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‘Eduardo e Mônica’ indica que música pode ganhar espaço rico no cinema brasileiro

Filme, que estreia hoje (20) nos cinemas, mostra que caminho para colocar música na telona pode encontrar experimentalismos e adaptações que não ficam apenas no óbvio da biografia

Matheus Mans   |  
20 de janeiro de 2022 13:01
- Atualizado em 21 de janeiro de 2022 16:47

Nos Estados Unidos, o cinema biográfico musical está em polvorosa. Depois de ficar alguns anos adormecido, esse subgênero parece ter ganhado uma vida extra com ‘Bohemian Rhapsody‘, sucesso absoluto de público, de 2018, e que fala sobre a trajetória da banda Queen. Com isso, filmes sobre Madonna, Bob Dylan e Elvis Presley foram colocados na linha de produção. No Brasil, enquanto isso, a coisa não saía do lugar com cinebiografias sobre grandes estrelas daqui.

Elis‘, ‘Minha Fama de Mau’, ‘Tim Maia‘ e ‘Simonal‘ são alguns exemplos, todos bem sucedidos, de produções que mostraram que havia histórias a serem contadas nas fronteiras brasileiras. No entanto, fica um gosto de quero mais. Ainda que bem feitos e produzidos, esses filmes acabam limitados em pequenas caixas que definem como essas histórias vão se contadas. Há variações aqui e ali (‘Simonal’ talvez seja o exemplo mais feliz), mas nada além disso.

Por isso é tão refrescante a estreia de um longa-metragem nacional como ‘Eduardo e Mônica’, que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 20. É um filme musical e que se vale da riqueza cultural brasileira, mas sem entrar nas caixinhas da cinebiografia. A trama, como é de se esperar, é a adaptação da canção homônima composta por Renato Russo, da banda Legião Urbana, sobre esse casal que não se encaixa: ela é Leão, ele tinha 16; ela queria ver um filme do Godard, enquanto ele queria ir na lanchonete.

Alice Braga e Gabriel Leone interpretam Mônica e Eduardo em adaptação (Crédito: Divulgação/Downtown)

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É o mesmo caminho seguido em ‘Faroeste Caboclo’, outra canção de Renato Russo também adaptada pelo cineasta René Sampaio — o diretor de ‘Eduardo e Mônica’. Mas o que muda neste novo filme, abrindo esse horizonte de possibilidades, é a leveza encontrada por René. Há mais encanto, empolgação, verdade nessa história do que em toda a narrativa mais densa e pesada de ‘Faroeste Caboclo’. E, na vastidão cultural do Brasil, surgem novas possibilidades.

Acertos de ‘Eduardo e Mônica’

Mas antes de falarmos sobre essas possibilidades, vamos voltar um pouquinho para esses acertos de ‘Eduardo e Mônica’. A história, em essência, é bobinha e um tanto quanto batida: acompanha as idas e vindas do amor entre os dois protagonistas. Ele é mais novo e ingênuo, ela é mais velha e decidida. São realidades bem distintas. No entanto, eles se apaixonam de maneira avassaladora, do jeito que não tem como parar. É o amor, já diriam Zezé e Luciano.

Música curta, com pouco mais de quatro minutos, ‘Eduardo e Mônica’ tinha um desafio pela frente. Além de vencer o gosto agridoce que ‘Faroeste Caboclo’ deixou, o roteiro precisaria ser esperto a ponto de expandir o que é contado na música sem estragar a essência. Quem era o avô de Eduardo, que jogava futebol de botão com o neto? Como era a família de Mônica? Como eram as casas dos dois? Quem era o amigo do cursinho que levou Eduardo para uma festa?

Com esse espaço para a imaginação correr mais solta, René faz algumas pequenas maravilhas. Uma cena envolvendo a canção ‘Total Eclipse of the Heart’, por exemplo, é estrondosa: traz a naturalidade do romance daqueles dois com uma trilha sonora que passa emoção. Tudo ainda com grandes atuações: Alice Braga e Gabriel Leone acertaram no papel, com grande ajuda da maquiagem, e convencem como esse casal disfuncional. Eduardo e Mônica, aqui, são de verdade.

Chances e possibilidades

E o que faz com que esse filme abra tantas possibilidades como alardeamos lá no começo do texto? Quando ‘Faroeste Caboclo’ chegou aos cinemas, houve certo burburinho — afinal, Renato Russo nos cinemas — e não foi pra além disso. Só que ‘Eduardo e Monica’ mostra que há magia, sim, na adaptação de histórias contadas em músicas por aí. Dá para emocionar com o relacionamento que todo mundo, em apenas quatro minutos, pode saber o fim da história.

As histórias de Adoniran Barbosa, por exemplo, podem ganhar vida própria como o curta ‘Dá Licença de Contar’ já tinha mostrado — ‘Iracema’, ‘Trem das Onze’, ‘Apaga o Fogo Mané’ e ‘Saudosa Maloca’ são verdadeiras crônicas musicadas. Podemos ainda pensar em histórias de Chico Buarque (‘Construção’, ‘Geni e o Zepelim’), clássicos da Jovem Guarda (‘Parei na Contramão’, ‘Pare o Casamento’) e por aí vai. Há muitas histórias boas nas músicas brasileiras por aí.

Obviamente, é um formato que pode ser facilmente esgotado. No entanto, o Brasil está repleto de realizadores talentosos que podem colocar grandes artistas na tela sem cair no óbvio de mostrar nascimento, vida e morte. Isso sem falar dos vários formatos a partir disso, como animações ou até mesmo histórias paralelas que tenham uma música específica como mote.

Já passou da hora de ‘Evidências’, por exemplo, ser um hino apenas em karaokês.

Isso tudo, claro, é apenas um apanhado de ideias e sensações que surgiram a partir da boa experiência com ‘Eduardo e Mônica’. No entanto, veja só, já temos algumas coisas sendo feitas por aí: René já disse que outra música de Renato está sendo produzida para os cinemas, enquanto ‘Geni e o Zepelim’ também vai virar filme com direção da cineasta Anna Muylaert, cujo trabalho mais conhecido é ‘Que Horas Ela Volta?’. Ou seja: mais coisa boa vindo por aí.

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