filme agora. “Além disso, tudo que foi criado lá atrás pela mídia sobre os perigos do HIV nunca foi retratado. Indetectável, por exemplo, não é transmissível. Isso é algo que o William Bonner deveria ter lido nas manchetes do ‘Jornal Nacional'”.

Choque com ‘Deus tem Aids’

Ao longo do documentário, Gustavo Vinagre e Fábio Leal falam com vários artistas que, justamente, reinterpretam a doença e trazem um novo olhar. Em um deles, já bem no final do filme, a câmera do documentário traz elementos que podem soar chocantes para uma boa parcela do público — há várias cenas envolvendo sangue e uma visão inesperada do artista e seu ânus. Para Gustavo, quando questionado sobre o Filmelier, imagem chocam e estão lá por um motivo.

“Essas pessoas, esses artistas já estavam no nosso radar. E a gente queria trazer uma diversidade de visões. Pode ser que alguns personagens do filme nem concordem uma performance tão explícita com sangue e nudez. Mas a gente não quis julgar nenhuma das obras. Nós documentamos gostando ou não, concordando ou não”, explica. “Essa obra também está num lugar muito diferente das outras. Ela rompe com isso de trazer o público pra perto. Quer perturbar”.

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